Xântipe, A Mulher De Sócrates, O Filósofo. Monólogo Teatral e Teleteatro de Maurício Menossi Flores.
XÂNTIPE, A MULHER DE SÓCRATES, O FILÓSOFO.
Monólogo teatral e teleteatro em processo.
Esse homem! Esse meu homem... (Falando
para si mesma, vendo Sócrates desaparecer em uma esquina.)
De manhã ele sai descalço, sem
nem olhar se tem pão em casa. Eu grito: “Sócrates, o azeite acabou, o menino
precisa de sandália! ” E ele me responde: “Xântipe, o que é o azeite diante da alma?
”
A alma não enche barriga,
Sócrates!
E não me venham dizer que isso é falta
de compreensão da filosofia. Eu compreendo muito bem a filosofia dele. O que eu
não compreendo é como um homem pode passar a vida inteira perguntando o que é a
justiça sem perceber que a primeira injustiça pode estar dentro da própria
casa.
A cidade inteira é uma maravilha!
Atenas! A glória dos gregos! A democracia! Os cidadãos se reúnem, discutem,
votam, decidem os destinos da pólis. Os homens falam sobre a liberdade, a
virtude, o bem comum, a excelência da alma. E depois voltam para casa e deixam
às mulheres o cuidado de fazer o bem comum caber dentro de uma panela vazia.
Sim, porque a democracia é uma
coisa muito bonita quando se tem o privilégio de participar dela. Só que eu,
quando quero decidir o que vai ser do jantar, não convoco uma assembleia. Eu
olho para o cesto e descubro que a democracia dos grãos de cevada está em
profunda crise.
E ainda tenho de ouvir que a
mulher deve cuidar da casa, dos filhos, dos deuses domésticos, da reputação do
marido e da própria língua. Principalmente da própria língua. Uma mulher que
fala demais é insuportável; um homem que passa o dia inteiro interrogando os
outros é um filósofo.
Pois eu também tenho perguntas,
Sócrates! Tenho muitas! Só que ninguém me oferece um banquinho na ágora para
fazê-las.
Ele me deu três filhos.
Lamprocles, que já tem a testa franzida igual à do pai e já discute comigo.
Sofronisco e Menexeno, ainda pequenos, ainda mamam. Três bocas! E o que ele me
dá? Perguntas.
Quando ele está, ele está no
chão. Literalmente no chão, brincando com eles. Vi com meus próprios olhos
Alcibíades chegando, aquele moço bonito, todo perfumado, e encontrar o grande
Sócrates engatinhando, fazendo cavalinho para o Lamprocles rir.
Não é mau pai. Ele é...
distraído.
Ele não bate, não grita com eles.
Ele interroga.
“Lamprocles, o que é a justiça?
Você deve obedecer à sua mãe porque ela é sua mãe ou porque é justo obedecer? ”
O menino tem seis anos, Sócrates!
Deixa o menino comer!
Mas ele ama os filhos. De um
jeito torto, mas ama. Outro dia peguei-o olhando os três dormindo. Ficou ali,
parado, com aquela cara feia dele, com os olhos cheios d'água. Ele não me fala
que me ama. Mas fala aos deuses que se preocupa com a possibilidade de morrer e
deixá-los sem nada.
E vai deixar. Porque ele não
guarda um óbolo. Todo o dinheiro que entra ele dá, ou esquece. Sou eu que lavo,
que vou à feira, que pechincho, que calculo o preço do azeite, que descubro
como fazer a cevada durar mais um dia. Sou eu que aguento as vizinhas falando:
“Lá vai a mulher do maluco que fala sozinho na ágora. ”
E, quando o dinheiro não dá, sou
eu que tenho de explicar aos meninos que amanhã talvez haja mais.
Não troco, não. Porque quando ele
volta à noite, cansado, sujo, e Lamprocles corre para ele, eu vejo. Eu vejo que
meu filho tem um pai que prefere ser bom a ser rico. E, nessa Atenas cheia de
homens ricos, influentes e poderosos, talvez isso valha mais que pão.
Talvez.
Porque até a virtude, quando não
se tem cuidado, acaba por mandar a conta para a mulher.
Sócrates tem uma maneira
extraordinária de fazer uma conversa começar com o preço do peixe e terminar
com a natureza do bem. Eu digo: “O peixe está caro. ” Ele pergunta: “Mas o que
significa caro? ” Eu digo: “Significa que não posso comprá-lo! ” E ele: “Então,
Xântipe, a tua dificuldade está no peixe ou naquilo que consideras necessário
para viver? ”
No peixe, Sócrates! No peixe!
Às vezes tenho vontade de
sacudi-lo pelos ombros até que caia de dentro dele alguma coisa que não seja
uma pergunta.
Mas há noites em que me sento ao
lado dele e fico ouvindo. Não porque tenha deixado de estar zangada. Uma mulher
pode estar zangada e, ainda assim, escutar. Ele fala do que é bom, do que é
justo, do que significa conhecer a si mesmo. Diz que uma vida sem exame não
merece ser vivida.
E eu penso: muito bem, Sócrates.
Examina a tua vida. Examina a nossa. Examina a minha também. Mas não te esqueças
de que uma vida examinada continua precisando de água, de pão e de lenha.
Quem sabe seja esse o meu
trabalho filosófico: lembrar ao filósofo que o corpo também participa da
existência.
E há outra coisa. Outra mulher.
Sim, outra mulher. Mirto. Há
histórias, versões, cochichos que chegam até mim como chegam as notícias da
cidade: cada boca acrescenta alguma coisa, cada homem parece saber mais do que
a própria mulher. Não sei o que é verdade em todas essas histórias. Sei apenas
que os homens conseguem transformar até a vida de uma mulher em assunto para
suas conversas, sem que ela esteja presente para responder.
E eu me pergunto: que lugar dão a
uma mulher numa cidade que se orgulha tanto de sua inteligência?
Se Mirto existiu em sua vida como
dizem, que vida foi a dela? Que nome deram às suas preocupações? Que contas
precisou fazer? Que filhos precisou criar? Ou será que, quando falam de nós, só
lhes interessa saber a quem pertencemos?
Xântipe, mulher de Sócrates.
Mirto, mulher de Sócrates.
Como se uma mulher fosse apenas a
sombra de um homem!
Não sei o que houve entre eles.
Não vou inventar lágrimas nem disputas para agradar aos curiosos. Já basta a
cidade inventando histórias sobre todos nós. Mas sei que uma coisa é certa:
duas mulheres podem ser colocadas uma contra a outra por um mundo que não se
preocupa em perguntar o que cada uma delas deseja.
E eu não quero ser apenas a
mulher que grita com Sócrates. Nem quero que Mirto seja apenas um nome perdido
numa disputa de homens. Se tivemos de dividir alguma coisa — um teto, uma
preocupação, uma parte da vida dele —, que ao menos não nos roubem também a
nossa voz.
Porque ele, Sócrates, tem voz de
sobra.
Voz para discutir com os
generais, com os políticos, com os poetas, com os artesãos. Voz para incomodar
os poderosos e deixar os jovens pensando. Voz para dizer que não se deve
confundir riqueza com virtude, nem opinião com conhecimento.
Mas será que ele percebe que
também existe poder dentro de casa? Que o homem que não manda nos outros pela
força pode, sem perceber, deixar que os outros carreguem todo o peso da sua
liberdade?
Eu não quero um marido que me dê
ordens. Quero um companheiro que compreenda que a minha vida também é minha.
Será pedir demais?
Talvez eu devesse perguntar-lhe.
“Sócrates, o que é o casamento? ”
E ele responderia: “Precisamos
examinar a questão, Xântipe.”
Não! Hoje não vamos examinar
coisa nenhuma. Hoje vamos comprar pão.
E, no entanto, há alguma coisa
nele que me prende. Não é a fama. Fama não alimenta crianças. Não é a beleza,
porque, convenhamos, beleza não é a primeira palavra que me vem à cabeça quando
olho para aquele nariz. Não é o dinheiro, pois, se fosse, eu já teria ido
embora há muito tempo.
É que ele não se curva facilmente
diante de um homem só porque esse homem é rico. Não elogia um poderoso apenas
para conseguir um favor. Não parece acreditar que a verdade mude de natureza
conforme o bolso de quem a pronuncia.
E isso, em Atenas, não é pouca
coisa.
A cidade fala de liberdade, mas a
liberdade tem fronteiras. Há os cidadãos que deliberam, os estrangeiros que
trabalham, os escravizados que sustentam tantas casas, as mulheres que mantêm
outras tantas de pé. A riqueza de alguns repousa sobre o trabalho de muitos que
não podem decidir como a cidade será governada.
E os homens discutem a justiça.
Discutem-na com tanta paixão que
às vezes parece que a justiça é uma coisa que se encontra apenas quando se está
sentado numa assembleia, cercado de outros homens, e não quando se olha para
aquele que trabalha sem poder escolher o próprio destino.
Já perguntei a Sócrates o que ele
pensa disso. Ele me devolveu a pergunta, naturalmente.
“Xântipe, o que torna uma coisa justa?
”
Eu disse: “Talvez começar por não
chamar de natural aquilo que fazemos porque sempre fizemos. ”
Ele ficou quieto.
Pela primeira vez naquela tarde,
não encontrou uma pergunta para me devolver.
Não sei se concordou comigo. Não
sei sequer se entendeu o que eu quis dizer. Mas, por um instante, tive a
impressão de que a minha voz também podia abrir uma fresta naquela cabeça tão
cheia de ideias.
E talvez seja isso que me
enfurece e me encanta nesse homem: ele quer que todos pensem, mas às vezes se
esquece de ouvir quem pensa sem ter tempo de escrever, ensinar ou andar pela
cidade.
Eu também observo o mundo. Só que
observo enquanto separo os grãos, enquanto seguro um filho no colo e outro pela
mão, enquanto escuto o preço do azeite e calculo o que ainda falta. A minha
ágora é a casa. O meu debate acontece entre uma necessidade e outra. E a minha
filosofia, quando consigo praticá-la, consiste em não deixar que a miséria me
convença de que sou menos do que sou.
Lamprocles já começa a fazer
perguntas. Isso me preocupa.
Outro dia, perguntou por que o
pai conversa com homens importantes e não consegue conversar com o padeiro para
conseguir fiado.
Eu quase ri. Quase chorei.
“Porque teu pai, meu filho,
acredita que a verdade deve ser dita mesmo quando desagrada. ”
“E o padeiro acredita nisso? ”
Aí está! Aí está a pergunta que o
filósofo deveria fazer! Não apenas se a verdade deve ser dita, mas o que
acontece àquele que precisa ouvir a verdade e não pode pagar o pão.
Eu não quero que meus filhos
aprendam a mentir. Mas também não quero que confundam a pobreza com uma virtude
que devam desejar. Que sejam bons, sim. Que não humilhem ninguém para se
sentirem grandes. Que não vendam a consciência por um punhado de moedas. Mas
que saibam trabalhar, que saibam cuidar uns dos outros, que saibam reconhecer
quando alguém lhes pede um sacrifício que não está disposto a fazer por eles.
E que, quando crescerem, não
pensem que uma pergunta é sempre mais importante do que uma resposta. Há
perguntas que precisam ser feitas. Há respostas que precisam ser encontradas. E
há momentos em que uma criança precisa apenas de um pedaço de pão e de alguém
que se sente ao seu lado.
Sócrates entende a primeira
parte. Eu tento ensinar-lhe a segunda.
Talvez por isso continuemos
juntos.
Ou talvez eu continue porque,
apesar de tudo, conheço o homem que existe por trás do filósofo. Aquele que se
inclina para ouvir um menino. Aquele que não precisa de ouro para reconhecer a
dignidade de outro homem. Aquele que, quando pensa que ninguém está olhando,
contempla os filhos como se neles houvesse alguma coisa sagrada que ele não
sabe explicar.
Ele me ama? Não sei. Às vezes
acho que sim. Outras vezes penso que o amor dele é como aquelas ideias que
persegue pela cidade: está sempre em algum lugar, mas nunca chega à hora do
jantar.
E eu? Eu o amo?
Não me faço essa pergunta como se
a resposta pudesse ser arrancada de mim por uma assembleia. O amor não é uma
sentença que se pronuncia diante de testemunhas. Há dias em que o amo com
ternura; há dias em que o amo com raiva; há dias em que só quero que ele vá à
feira e compre o que falta.
Talvez amar alguém seja também
enxergar a distância entre aquilo que ele deseja ser e aquilo que consegue
fazer.
Mas não me peçam para transformar
essa distância numa obrigação minha.
Porque eu também sou uma pessoa,
Sócrates. Não apenas a mulher que espera. Não apenas a mãe que alimenta. Não
apenas a voz que reclama enquanto o grande filósofo procura a definição da
virtude.
Eu penso. Eu julgo. Eu duvido. Eu
também posso estar errada.
E, se a sabedoria começa por
reconhecer a própria ignorância, então talvez eu seja mais sábia do que
imaginas, meu marido. Pelo menos sei quantas coisas não sei. Tu, às vezes,
pareces querer perguntar até ao vazio o que ele significa.
O pior é que, quando te vejo
saindo de casa, descalço, com aquela túnica que já viu dias melhores, tenho
vontade de te chamar de volta. Não para impedir que vás discutir com os homens
da cidade. Não para te pedir que abandones essa tua busca. Mas para te lembrar
de que também existe um mundo aqui dentro, e que ele não é menos digno de
atenção.
Vai, Sócrates. Pergunta aos
cidadãos o que é a justiça. Pergunta aos poderosos o que é a virtude. Pergunta
aos jovens por que vivem como vivem. Faz com que desconfiem das certezas
fáceis.
Mas, quando voltares, pergunta
também aos teus filhos o que aprenderam. Pergunta a mim o que aconteceu durante
o dia. Escuta as respostas sem transformá-las imediatamente em novos problemas.
E, se houver pão, come conosco. Se não houver, ajuda-me a descobrir o que
faremos amanhã.
Porque uma casa também pode ser
um lugar de investigação. Uma família também pode aprender a pensar. E talvez a
filosofia, se quiser mesmo transformar a vida dos homens, deva começar por
reconhecer aqueles que sustentam essa vida sem receber sequer o direito de
falar em seu nome.
Não sou uma personagem de
tragédia. Não sou uma fúria enviada pelos deuses para castigar um filósofo. Sou
uma mulher de Atenas. Tenho filhos, contas, desejos, cansaço e uma língua que
não aprendeu a pedir licença para existir.
Se grito, é porque às vezes
ninguém me escuta quando falo baixo.
Se reclamo, é porque há coisas
que precisam mudar.
E se continuo aqui, não é porque
aceite tudo o que me dão. É porque ainda vejo, nesse homem estranho, uma
possibilidade. Não a possibilidade de se tornar rico, importante ou obediente
às convenções da cidade. Mas a de viver de acordo com aquilo em que acredita —
desde que aprenda que os outros também têm vidas, e que a virtude de um homem
não pode ser medida apenas pelas renúncias que ele próprio escolhe.
Ele diz que devemos cuidar da
alma.
Pois bem, Sócrates. Cuida da tua.
Eu cuido da minha. Mas vamos cuidar também dos nossos filhos, porque eles não
vieram ao mundo para servir de exemplo às tuas conversas.
E agora chega de filosofia.
Lamprocles está com fome.
E a alma, meus amigos, por mais
imortal que seja, ainda não aprendeu a mastigar.
Nisso, chega a notícia de que Sócrates está morto... Xântipe desmaia e o filho Menexeno acaba no chão, sem se
ferir, e sai engatinhando...
FIM
Maurício Menossi Flores
Comentários
Postar um comentário