A Água, O Morto E Os Lugares Perdidos. Conto De Maurício Menossi Flores.
A Água, O Morto E Os Lugares Perdidos. O carro era velho, de um modelo que parecia ter sobrevivido a uma época em que as coisas eram feitas para durar, ainda que à custa de muito ruído, fumaça e teimosia. A pintura, outrora de um azul escuro, descascava nas bordas, deixando aparecer manchas de ferrugem nas portas e nos para-lamas. O motor vibrava mesmo quando estava desligado, como se conservasse dentro de si uma inquietação que não lhe permitia repousar. Meu amigo dirigia havia algum tempo sem dizer palavra. Eu, sentado ao lado dele, olhava a cidade passar pela janela, atento às fachadas antigas, às marquises encardidas, às portas de aço abaixadas e aos homens que, naquela hora, começavam a ocupar as calçadas do Centro de São Paulo. Era uma manhã sem qualquer particularidade aparente. O céu estava coberto por uma camada uniforme de nuvens, e a luz, filtrada pela poluição, dava aos edifícios uma tonalidade amarelada, quase doentia. Os primeiros ônibus já circulavam p...