A neblina de Campos do Jordão parecia ter vontade própria naquela semana — densa, silenciosa, como se escondesse algo antigo entre os pinheiros. Foi ali que Miss Jane e Zé Grosso chegaram, casados há anos, mas já estranhos um ao outro.
Zé Grosso acreditava que aquela viagem reacenderia algo. Miss Jane, por sua vez, já havia atravessado um limite invisível: levava consigo um segredo — e um amante.
Ele se chamava apenas Daniel. Jovem, inquieto, com um olhar que parecia sempre saber mais do que devia. Durante dias, ele e Miss Jane caminharam pelos pontos turísticos, riram em cafés elegantes e, no passeio de trem pelas montanhas, trocaram olhares que diziam mais do que qualquer palavra. Enquanto isso, Zé Grosso, desconfiado, seguia pistas, observava silêncios, juntava pedaços.
Na última noite, a verdade se revelou.
O hotel era antigo, com corredores de madeira que rangiam como se reclamassem de cada passo. Zé Grosso, com o coração pulsando em fúria, encontrou o quarto. Lá dentro, os dois amantes estavam juntos, alheios ao mundo.
A porta foi arrombada.
O revólver apareceu antes mesmo das palavras.
Mas nada aconteceu como ele imaginava.
Daniel reagiu rápido demais — como se já esperasse. O revólver mudou de mãos. O caos tomou conta do quarto. Zé Grosso avançou mesmo desarmado, tomado por algo mais forte que o medo. Miss Jane tentou separar os dois, gritando, implorando.
Então veio o momento absurdo, quase irreal.
Um disparo.
Depois outro.
O silêncio caiu pesado. Zé Grosso caiu primeiro. Miss Jane, logo em seguida, como se a própria vida tivesse sido arrancada junto com ele. Daniel ficou imóvel, olhando para o que havia feito, como se o tempo tivesse quebrado ao seu redor.
A neblina do lado de fora parecia mais espessa naquela noite.
Os anos na penitenciária não foram apenas punição.
Foram transformação.
Daniel não falava muito, mas os outros presos começaram a notar coisas estranhas. Objetos que se moviam sozinhos. Sombras que não pertenciam a ninguém. Sonhos que se tornavam reais demais.
Ele mudou.
Algo dentro dele despertou — ou foi libertado.
Quando finalmente saiu, já não era apenas um homem carregando culpa. Era alguém que havia aprendido a tocar o que existe entre o mundo dos vivos e o dos mortos.
E então ele tentou.
Na primeira vez, quase não conseguiu. Uma presença, um frio súbito, um vulto. Depois, com o tempo, vieram as formas. Primeiro Zé Grosso — silencioso, pesado, mas sem ódio. Depois Miss Jane — mais nítida, mais próxima, como se nunca tivesse partido completamente.
O perdão não veio de palavras.
Veio de algo mais profundo.
Zé Grosso apenas olhou. E, de alguma forma, aquilo bastou.
Miss Jane… voltou diferente.
Ela não era totalmente humana, nem totalmente espectro. Surgia e desaparecia, mas sempre que estava ali, era real o suficiente para tocar, para sorrir, para amar.
E Daniel a chamava.
De novo.
E de novo.
E de novo.
Mas havia algo que ele nunca contou a ninguém:
Cada vez que Miss Jane era materializada, a neblina surgia ao redor.
E, às vezes, atrás dela… uma segunda sombra aparecia por um instante.
Parada.
Observando.
Esperando.
Zé Grosso nunca foi embora completamente.
Maurício Menossi Flores
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