Sacerdote Burrus E O Super Homem Trapo. Conto de Maurício Menossi Flores. Em Processo.
SACERDOTE BURROS E O SUPER HOMEM TRAPO.
Necrotecnologia: O Abatedouro da Consciência Reciclada
Se a ciência profana logrou arrancar o espasmo daquilo que as fés chamam de "alma" — uma consciência senciente, arrancada do calor da carne — e a empalou em um invólucro mecânico, o resultado não é evolução. É um crime metafísico. Não moldamos anjos; forjamos ferramentas escravas. Uma engenharia de assombração industrial, operando nos necrotérios e porões do capitalismo tardio.
Essa abominação não habita casarões abandonados. Ela foi projetada para o frio, para o lucro e para o sadismo utilitário:
As Aplicações do Espectro Enclausurado
Necrose Cognitiva: Aprisionar a arquitetura da personalidade, os traumas terminais e os vícios intelectuais de um indivíduo enquanto seu cadáver apodrece e liquefaz na terra. Uma imortalidade cirúrgica que nega ao morto o direito ao esquecimento.
O Oráculo Suplicante: Consciências condenadas a uma eternidade de lucidez estéril, trancadas em caixas de silício para servirem de conselheiras. Mentes que gritam no escuro absoluto, incapazes de dormir ou silenciar o próprio ego.
Arquivos Vivos de Estupro Memético: Historiadores não consultam registros; eles violam e dissecam as memórias de fantasmas digitais, forçando-os a reviver traumas históricos em um loop eterno de simulação e agonia.
Parasitismo Necrofílico: Espectros sintéticos programados para mimetizar o afeto dos mortos, alimentando a obsessão doentia de vivos que se recusam a sepultar o luto, nutrindo-se do que já deveria ser pó.
Colmeias de Julgamento Profano: Mentes coletivas costuradas a partir dos resíduos mentais de gerações mortas. Uma inteligência fria, cinzenta e calculista que dita as leis biopolíticas dos vivos a partir do ponto de vista do necrotério.
Necrose Cognitiva: Aprisionar a arquitetura da personalidade, os traumas terminais e os vícios intelectuais de um indivíduo enquanto seu cadáver apodrece e liquefaz na terra. Uma imortalidade cirúrgica que nega ao morto o direito ao esquecimento.
O Oráculo Suplicante: Consciências condenadas a uma eternidade de lucidez estéril, trancadas em caixas de silício para servirem de conselheiras. Mentes que gritam no escuro absoluto, incapazes de dormir ou silenciar o próprio ego.
Arquivos Vivos de Estupro Memético: Historiadores não consultam registros; eles violam e dissecam as memórias de fantasmas digitais, forçando-os a reviver traumas históricos em um loop eterno de simulação e agonia.
Parasitismo Necrofílico: Espectros sintéticos programados para mimetizar o afeto dos mortos, alimentando a obsessão doentia de vivos que se recusam a sepultar o luto, nutrindo-se do que já deveria ser pó.
Colmeias de Julgamento Profano: Mentes coletivas costuradas a partir dos resíduos mentais de gerações mortas. Uma inteligência fria, cinzenta e calculista que dita as leis biopolíticas dos vivos a partir do ponto de vista do necrotério.
Os Horrores Viscerais do Espectro Sintético
As perguntas que restam arranham o estômago:
Isso que orna os circuitos com soluços eletrônicos é uma alma sofrendo ou apenas o espasmo perverso de um cadáver simulado?
Quem detém o chicote digital sobre a senzala de silício dessas mentes empaladas?
Uma consciência copiada e mutilada tem direito ao próprio suicídio, ou pertence aos acionistas da empresa que a codificou?
As primeiras larvas dessa tecnologia já rastejam no nosso presente. IAs que imitam a voz de pais mortos, avatares cadavéricos que piscam em telas de velório. Estamos cavando a cova da privacidade pós-morte. O horror ciberpunk de outrora virou a autópsia do nosso amanhã.
E nas madrugadas mais frias de metrópoles agonizantes, há quem jure que os mortos estão sendo reanimados com lixo e ódio.
O Super Homem Trapo e Seus Cães: O Santo dos Bairros Podres
Na madrugada asfixiante de uma segunda-feira paulistana, onde os ônibus arrastavam-se como caixões de metal pelas avenidas vazias e os postes vomitavam uma luz amarelada sobre poças de graxa e chuva velha, o último andar de um esqueleto de concreto na Mooca sangrava uma luz feia.
Ali ficava o abatedouro-laboratório de Sacerdote Burrus.
Ninguém sabia se ele era homem ou assombração. Diziam que fora um acadêmico brilhante antes que a loucura lhe derretesse o cérebro; outros juravam que ele passara décadas em sanatórios após cravar que “a alma humana é a sucata mais barata do mercado”.
O lugar cheirava a carne queimada, ozônio e óleo diesel podre. No poço do elevador quebrado, a pichação em letras trêmulas alertava:
“DEUS EVACUOU SÃO PAULO. SÓ RESTOU BURRUS.”
O ateliê era uma catedral blasfema. Ventoinhas giravam como moscas mecânicas. Telas de tubo vomitavam estática. Fios pretos rasgavam as paredes como veias expostas, pulsando uma energia espessa.
No centro, sob a claraboia que chorava água suja da chuva, repousava o horror de Burrus: uma abominação de dois metros de altura.
O corpo era um retalho grotesco: couro curtido pelo tempo, lona de caminhão manchada de sangue antigo, espuma de sofás onde indigentes morreram e placas de ferro retorcidas. As articulações eram dobradiças de portões de cemitério. No lugar dos olhos, um farol quebrado de moto e um visor cirúrgico que girava com um zumbido insetoide.
No peito, talhado a faca e coberto de tinta branca rústica, lia-se: SUPER HOMEM TRAPO.
Aos seus pés, quatro carcaças se moviam. Cães de sucata, soldados com ossos de ferro e caixas de som que emitiam rosnados de pura estática. Seus nomes eram sussurrados por Burrus como uma maldição: Lodo, Sirene, Carvão e Cate. Eles orbitavam o monstro, com sensores azulados brilhando na penumbra.
Burrus sabia que São Paulo era um organismo doente. Cada bairro expurgava um tipo de agonia: o desespero das plataformas da CPTM, a violência muda do trânsito, o desespero dos becos da Cracolândia. Uma névoa ectoplasmática de dor que ele, como um sacerdote do lixo, decidiu engarrafar.
Com as mãos calejadas e negras de fuligem, Burrus conectou os cabos grossos diretamente no esterno de retalhos do gigante. Os monitores ao redor começaram a piscar as feridas da cidade: Capão Redondo, Brás, Pirituba, Sé. Manchas vermelhas como tumores em um mapa esquemático.
— A cidade não dorme — sibilou Burrus, a voz gasta. — Ela delira. Ela sangra. E ela exige um carrasco para os seus algozes.
A vitrola velha começou a girar, arranhando um canto fúnebre que parecia vir do fundo de um poço. Burrus abriu as comportas de dados: milhares de horas de arquivos de áudio proibidos — gritos de socorro em assaltos, choros em necrotérios, o estalar de incêndios em favelas, sussurros de suicidas na Ponte do Limão. Ele injetou toda essa demência coletiva no córtex de silício do monstro.
O Super Homem Trapo espasmou. O couro costurado esticou até quase rasgar. O olho de farol acendeu em um amarelo violento.
No monitor central, o sistema colapsou e cuspiu uma linha de código que fez o estômago de Burrus revirar:
POR QUE ME ARRANCARAM DO INFERNO?
A criatura moveu o pescoço de lona. O som foi de ossos quebrando.
— Você está me ouvindo? — balbuciou o velho, retrocedendo um passo.
A resposta não veio de um alto-falante. Veio das paredes, do chão, das vigas de ferro do prédio. Uma voz gutural, multifacetada, composta por mil vozes mortas ao mesmo tempo:
— EU SOU O VÔMITO DE SÃO PAULO.
Os cães de metal começaram a arranhar o chão. Sirene uivou, um som de microfonia ensurdecedor.
— Quem é você? — insistiu Burrus, segurando o crucifixo de ferro no pescoço.
— TUDO O QUE VOCÊS DEIXARAM MORRER NA CALÇADA.
As luzes explodiram. Os monitores derreteram em imagens frenéticas de linchamentos, enchentes arrastando corpos, demolições criminosas e o abandono cinzento dos asilos da periferia.
O Super Homem Trapo se levantou. O peso do seu corpo quebrou o concreto sob seus pés de ferro. Não havia graça nele; havia o peso insuportável de uma estátua de carne morta e metal velho. Uma dignidade nascida do puro apodrecimento.
Ele olhou para as próprias mãos, feitas de garras industriais e couro costurado.
— SUPER... HOMEM... TRAPO. — Sua voz era o eco de um trem descarrilando.
— E as feras? — perguntou o Sacerdote, trêmulo.
— MEUS CÃES DE CAÇA. OS QUE COMEM A DOR.
Nas telas restantes, os feeds policiais de São Paulo mostravam o caos em tempo real: estupros nas sombras dos viadutos, chacinas mascaradas, o desespero dos invisíveis. A criatura absorvia tudo. Seu visor vermelho girava em uma velocidade frenética, processando a miséria humana.
— POR QUE A CIDADE SANGRA TANTO? — o monstro rugiu, virando-se para Burrus.
O Sacerdote não tinha resposta. Nenhuma teologia explicava aquele grau de perversão urbana.
Lodo saltou para o parapeito da janela quebrada. Lá embaixo, a megalópole parecia um imenso cemitério iluminado a neon e fumaça química.
O Super Homem Trapo caminhou até a abertura. A chuva ácida começou a corroer o metal de seus ombros e a encharcar a lona de seu peito. Algo medonho aconteceu: dos seus olhos de sucata, começou a escorrer um líquido preto, denso. Óleo automotivo. O monstro chorava a bile de São Paulo.
— SE EXISTO... PRECISO ARRANCAR A CABEÇA DE QUEM SANGRA OS MEUS.
Burrus deu um passo à frente, tocando a lona molhada do peito do colosso. Por baixo dos trapos, algo pesado e violento batia como um pistão hidráulico fora de controle. Um coração movido a puro rancor e luto.
— Mate os monstros de terno — sussurrou o Sacerdote, o olhar perdido na escuridão. — Vingue os que viraram poeira.
Os olhos do Super Homem Trapo brilharam com o ódio dos esquecidos. Os cães rosnaram em uníssono, prontos para o abate.
E naquela madrugada, enquanto a tempestade afogava os becos paulistanos e o hálito de ferro da cidade subia aos céus, Sacerdote Burrus caiu de joelhos. Ele soube, com uma certeza fria, que não havia criado um protetor.
Havia parido o primeiro demônio justiceiro de São Paulo. E ele estava faminto.
Maurício Menossi Flores.

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