O Milagre Da Zona Norte. Conto De Maurício Menossi Flores.
O Milagre na Zona Norte
(Em processo, sem revisão.)
A casa amarela de dois andares,
cravada em uma das ladeiras silenciosas da Zona Norte de São Paulo, parecia
flutuar sob a luz cinzenta das tardes. No telhado, os painéis solares reluziam
como placas de vidro refletindo o céu paulistano, enquanto escadas externas de
concreto e portões de ferro compunham a fachada de um lar construído com o suor
de décadas.
Aos 62 anos, Seu Otávio
perambulava por aqueles cômodos como um fantasma em sua própria rotina. Careca,
de semblante cansado, vestindo sua habitual camiseta azul e calça bege, ele
ainda trazia no olhar o peso de uma saudade sem remédio. Havia quase um ano que
sua amada esposa, Helena, havia falecido.
Desde a partida dela, a casa se
tornara um santuário de memórias. O canto favorito de Helena continuava intacto:
no andar superior, próximo à janela que dava para a rua tranquila, repousava
uma singela cadeira de madeira azul. Era ali que ela passava horas lendo.
Helena sempre fora fascinada por literatura espírita. Devorava obras sobre
mediunidade, a sobrevivência da alma e a transição entre o mundo físico e o
espiritual. Otávio, homem prático, apenas a observava com carinho, ouvindo com
ceticismo respeitoso suas explicações sobre ectoplasma, energia e reencarnação.
Tudo mudou em uma quinta-feira
fria.
Otávio subia as escadas de
concreto para recolher as roupas do varal quando percebeu um silêncio denso e
diferente tomar conta do segundo andar. Ao entrar na sala de leitura, o ar
ficou subitamente gélido. Diante de seus olhos arregalados, a cadeira azul de
Helena começou a se mover. Não foi um tremor comum. O móvel levitou suavemente
a alguns centímetros do chão, flutuando como se sustentado por uma força
invisível. Abaixo e ao lado da cadeira, uma espécie de tecido néscio, uma névoa
violácea espessa e fluida, um rastro ectoplasmático, desenhava curvas no ar.
Otávio parou, paralisado de
espanto. Ele piscou várias vezes, tentando encontrar uma explicação lógica, um
desequilíbrio na estrutura, uma tontura, um truque da sua mente exausta. Mas a
cadeira flutuava serenamente.
— Helena?... Murmurou ele, com a
voz embargada pelo medo e pela esperança.
Nos dias seguintes, os fenômenos
se intensificaram. Sussurros ecoavam pelos corredores da casa da Zona Norte, as
páginas dos livros de Kardec na estante folheavam-se sozinhas e a luz que
entrava pelas janelas parecia ganhar uma densidade quase palpável.
Até que, exatamente no dia 15 de
outubro, a névoa lilás se concentrou no meio da sala. Otávio permaneceu de pé,
vestindo sua camisa azul, imóvel diante da revelação. Aos poucos, a fumaça
denso-luminosa começou a tomar contornos humanos. Do nevoeiro, a figura de
Helena se materializou. Ela emergiu com a pele clara, os cabelos castanhos
caindo suaves sobre os ombros e os olhos serenos, exatamente como ele se
lembrava em seus melhores dias.
A materialização era perfeita,
densa e visível. Otávio caiu em prantos. A esposa amada estava ali, viva e
presente diante de seus olhos.
— Eu voltei, Otávio, disse a voz
suave de Helena, ecoando não apenas no ar, mas diretamente na mente dele. — A
literatura que li por toda a vida não mentia. O amor rompe a barreira do corpo
físico. Eu consegui o ectoplasma necessário para me materializar para você.
Otávio deu um passo à frente, com
as mãos trêmulas estendidas. Mas, quando tentou tocar o ombro de Helena, seus
dedos atravessaram a imagem. Um arrepio congelante percorreu todo o seu ser.
Helena o olhou com uma profunda e
compassiva tristeza.
— Meu querido... você ainda não
entendeu? — perguntou ela, apontando para o chão ao lado da cadeira azul.
Otávio olhou para trás, para o
local onde costumava ficar.
Lá estava ele mesmo. Seu próprio
corpo, vestindo a camiseta azul e a calça bege, jazia caído ao lado da cadeira,
inerte, sem vida. Ele havia sofrido um infarto fulminante logo no primeiro dia
em que pensara ter visto a cadeira levitar.
O final surpreendente era que
Helena não havia descido ao mundo dos vivos para se materializar. A
"materialização" era, na verdade, a transição do próprio Otávio. Ele
já não pertencia mais ao mundo de carne e osso; seu espírito recém-desencarnado
é que estava finalmente se despertando e se densificando no plano espiritual
para enxergar Helena como ela realmente era.
Lado a lado, os dois espíritos
olharam uma última vez para o plano terrestre — para a casa amarela na Zona
Norte, com seus painéis solares refletindo a luz da tarde. Helena sorriu, tomou
a mão sutil de Otávio, e juntos eles caminharam para além das paredes daquele
lar, deixando para trás a velhice, a dor e a saudade.
Maurício Menossi Flores
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