O Códice da Cordilheira Plúmbea. Conto De Maurício Menossi Flores.

 





O Códice da Cordilheira Plúmbea

I. A Travessia e o Destino

A poeira das estepes secas parecia erguer-se como uma cortina cinzenta, acompanhando o trote incansável do cavalo castanho. Montado firmemente sobre o animal, o viajante mantinha a postura ereta, vestindo sua túnica clara e calças azuis. Com o braço erguido e o indicador apontando para a vastidão do horizonte, ele fixava os olhos no templo esquecido que despontava entre as rochas da Cordilheira Plúmbea.

Não era uma viagem impulsionada por curiosidade, mas por uma obsessão que o consumia há anos. Naquela biblioteca isolada do mundo, escondida sob os cumes áridos, repousava o último exemplar do Códice de Al-Qadim, um tomo cujas páginas continham segredos ancestrais capazes de reorganizar o conhecimento dos homens. A jornada fora longa e solitária, mas a visão das torres de pedra indicava que a busca finalmente chegara ao fim.

Ao cruzar o imponente portal de madeira carcomida do templo, o viajante desmontou e adentrou as sombras do recinto, onde o cheiro de paminha antiga e papel ressecado impregnava o ar.

II. O Confronto na Biblioteca

No coração do edifício subterrâneo, as estantes de madeira escura erguiam-se repletas de tomos organizados e alinhados. Porém, o viajante não estava sozinho. No exato instante em que localizou a prateleira onde o precioso livro estava guardado, uma figura sombria emergiu das penumbras da estante do fundo. Era um antigo rival, movido pela mesma cobiça desmedida.

Não houve tempo para palavras ou negociações. O ar de compaixão desapareceu e deu lugar ao calor da violência imediata. Os dois homens avançaram simultaneamente em direção ao mesmo ponto, colidindo violentamente contra o chão de pedra sob a sombra da estante de livros.

Em um combate corpo a corpo brutal, rolavam pelo piso frio. Joelhos se fincavam, braços se entrelaçavam em chaves sufocantes e cada muscularidade era levada ao limite na tentativa de imobilizar o oponente e alcançar o volume desejado.

III. A MORDIDA E O PREÇO DO CONHECIMENTO

À medida que a luta física se intensificava, o rival conseguiu projetar seu corpo sobre o viajante, imobilizando sua cabeça contra a pedra. Em uma manobra desesperada para se libertar do estrangulamento, o viajante levou a mão em direção ao rosto do agressor, tentando alcançar seus olhos ou empurrar seu queixo.

A resposta do oponente foi pura selvageria instintiva. Abrindo a boca com dentes afiados e cerrando o olhar em pura fúria, ele abocanhou com força impiedosa o dedo indicador que avançava contra sua face.

O som estalado da articulação se rompendo ecoou no silêncio da biblioteca.

Com uma mordida impiedosa e contínua, os dentes fecharam-se até atravessarem a carne e o osso, decepando completamente a extremidade do dedo. O sangue espirrou sobre as vestes e a dor lancinante fez o viajante soltar um grito gutural. Abaixo do rosto do agressor, o pedaço do dedo decepado caiu sobre a pedra limpa, com as fibras musculares e o osso expostos como uma trágica marca do preço exigido pela ganância.

Enquanto o oponente se engasgava momentaneamente com o gesto macabro, a dor transformou-se em adrenalina pura. Usando a perna livre, o viajante desferiu um chute desesperado no peito do rival, afastando-o com violência. Cambaleante, manchando o chão de carmesim, o viajante estendeu a mão mutilada, agarrou o códice da prateleira com a mão restante e correu em direção à luz da saída, deixando para trás seu sangue, um pedaço de si e a sombra de seu algoz.

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