Cabalá E Zohar: O Manuscrito De Ávila. Conto De Maurício Menossi Flores.
Cabalá E Zohar: O Manuscrito De Ávila.
(Em processo, sem revisão.)
Castela, inverno de 1305. Moisés
ben Shem-Tov de Leão morreu pobre. Tão pobre que não teve nem lápide. Tinha 65
anos. Os três dias de agonia foram numa estalagem em Arévalo, voltando de
Valladolid, com febre. No quarto frio, ele queimou muitos papéis antes de
morrer.
Em Ávila, sua viúva e sua
filha ficaram com as dívidas dos copistas. Foi nessa casa que, semanas depois,
bateu Isaac ben Samuel de Acre.Isaac era o oposto de Moisés. Jovem, rico,
discípulo de Nachmânides em Israel, tinha vindo para a Espanha para fugir da
destruição de Acre pelos mamelucos em 1291. Ele era um caçador de manuscritos.
E ele desconfiava. Todo mundo
em Castela falava da mesma coisa há 20 anos: Moisés de Leão, o copista faminto
de Guadalajara, de repente tinha começado a tirar do bolso, caderno por
caderno, um livro impossível. Um livro em aramaico, como nos tempos da
Galileia. Que dizia ser o Midrash secreto de Rabi Shimon bar Yochai, o Rashbi,
aquele que se escondeu 13 anos numa caverna em Pekiin com seu filho Elazar,
comendo alfarrobas, enquanto os romanos caçavam os rabinos.
Ninguém nunca tinha visto esse
Midrash. Nem Nachmânides, nem os Gaonim da Babilônia. Mas quando Moisés lia em
voz alta, os rabinos choravam. Era lindo demais para ser falso. Chamaram de
Sefer HaZohar, o Livro do Esplendor, por um verso de Daniel.Moisés dizia:
"Eu não sou o autor. Eu só tenho uma cópia muito antiga. O original está
comigo, mas não posso mostrar, é muito sagrado. "E vendia as cópias por
muito ouro.
Isaac de Acre foi até Ávila
porque queria comprar o original. Ele encontrou a viúva varrendo a casa. E fez
a pergunta que já circulava nas sinagogas de Burgos: "Senhora, seu marido,
que Deus o tenha, de onde tirou o Zohar?" A história oficial, registrada
pelo próprio Isaac de Acre no livro Meirat Enayim, e depois confirmada 40 anos
depois por um discípulo de Isaac chamado Isaac ben Todros, diz que a viúva riu,
amarga e disse: "Juro por Deus que meu marido nunca teve livro antigo
nenhum. Tudo saía da cabeça dele. Eu o via escrever dia e noite. Quando eu
perguntava por que ele dizia que copiava de um livro antigo de Shimon bar
Yochai, ele me respondia: 'É que se eu disser que sou eu, Moisés de Leão, quem
escreveu, ninguém vai pagar e ninguém vai acreditar. Mas se eu disser que é o Rashbi,
vão pagar uma fortuna e vão considerar sagrado'."
Essa é a história que matou o
Zohar por 700 anos para os acadêmicos. Gershom Scholem usou exatamente isso
para provar em 1940 que o aramaico do Zohar é um aramaico falso, com erros de
gramática que um nativo do século II nunca cometeria, com palavras em
castelhano medieval como esnoga para sinagoga, e com ideias de filósofos do
século 13 como Maimônides.
Isaac de Acre, naquela mesma
tarde em Ávila, não acreditou na viúva. Ele achou que ela estava com raiva do
marido morto que a deixou sem nada. Então ele esperou ela sair para buscar água
no poço e subiu no sótão onde Moisés escrevia. O sótão era uma tábua com um
colchão de palha. Cheirava a tinta. Tinha potes de fel de boi, penas de ganso,
e uma arca de cedro trancada. A viúva disse que era a roupa dele. Isaac quebrou
o cadeado com uma pedra. Dentro não tinha roupa. Tinha um único volume,
encadernado não em couro de Castela, mas em couro muito mais claro, quase
branco, costurado com tendão. Não era caderno. Era um códice pesado. Sem
título. Ele abriu. A primeira página não estava em aramaico. Estava em hebraico
quadrado, lindo, da Terra de Israel. E dizia: Eu, Berechiah ben Natronai ha-Nakdan,
de Acre, copiei este Midrash de Rabi Shimon de um manuscrito que encontrei na
Genizá de Tiberíades, no ano de 1225, e trouxe para o Ocidente.
Isaac congelou. Berechiah
ha-Nakdan, o famoso fabulista judeu, tinha morrido 100 anos antes. Acre
folheou. Não era o Zohar que Moisés vendia. Era muito menor. Mais bruto. Sem a
poesia, sem as longas histórias do Idra Rabá e Idra Zutá. Mas todas as ideias
centrais estavam lá, como sementes: o Ein Sof, as dez Sefirot como vasos que se
quebraram, o homem como imagem da árvore. No fim do códice, com outra tinta,
uma anotação em espanhol judaico, com a letra inconfundível de Moisés de Leão,
que Isaac reconhecia das cópias que comprava: "Encontrei este livro de
Berechiah em Valladolid em 1275 na casa de um comerciante. É pequeno e confuso.
Passei 10 anos trabalhando sobre ele, expandindo-o, colocando-o em aramaico
para que pareça antigo, e dando-lhe a voz do Rashbi e de seu filho. Se alguém
perguntar, direi que tenho o original. Que Deus me perdoe, preciso sustentar
minha família. - Moisés"
Isaac entendeu tudo em um
segundo. Moisés de Leão não tinha mentido totalmente. E a viúva também não. Ele
não tinha inventado o Zohar do nada. Ele tinha encontrado uma semente real,
antiga, talvez realmente vinda da Terra Santa, trazida por Berechiah. Uma
semente de 40 páginas. E ele passou 10 anos regando essa semente com toda sua
genialidade, seu sofrimento, sua fome, até ela virar uma floresta de 1000
páginas. O Livro do Esplendor. Ele inventou o aramaico, inventou os diálogos,
inventou os amigos do Rashbi andando pelos campos da Galileia - mas a raiz era
verdadeira.
Isaac fechou a arca. Não levou
o livro. Desceu as escadas, deu à viúva algumas moedas de ouro pelo incômodo, e
foi embora de Ávila sem dizer nada. Diz a lenda que ele enterrou aquele códice
de Berechiah em algum lugar nas muralhas de Ávila, para que ninguém nunca mais
precisasse escolher entre fé e história. Porque se o povo soubesse que o Zohar
era metade verdadeiro e metade invenção humana, eles o queimariam. E se
soubessem que era totalmente inventado, eles o ignorariam. De ambos os jeitos,
o esplendor se perderia. Foi melhor deixar os dois viverem: o Moisés faminto
que precisava vender milagre para comer, e o Shimon bar Yochai na caverna, que
talvez, de alguma forma, tenha realmente sussurrado alguma coisa no ouvido de
um copista pobre em Castela.
Maurício Menossi Flores

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