Arte Com Lixo, Aparentando Lixo, Sem Querer Ser Luxo. O Trabalho De Maurício Menossi Flores.
Arte Com Lixo, Aparentando Lixo, Sem Querer Ser Luxo. O Trabalho De Maurício Menossi Flores.
Observo que é comum haver um
ideal estético, quando, por exemplo, vejo o cenário de um programa do YouTube
bem arrumado, com objetos bem acabados, cores sóbrias e estimulantes, tudo bem
organizado e limpo. Tento desenvolver uma arte do feio, feita de lixo e que
pareça lixo, partindo do princípio de que qualquer objeto, vindo de um rico ou
de um pobre, acaba empoeirado, sujo, quebrado, ou seja, acaba equivalendo-se
aos novos, etc. Qual os quais artistas mantém o mesmo objetivo que eu?
O que você descreve tem
afinidades bastante fortes com algumas correntes da arte moderna e
contemporânea, mas há uma particularidade importante na sua proposta: você não
quer apenas transformar o lixo em arte; quer questionar a própria ideia de que
as coisas precisam ser belas, novas, limpas e bem apresentadas para terem
valor.
Há também uma ideia filosófica
interessante no que você diz: os objetos, independentemente da riqueza de quem
os possui, estão submetidos ao tempo, ao desgaste, à sujeira e à deterioração.
A aparência de distinção social não é permanente. Aquilo que hoje se apresenta
como sofisticado pode amanhã estar quebrado, empoeirado ou abandonado.
Eu investigaria principalmente os
artistas abaixo. Alguns se aproximam muito do que você pretende; outros podem
ajudar a desenvolver as implicações filosóficas e estéticas do seu trabalho.
1. Artistas que mais se aproximam
da sua proposta

1. Robert Rauschenberg
Muito próximo
Objetos descartados como matéria
artística
Em suas obras chamadas Combines,
Rauschenberg incorporou objetos cotidianos, materiais usados e elementos que
não correspondiam à ideia convencional de pintura ou escultura nobre. Sua obra Bed
(1955), por exemplo, incorpora uma cama e roupa de cama à pintura.
Ele é uma referência importante
para você porque dissolve a fronteira entre a obra de arte e as coisas comuns,
sem precisar transformar tudo em algo visualmente agradável.

2. Daniel Spoerri
Restos, sujeira e vestígios da
vida
Spoerri ficou conhecido pelos tableaux-pièges,
ou quadros-armadilha: conjuntos de objetos cotidianos, frequentemente pratos,
talheres e restos de refeições, fixados em sua disposição habitual e
apresentados como obras.
O que normalmente seria limpo e
descartado passa a ser preservado. O vestígio de uma atividade humana ganha o
mesmo estatuto de um objeto digno de contemplação.

3. Kurt Schwitters
A estética do fragmento e do
refugo
Schwitters criou obras com
bilhetes, papéis, embalagens e fragmentos encontrados. Seu projeto artístico Merz
incorporava materiais rejeitados pela vida cotidiana, enquanto o Merzbau transformava
o espaço em uma construção composta por acúmulos e elementos heterogêneos.
É especialmente relevante se você
pretende trabalhar com materiais que conservem sua aparência de resto, sem disfarçar
sua origem.

4. Michelangelo Pistoletto
O confronto entre o belo e o
desprezado
Em Venere degli stracci (Vênus
dos trapos, 1967), uma escultura clássica de Vênus é colocada diante de uma
grande pilha de roupas usadas.
A obra confronta a tradição da
beleza idealizada com materiais banais, gastos e descartados. Essa oposição tem
relação direta com sua crítica aos cenários cuidadosamente montados e à
apresentação impecável dos objetos.

5. Jannis Kounellis
Materiais sem prestígio e
antiacabamento
Kounellis trabalhou com carvão,
sacos, ferro e outros materiais industriais ou cotidianos. Em suas instalações,
os materiais não precisam esconder sua condição física para integrar uma obra.
Ele pode ajudar você a pensar em
como apresentar materiais brutos e gastos sem convertê-los em objetos
decorativos convencionais.

6. Mierle Laderman Ukeles
O lixo como questão social e
material
Ukeles investigou a limpeza, a
manutenção e os sistemas de coleta de resíduos. Sua obra torna visível aquilo
que a sociedade procura retirar de vista para preservar a aparência de ordem.
A diferença é que seu foco está
especialmente no trabalho de manutenção e nas estruturas sociais que sustentam
a limpeza urbana. Isso oferece uma dimensão política importante para sua
pesquisa.
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National Women's History Museum
+1

7. Arman
O acúmulo como crítica ao consumo
Arman produziu acumulações de
objetos em série e obras com resíduos, inclusive em sua série Poubelles,
composta por recipientes com lixo e restos de consumo.
Ele é relevante para investigar
como coisas aparentemente sem valor podem revelar hábitos de consumo, excesso e
descarte. Seu trabalho, porém, também pode resultar em composições visualmente
atraentes — algo que talvez você queira evitar.
2. Correntes artísticas que você deveria
estudar

Arte Povera
Movimento italiano que valorizou
materiais simples, naturais, industriais e pouco nobres. É uma referência para
abandonar a exigência de acabamento luxuoso e a hierarquia entre materiais
artísticos.

Dadaísmo
Questionou as convenções da arte,
a noção de obra nobre e a separação entre arte e vida cotidiana. Ajuda a pensar
o objeto encontrado não como algo que precisa ser embelezado, mas como algo que
pode perturbar as convenções.

Arte abjeta (Abject Art)
Explora aquilo que provoca
repulsa, desconforto ou rejeição e que as convenções sociais procuram excluir.
É particularmente relevante se você quer questionar os padrões de limpeza e
respeitabilidade, embora nem toda arte abjeta trate de lixo ou deterioração.

Arte do descarte e crítica ao
valor
O Salvage Art Institute, por
exemplo, trabalha com obras consideradas irrecuperáveis ou sem valor comercial
após danos. Essa perspectiva é útil para investigar a diferença entre o valor
material, econômico e simbólico de um objeto.

Whitney Museum of American Art
3. O ponto em que sua proposta se
torna própria
Existe uma distinção importante entre
três atitudes artísticas:
|
Atitude |
O que faz com o objeto |
|
Arte que embeleza o lixo |
Transforma o descarte em uma
composição atraente. |
|
Arte que representa o lixo |
Mostra a sujeira, a ruína e a
deterioração como temas. |
|
Sua proposta, tal como a
entendo |
Procura conservar ou produzir a
condição de descarte e questionar por que exigimos que as coisas pareçam
novas, limpas e valiosas. |
A terceira atitude é a mais
interessante para desenvolver como pesquisa autoral. Ela não se limita a
representar a feiura: põe em questão os critérios que definem o que merece ser
mostrado, conservado e admirado.
Uma questão especialmente fértil
é esta: se um objeto caro e um objeto barato acabam sujeitos à mesma
deterioração, o que resta da hierarquia que os separava?
A resposta não é necessariamente
que eles se tornam idênticos em todos os sentidos. Seus materiais, histórias e
condições sociais continuam diferentes. Mas sua ideia permite mostrar como o
tempo pode corroer a aparência que sustentava determinadas distinções de valor.
4. Um cuidado conceitual: não
transformar a feiura em uma nova beleza
Há um paradoxo que pode ser
decisivo no seu trabalho. Quando um artista seleciona cuidadosamente o lixo,
organiza os fragmentos, escolhe uma iluminação sofisticada e os coloca em uma
galeria, o descarte pode adquirir uma nova aparência de luxo. O feio se torna
belo, elegante e comercializável.
Se você quer resistir a esse
processo, pode investigar:
Antiacabamento: deixar visíveis
as marcas de fabricação, os remendos, as falhas e o desgaste.
Acumulação sem harmonização:
evitar que cores e formas sejam organizadas para produzir uma composição
agradável.
Desvalorização material:
trabalhar com objetos cujo estado não seja corrigido para a exposição.
Igualação pelo tempo: reunir
objetos de diferentes origens sociais e econômicas para observar como poeira,
desgaste e obsolescência alteram sua aparência.
Recusa da cenografia impecável:
questionar se a apresentação expositiva precisa sempre conferir dignidade,
ordem e distinção àquilo que exibe.
Isso não significa que toda obra
precise ser desorganizada ou que a sujeira, por si só, seja uma crítica. O
importante é que as decisões formais tenham relação com sua ideia.
5. Por onde eu começaria
Eu estudaria, nesta ordem:
Robert Rauschenberg, para
compreender a incorporação de objetos comuns à arte.
Michelangelo Pistoletto, para
estudar o confronto entre beleza tradicional e descarte.
Arman, para explorar o acúmulo e
a desvalorização dos objetos de consumo.
Mierle Laderman Ukeles, para
compreender como a sociedade produz e esconde o lixo por meio de sistemas de
limpeza e manutenção.
Arte abjeta, para aprofundar a
questão da repulsa e da exclusão estética.
E consideraria uma formulação
provisória para seu projeto: uma estética da deterioração e da desvalorização,
ou talvez uma antiestética do descarte.

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