A Água, O Morto E Os Lugares Perdidos. Conto De Maurício Menossi Flores.

 



A Água, O Morto E Os Lugares Perdidos.

 

O carro era velho, de um modelo que parecia ter sobrevivido a uma época em que as coisas eram feitas para durar, ainda que à custa de muito ruído, fumaça e teimosia. A pintura, outrora de um azul escuro, descascava nas bordas, deixando aparecer manchas de ferrugem nas portas e nos para-lamas. O motor vibrava mesmo quando estava desligado, como se conservasse dentro de si uma inquietação que não lhe permitia repousar. Meu amigo dirigia havia algum tempo sem dizer palavra. Eu, sentado ao lado dele, olhava a cidade passar pela janela, atento às fachadas antigas, às marquises encardidas, às portas de aço abaixadas e aos homens que, naquela hora, começavam a ocupar as calçadas do Centro de São Paulo.

Era uma manhã sem qualquer particularidade aparente. O céu estava coberto por uma camada uniforme de nuvens, e a luz, filtrada pela poluição, dava aos edifícios uma tonalidade amarelada, quase doentia. Os primeiros ônibus já circulavam pelas avenidas, os comerciantes levantavam as portas de seus estabelecimentos e os funcionários das repartições caminhavam apressados, com pastas debaixo do braço e copos de café nas mãos. A cidade começava o seu dia sem saber que, dentro daquele automóvel, havia um segredo que não poderia ser entregue a ninguém.

O homem morto estava no porta-malas.

Não me recordo de ter visto o momento em que morreu, nem de saber ao certo quem era. Tampouco me lembro de termos discutido, meu amigo e eu, o que faríamos com ele antes de sairmos. A existência daquele corpo parecia anterior a qualquer explicação. Estava simplesmente ali, embrulhado em plástico preto, ocupando o espaço destinado às malas e aos objetos que as pessoas carregam quando viajam. A morte, naquele caso, havia sido reduzida a um volume inconveniente, uma coisa que precisava ser transportada de um lugar a outro antes que alguém descobrisse sua presença.

Meu amigo dirigia com as duas mãos no volante. De vez em quando, olhava pelo retrovisor, e eu tinha a impressão de que não observava os carros que vinham atrás, mas alguma coisa que nos acompanhava havia muito tempo.

— É aqui. Disse ele, de repente.

Parou numa rua estreita, entre dois edifícios antigos, cujas fachadas guardavam a fuligem de muitas décadas. Havia ali uma oficina mecânica, um pequeno depósito de materiais elétricos e a entrada lateral de um prédio comercial. Na calçada, um homem varria folhas secas que o vento trazia de uma rua próxima. Mais adiante, um entregador descarregava caixas de um caminhão. Ninguém parecia prestar atenção em nós.

Meu amigo desligou o motor.

O silêncio que se seguiu foi tão repentino que pude ouvir o estalo metálico do escapamento esfriando.

— Vamos. Disse ele.

Saímos do carro e nos dirigimos à traseira. Ele olhou para um lado e para o outro antes de abrir o porta-malas. O cheiro que escapou de dentro era abafado, uma mistura de plástico, umidade e alguma coisa que preferi não identificar. O embrulho estava deitado de lado, ajustado ao espaço disponível, com as extremidades dobradas sob o peso do corpo.

Por um instante, fiquei imóvel.

Não era propriamente o medo que me impedia de agir. Era uma espécie de espanto diante da naturalidade com que tudo acontecia. A rua permanecia a mesma, o homem continuava varrendo a calçada, o caminhão seguia sendo descarregado. A vida não interrompia seu curso para acomodar a gravidade daquilo que estávamos fazendo. O mundo, indiferente, permitia que um morto fosse retirado de um automóvel como se fosse um móvel velho ou um saco de entulho.

Seguramos o embrulho pelas extremidades e o retiramos do porta-malas. O peso nos obrigou a inclinar os corpos. O plástico estalou contra o asfalto, e uma das pontas quase escapou de minhas mãos.

— Cuidado. Murmurou meu amigo.

Atravessamos a calçada em direção ao prédio. A entrada era recuada, protegida por uma marquise de concreto. Havia um corredor escuro depois da porta, e, ao fundo, um elevador antigo, daquela cuja grade de metal precisa ser puxada manualmente. Não sabíamos exatamente onde deixaríamos o corpo. Apenas sabíamos que ele precisava desaparecer, e o prédio, com seus corredores pouco iluminados e suas inúmeras portas, pareceu-nos oferecer a possibilidade de um esconderijo.

Ao chegarmos à entrada, percebi uma placa de bronze com o nome de uma empresa que já não existia. As letras estavam gastas, e a placa pendia ligeiramente para a esquerda. A porta de vidro permanecia entreaberta.

Entramos.

O ar no interior era frio e tinha o cheiro dos lugares fechados por muito tempo: papel antigo, poeira, madeira úmida e produtos de limpeza. A luz do corredor era insuficiente para revelar o que havia além de alguns metros. Deixamos o corpo junto a uma parede, perto de uma porta que parecia dar acesso a uma escada de serviço. Precisávamos encontrar um lugar mais escondido, mas, antes que pudéssemos decidir o que fazer, ouvimos vozes vindas de dentro do edifício.

Homens estavam descendo.

Meu amigo soltou o embrulho e me olhou. Não foi necessário que dissesse nada. O mesmo pensamento atravessou os dois: tínhamos sido vistos.

As vozes se aproximaram. Primeiro, ouvimos o ruído de passos, depois uma risada curta e o som de uma chave batendo contra alguma superfície metálica. A porta de um dos escritórios se abriu, e três homens apareceram no corredor. Um deles carregava uma pasta de couro; outro, um telefone celular. O terceiro vinha um pouco atrás, com as mãos nos bolsos.

Os três caminhavam em nossa direção.

Ficamos junto à parede, entre o embrulho e a entrada do corredor. Meu amigo baixou os olhos. Eu tentei parecer alguém que aguardava uma pessoa ou que se perdera naquele edifício. O corpo, coberto pelo plástico preto, estava a poucos passos de nós.

Os homens continuaram conversando.

Um deles olhou para o lado em que estávamos. Não posso afirmar que tenha visto o embrulho, mas seus olhos demoraram um pouco mais do que seria necessário para uma olhada casual. Senti o sangue bater nas têmporas. A pasta de couro passou diante de mim, seguida pelo telefone e pelas mãos enfiadas nos bolsos. Os três atravessaram a porta de vidro e desapareceram na rua.

Esperamos.

Só quando o som dos passos se misturou ao barulho do trânsito meu amigo voltou a respirar normalmente.

— Eles viram?  Perguntei.

Ele não respondeu de imediato. Olhou para a porta, depois para o corredor, como se esperasse que um dos homens voltasse.

— Não sei.

Era a pior resposta que poderia ter dado.

Retornamos ao carro sem terminar o que havíamos começado. Não conversamos sobre o morto, sobre o prédio ou sobre o que faríamos caso alguém nos procurasse. Meu amigo ligou o motor, engatou a marcha e saiu da rua devagar. Eu me virei uma última vez para olhar a entrada do edifício. A porta de vidro refletia a fachada do prédio em frente, e, por trás dela, o corredor parecia inteiramente vazio.

A cidade continuava funcionando.

Pouco depois, já não conseguia distinguir a rua em que havíamos parado das outras ruas do Centro. O carro avançava entre ônibus, motocicletas e táxis, e eu observava os rostos das pessoas nas calçadas, tentando descobrir se algum deles guardava a lembrança do nosso encontro com o homem morto. Todos me pareciam suspeitos, embora nenhum tivesse razão para sê-lo. Um homem que fumava diante de uma banca de jornais me olhou por um instante, e tive a certeza absurda de que sabia de tudo. Uma mulher atravessou a rua carregando uma sacola de compras, e imaginei que ela pudesse ter visto o carro parado, o porta-malas aberto, o embrulho negro.

Depois, os pensamentos se dispersaram. A cidade engoliu o episódio com a mesma facilidade com que engolia os ruídos, os rostos e os acontecimentos de cada dia.

Eu precisava voltar à vida comum.

E foi assim que, algumas horas mais tarde, me encontrei ao lado de minha esposa, diante da porta de um bar que frequentávamos havia bastante tempo.

O bar ficava numa rua de movimento moderado, numa região em que os edifícios residenciais dividiam espaço com pequenos restaurantes, lojas de roupas e estabelecimentos que só abriam à noite. Não era um lugar particularmente bonito. As paredes tinham manchas de infiltração, as mesas eram pesadas e as cadeiras não combinavam entre si. Havia, porém, uma familiaridade naquele ambiente que me fazia voltar sempre. Eu conhecia os garçons, sabia quais mesas ficavam mais protegidas das correntes de ar e reconhecia, pelo ruído da porta, a chegada de alguns frequentadores habituais.

Naquela noite, contudo, o bar estava diferente.

Haveria um show musical, e o movimento já começava a se concentrar na entrada. Cartazes anunciavam a apresentação de um grupo que parecia bastante conhecido entre os frequentadores da região. As mesas estavam sendo reorganizadas, alguns instrumentos já haviam sido montados num pequeno palco improvisado e os funcionários circulavam com uma pressa incomum. O som de vozes misturava-se a trechos de música que escapavam dos alto-falantes, ainda em fase de teste.

Eu teria preferido outra noite.

Minha esposa percebeu minha hesitação quando paramos diante da entrada.

— O que foi?

— Nada. Vamos entrar.

Mas não era nada. Ou, pelo menos, não era uma coisa que eu pudesse explicar em poucas palavras.

Entre as pessoas que se encontravam ali, reconheci alguns frequentadores de outro bar, aquele de que eu havia sido expulso. A expulsão, embora ocorrida havia algum tempo, continuava a me parecer um acontecimento recente. Não porque eu pensasse nela todos os dias, mas porque certas lembranças não obedecem ao calendário. Permanecem guardadas em algum lugar da consciência e reaparecem com uma nitidez que o presente não consegue justificar.

Naquele outro estabelecimento, eu havia construído uma rotina. Tinha meus lugares, meus horários, meus conhecidos e uma maneira própria de ocupar o espaço. Havia uma mesa em que costumava me sentar, de onde podia acompanhar o movimento do salão sem precisar me voltar a cada instante. Conhecia a disposição das garrafas atrás do balcão, os assuntos que se repetiam entre os clientes e as pequenas rivalidades que davam àquele ambiente a aparência de uma comunidade.

Depois da expulsão, tudo isso se tornara inacessível.

O bar continuava existindo. As mesas continuavam no mesmo lugar. As pessoas que me conheciam continuavam frequentando-o. Apenas eu deixara de pertencer àquele mundo, e essa era uma forma de exclusão que não se encerrava no momento em que a porta se fechava atrás de mim. Eu continuava carregando comigo o lugar que perdera, como se o espaço vazio à mesa ainda tivesse a forma do meu corpo.

O que me incomodou, ao entrar no bar daquela noite, foi perceber que algumas das pessoas responsáveis por tornar insuportável a minha presença no estabelecimento antigo estavam agora ali, ocupando um espaço que eu considerava meu por direito de hábito.

Não havia nada que me impedisse de entrar. Ninguém poderia alegar que eu estava proibido de frequentar aquele novo bar. Ainda assim, senti a mesma apreensão que me acompanhara no edifício do Centro, diante dos homens que desciam pelo corredor. Era como se a possibilidade de ser descoberto tivesse mudado de natureza, mas permanecesse intacta.

No prédio, temia que descobrissem o morto.

Ali, temia que descobrissem a minha humilhação.

Minha esposa entrou primeiro. Segui-a até o salão, procurando uma mesa disponível. Foi então que o vi.

Sentado numa mesa próxima à parede, encontrava-se meu maior desafeto, um homem cuja presença sempre me despertava uma irritação difícil de disfarçar. O que mais me surpreendeu não foi encontrá-lo ali, mas vê-lo sentado exatamente no lugar que, no bar de que eu fora expulso, costumava ser o meu.

Conhecia aquele lugar. Eu me sentara ali inúmeras vezes, durante anos, e havia nele algo que ultrapassava a simples conveniência de uma cadeira ou de uma mesa. Era o ponto a partir do qual eu acompanhava o movimento do salão, conversava com os conhecidos e me sentia parte daquele ambiente. Não havia qualquer razão objetiva para considerar aquela mesa minha. Mas os hábitos, quando se repetem durante muito tempo, acabam adquirindo a consistência de um direito.

Meu desafeto, por sua vez, jamais se sentava naquele lugar no bar antigo. Até onde eu sabia, continuava frequentando o estabelecimento de onde eu havia sido expulso. Sua presença naquela mesa, naquele outro bar, tinha a estranheza de uma substituição feita sem cerimônia, como se alguém tivesse retirado um objeto de sua posição habitual e o colocado em outro lugar apenas para demonstrar que podia fazê-lo.

Ele estava à vontade.

Tinha um copo diante de si e conversava com um homem sentado à sua frente. O corpo repousava contra o encosto da cadeira, e seu rosto não revelava qualquer sinal de inquietação. Parecia estar ali havia muito tempo, como se conhecesse o lugar desde sempre e não houvesse nada de extraordinário em sua presença.

Olhei para ele esperando, talvez, algum sinal de reconhecimento.

Ele ergueu os olhos na nossa direção.

Por um breve instante, nossos olhares se encontraram. Eu esperava encontrar desprezo, provocação ou, pelo menos, aquela satisfação disfarçada que tantas vezes reconhecemos no rosto de alguém que acreditamos ter nos prejudicado. Mas não havia nada disso. Ele voltou a olhar para o homem com quem conversava e continuou a beber, inteiramente indiferente à nossa chegada.

A indiferença me atingiu de maneira inesperada.

Se tivesse sorrido com ironia, eu poderia ter atribuído sua atitude ao desejo de me provocar. Se tivesse me cumprimentado com falsa cordialidade, poderia ter reconhecido ali uma tentativa de humilhação. Se tivesse me ignorado de maneira ostensiva, eu poderia ter entendido seu gesto como uma afronta deliberada.

Mas ele simplesmente não parecia se importar.

E eu, que durante tanto tempo alimentara a imagem daquele homem como alguém empenhado em me contrariar, me vi diante da possibilidade de que a minha presença não significasse absolutamente nada para ele.

Minha esposa tocou meu braço.

— Vamos sentar?

Escolhemos uma mesa que ficava um pouco afastada do centro do salão. Dali, podíamos ver o palco e a entrada. Procurei me concentrar na música, nos garçons e nas conversas ao redor, mas meus olhos retornavam involuntariamente àquela mesa junto à parede.

Havia uma ironia naquela disposição. Eu estava num lugar que conhecia e onde era bem-vindo, mas sentia-me deslocado. Meu desafeto, por sua vez, ocupava uma posição que eu associava à minha própria história e parecia perfeitamente integrado ao ambiente. A cadeira que ele ocupava não era a mesma cadeira que eu perdera, mas, por algum motivo, era impossível olhar para ela sem pensar no que havia ficado para trás.

O show ainda não começara, e as pessoas continuavam chegando.

Foi então que percebi a fila do lado de fora.

Uma quantidade considerável de frequentadores aguardava a liberação de lugares. Alguns conversavam animadamente, outros consultavam os telefones celulares e alguns tentavam olhar para dentro, na esperança de encontrar uma mesa disponível. A fila se estendia pela calçada, acompanhando a fachada do bar, e os últimos que chegavam precisavam perguntar onde terminava.

Reconheci vários deles.

Eram amigos do meu desafeto, pessoas que também frequentavam o estabelecimento de que eu havia sido expulso e que, por razões que nunca me pareceram inteiramente claras, não gostavam de mim. Não se tratava apenas de antipatia pessoal. Havia entre nós uma história de comentários, desentendimentos e julgamentos que, com o passar do tempo, parecia ter adquirido vida própria. Alguns me conheciam suficientemente bem para saber o que me irritava. Outros provavelmente apenas repetiam as opiniões que ouviam dos primeiros.

Quando me viram sentado com minha esposa, trocaram olhares.

Um deles, um sujeito de rosto comprido e cabelos grisalhos, disse alguma coisa ao homem que estava ao seu lado. Os dois olharam para dentro do bar e começaram a rir. Uma mulher que se encontrava mais atrás acompanhou a conversa, voltou os olhos para nós e comentou algo que provocou novas risadas.

Eu fingi não perceber.

Minha esposa, entretanto, havia notado.

— Estão falando de nós... Disse, em voz baixa.

— Deixe para lá.

Tentei continuar a conversa, mas já não sabia o que estava dizendo. As palavras saíam sem convicção, e minha atenção permanecia presa à porta.

O homem de cabelos grisalhos voltou a falar. Desta vez, não fez qualquer esforço para esconder que se dirigia a nós.

— Olha só quem resolveu aparecer!

Algumas pessoas riram.

Não respondi. Ele esperou um instante, como se desejasse que eu lhe desse a oportunidade de continuar, e acrescentou uma observação que não consegui ouvir inteiramente. O sentido, porém, era evidente: pretendia transformar nossa presença em motivo de diversão para os demais.

Minha esposa baixou os olhos para a mesa.

Senti uma onda de calor subir pelo rosto. O impulso de me levantar e ir até a porta foi imediato, mas havia algo de paralisante naquela situação. Eu não queria oferecer aos meus adversários o espetáculo de uma reação. Ao mesmo tempo, permanecer sentado, fingindo que nada acontecia, parecia confirmar a imagem que eles tentavam construir de mim.

Era uma armadilha sem saída.

Se eu respondesse, poderiam dizer que eu era agressivo. Se permanecesse calado, poderiam interpretar o silêncio como medo. Se fosse embora, diriam que haviam conseguido me expulsar de mais um lugar. Se ficasse, teria de suportar a presença deles e o prazer que pareciam encontrar em me constranger.

Um segundo homem, mais jovem, fez um comentário sobre o fato de eu ter aparecido acompanhado. Não me recordo das palavras exatas, mas a maneira como pronunciou a frase deixou claro que pretendia atingir também minha esposa. Ela se manteve imóvel por um momento, depois olhou para mim com uma expressão que misturava desconforto e cansaço.

Foi esse olhar que decidiu por mim.

Eu poderia suportar as provocações dirigidas a mim, mas não queria obrigá-la a permanecer ali enquanto aquelas pessoas faziam da nossa presença uma espécie de entretenimento.

Chamei o garçom, pedi a conta e esperei que ele a trouxesse.

As risadas continuaram do lado de fora.

Meu desafeto, no entanto, não se voltou para a porta. Continuava sentado no lugar que me lembrava o passado, indiferente à pequena cena que seus amigos encenavam na calçada. Não sei se havia percebido o que estava acontecendo. Talvez tivesse ouvido tudo. Talvez simplesmente não considerasse o assunto digno de sua atenção.

Paguei a conta.

Minha esposa levantou-se sem dizer palavra, e atravessamos o salão em direção à saída. Ao passarmos perto da mesa dele, senti a tentação de parar e encará-lo, como se um gesto meu pudesse obrigá-lo a reconhecer a existência de alguma coisa entre nós. Mas ele continuou conversando, e eu segui adiante.

Do lado de fora, as pessoas da fila abriram espaço apenas o suficiente para que passássemos.

O homem de cabelos grisalhos sorriu.

— Já vão?

Não respondi.

A mulher que estava atrás dele voltou a rir, e alguém fez uma observação que provocou murmúrios entre os demais. Minha esposa caminhava ao meu lado, com a cabeça erguida, mas percebi que apertava a bolsa contra o corpo com mais força do que de costume.

Não olhei para trás.

Caminhamos até a esquina, onde o ruído do bar começou a se misturar ao trânsito e às vozes dos pedestres. A rua estava cheia, e as luzes dos estabelecimentos projetavam manchas coloridas sobre as calçadas. Havia casais entrando em restaurantes, homens fumando junto às portas e grupos de amigos que conversavam como se a noite lhes pertencesse inteiramente.

Eu tinha a impressão de que acabara de sair de um lugar onde alguma coisa me fora tirada novamente.

Não era apenas o constrangimento de ter sido alvo de zombarias. Era a sensação de que os lugares estavam sendo ocupados por outras pessoas, de que as relações que eu julgara duradouras podiam ser reorganizadas sem a minha participação e de que, por mais que eu tentasse encontrar um espaço onde me sentisse seguro, sempre haveria alguém disposto a me lembrar de que aquele espaço não era inteiramente meu.

Minha esposa caminhou em silêncio por alguns minutos.

— Não vale a pena! Disse ela, por fim.

Concordei com um movimento de cabeça.

Mas eu sabia que, para mim, valia. Não porque aquelas pessoas merecessem a minha atenção, e sim porque a expulsão do outro bar havia deixado uma espécie de ferida que eu nunca soubera fechar. O que acontecera naquela noite não passava de mais um episódio de uma história que, dentro de mim, continuava em andamento.

Seguimos para o apartamento.

O caminho de volta pareceu mais longo do que de costume. Talvez porque eu estivesse cansado, talvez porque os acontecimentos da noite tivessem tornado a cidade mais hostil aos meus olhos. As vitrines refletiam os rostos dos passantes, os ônibus paravam e arrancavam junto aos pontos, e os semáforos mudavam de cor sobre cruzamentos cheios de veículos. Eu observava tudo como alguém que retorna de uma viagem sem ter saído do próprio bairro.

Minha esposa falou pouco. Eu também.

De vez em quando, pensava no homem morto que havíamos retirado do carro naquela manhã. A lembrança surgia sem aviso, deslocada no tempo, e eu me perguntava por que a imagem daquele corpo continuava tão nítida. O embrulho preto, a porta de vidro, os homens descendo pelo corredor. Principalmente, a incerteza sobre o que eles tinham visto.

Eu não sabia se meu amigo havia voltado ao prédio. Não sabia se alguém encontrara o corpo. Não sabia sequer se ainda seria possível localizar a rua em que havíamos parado, caso eu precisasse voltar lá.

Aquela ignorância era pior do que uma acusação. Uma acusação teria forma, palavras e consequências que eu poderia tentar compreender. A incerteza, ao contrário, permitia que qualquer coisa acontecesse, em qualquer momento, sem que eu pudesse me preparar.

Quando chegamos ao edifício em que morávamos, tive vontade de subir imediatamente, fechar a porta do apartamento e deixar o dia terminar. Imaginava a sala silenciosa, a luz amarelada do abajur e a familiaridade dos objetos nos lugares habituais. Precisava de alguma coisa que não mudasse de posição, que não me obrigasse a interpretar olhares ou a defender a minha presença.

Mas, assim que saímos do elevador, percebemos que havia algo errado.

Um ruído contínuo vinha do corredor.

Era o som de água correndo, um fluxo irregular que se interrompia por um instante e recomeçava, acompanhado pelo gotejar insistente de alguma coisa contra o piso. O chão brilhava sob a luz do teto, e uma lâmina de água avançava lentamente junto ao rodapé.

Parei diante do registro instalado no andar.

A água escapava de uma conexão próxima à parede, formando um pequeno jato que atingia o piso e se espalhava em direção às portas dos apartamentos. Não era um vazamento discreto. O volume já era suficiente para cobrir boa parte do corredor, e o ruído parecia aumentar a cada segundo.

— Meu Deus! Disse minha esposa.

A porta do apartamento do antigo síndico estava aberta.

Ele morava ao lado e, durante os anos em que administrara o condomínio, sempre parecera ter uma resposta pronta para qualquer problema do edifício. Conhecia os registros, os encanamentos, as bombas e as instalações elétricas. Era o tipo de homem que falava com segurança mesmo quando não tinha certeza de nada, e por muito tempo os moradores haviam recorrido a ele sempre que surgia uma dificuldade.

Agora, porém, seu apartamento estava sendo inundado.

A água atravessava a entrada e avançava pelo corredor interno, espalhando-se pela sala. Um tapete havia se deslocado de sua posição, e algumas cadeiras estavam parcialmente cercadas por uma lâmina escura que refletia as luzes do teto. Junto à parede, uma caixa de papelão começava a perder a forma, e os objetos que estavam sobre uma mesinha haviam sido empurrados para uma das extremidades.

Chamamos por ele.

Ninguém respondeu.

Entrei alguns passos, evitando pisar onde a água parecia mais profunda, e o vi aparecer ao fundo, vindo de um dos quartos. Trazia uma toalha nas mãos e olhava ao redor com uma expressão de incredulidade. Parecia incapaz de decidir o que deveria salvar primeiro.

— O registro estourou. Disse ele, apontando para o corredor. — Não consigo fechar.

Falava depressa, com a voz mais aguda do que eu jamais ouvira. A água já alcançava os pés de uma estante, e ele tentava afastar alguns objetos da parte inferior de um móvel. Não havia tempo para discussões nem para descobrir de quem era a responsabilidade. A água continuava chegando.

Minha esposa foi buscar panos e baldes em nosso apartamento. Eu me aproximei do registro e tentei entender de onde vinha o vazamento. O metal estava úmido, e a água escapava por uma junção que eu não conseguia alcançar sem me molhar. Procurei uma válvula de fechamento, mas o espaço era estreito e os canos se cruzavam junto à parede.

O antigo síndico continuava falando.

Disse que já havia avisado sobre problemas na instalação, que alguém deveria ter providenciado uma revisão, que aquele tipo de coisa acontecia quando as pessoas ignoravam a manutenção. As palavras vinham em sequência, como se ele ainda estivesse numa reunião de condomínio, diante de moradores que precisassem ser convencidos de alguma negligência.

Mas ninguém estava interessado em encontrar um culpado naquele momento.

A água não esperava.

Minha esposa voltou com os baldes, e começamos a retirar o que podíamos do caminho. O vizinho carregava caixas para uma parte mais seca da sala, enquanto eu tentava conter o fluxo com panos grossos. O chão estava escorregadio, e a água parecia encontrar sempre uma nova passagem, infiltrando-se por baixo das portas e contornando os móveis.

Em poucos minutos, o interior do apartamento assumiu uma aparência de abandono. Os objetos, retirados de seus lugares às pressas, formavam pequenos montes sobre cadeiras e mesas. Livros estavam empilhados no alto de uma estante, almofadas haviam sido colocadas sobre um sofá e alguns utensílios de cozinha se encontravam espalhados pelo balcão.

O antigo síndico parecia cada vez mais abatido.

Havia algo de humilhante em vê-lo assim. Eu me lembrava de sua postura firme, de sua maneira de percorrer os corredores inspecionando as portas corta-fogo, de suas advertências sobre o uso dos elevadores e das reuniões em que fazia questão de falar por último. Durante muito tempo, ele parecera ocupar uma posição de autoridade quase permanente naquele edifício. Agora estava descalço, com as barras das calças molhadas, tentando salvar os próprios pertences de uma água que não obedecia a nenhum regulamento.

A situação não me deu prazer. Pelo contrário, despertou em mim uma inquietação que eu não conseguia explicar. A imagem daquele homem, antes tão seguro de si, lutando para impedir que seus móveis fossem arruinados, parecia revelar uma fragilidade que eu preferiria não ter visto.

A água avançou para o corredor principal.

Foi então que minha esposa me chamou.

— Precisamos ver o nosso apartamento.

Deixamos o vizinho por um instante e seguimos até a nossa porta. Ao abri-la, encontrei um cenário que me fez parar na entrada.

A água também havia entrado em nossa casa.

Não chegara à altura que alcançara o apartamento do antigo síndico, nem parecia ter se espalhado por todos os cômodos, mas era suficiente para deixar o chão úmido e alguns objetos encharcados. A sala estava parcialmente molhada, e havia marcas de água nas proximidades da porta. Um par de sapatos fora deslocado do lugar habitual. Uma pequena caixa de papelão, deixada perto de um móvel, estava escurecida nas bordas.

Entrei devagar.

O que mais me chamou a atenção foram as roupas.

Algumas peças que havíamos deixado sobre uma cadeira estavam completamente molhadas. Outras, guardadas num cesto próximo ao quarto, tinham sido atingidas pela água que se infiltrara junto à parede. Havia camisas, calças e toalhas úmidas, algumas delas caídas no chão, como se alguém as tivesse retirado dos armários e abandonado ali sem cuidado.

Minha esposa foi imediatamente verificar os quartos.

Eu permaneci na sala, olhando para os objetos molhados.

O apartamento não estava inundado. Ainda era possível caminhar sem dificuldade, e a maior parte dos móveis permanecia seca. A água não havia destruído tudo, não havia transformado a nossa casa num espaço irreconhecível. Mesmo assim, senti uma tristeza desproporcional diante daquela desordem.

A casa era o lugar para onde havíamos voltado depois de uma noite desagradável. Eu esperara encontrar ali a possibilidade de encerrar o dia, de recuperar alguma tranquilidade e de deixar do lado de fora as pessoas, os olhares e as palavras que haviam me acompanhado desde o bar. Em vez disso, encontrei o espaço doméstico invadido por um problema que não havíamos provocado e que não tínhamos como resolver de imediato.

Pensei nas roupas molhadas.

Eram coisas banais. Peças usadas durante a semana, roupas de cama, toalhas, algumas camisas que eu gostava de vestir. Não possuíam grande valor, e quase todas poderiam ser lavadas e secas. Mas vê-las naquela condição me causou uma sensação estranha, como se a água tivesse atingido não apenas os tecidos, mas a própria ordem silenciosa da nossa vida.

Há objetos que usamos sem prestar atenção. Só percebemos o quanto dependemos deles quando deixam de estar disponíveis. Uma roupa limpa, uma toalha seca, uma cama preparada, uma cadeira no lugar certo: tudo isso pertence a uma espécie de acordo invisível que fazemos com a casa. Esperamos que ela nos proteja do mundo, que conserve os nossos pertences e que permaneça estável enquanto tudo o mais muda.

Naquela noite, o acordo parecia rompido.

Fui até o quarto e encontrei minha esposa retirando algumas peças do cesto. Ela as separava sobre a cama, distinguindo as que estavam apenas úmidas das que precisariam ser lavadas novamente.

— Pelo menos não entrou tanta água.

Concordei.

Era verdade. O nosso apartamento havia sofrido danos, mas não estava destruído. O do vizinho, ao lado, era muito mais atingido. Ainda assim, não conseguia me tranquilizar. A água continuava correndo no corredor, e eu sabia que, enquanto o registro não fosse fechado, a situação poderia piorar.

Voltamos para fora.

O antigo síndico estava ao telefone, tentando localizar alguém que pudesse consertar o encanamento. Sua voz oscilava entre a indignação e o desespero. A cada instante, olhava para o interior do apartamento como se esperasse que a água diminuísse por conta própria.

Outros moradores começaram a aparecer. Uma senhora do andar de cima desceu enrolada num casaco, perguntando o que havia acontecido. Um rapaz surgiu com ferramentas que talvez fossem úteis, embora não soubesse exatamente como empregá-las. Alguém sugeriu fechar a água do prédio inteiro. Outro disse que isso deixaria todos os apartamentos sem abastecimento e que seria melhor esperar pelo zelador.

As opiniões se multiplicavam, mas o vazamento permanecia.

O registro, aquela peça pequena e aparentemente insignificante, adquirira uma importância absoluta. Todo o edifício dependia agora de um mecanismo que, até poucos minutos antes, ninguém havia considerado digno de atenção. As pessoas discutiam, procuravam soluções, davam ordens e tentavam se lembrar de onde ficavam as válvulas principais. O antigo síndico, que tantas vezes conduzira reuniões com a segurança de quem sabia o que fazer, agora dependia dos outros.

Observei a cena do corredor.

A água se espalhava por baixo das portas, penetrava nas frestas e seguia o declive do piso. Era indiferente aos limites entre os apartamentos. Não reconhecia a propriedade de ninguém, não distinguia os moradores antigos dos recentes, não se importava com as regras do condomínio nem com as antigas disputas que pudessem existir entre eles.

O apartamento do antigo síndico era o mais atingido, mas o nosso também fora alcançado. A água não precisava de uma razão para entrar. Bastava-lhe encontrar uma passagem.

Por um instante, lembrei-me novamente do bar.

Pensei na fila diante da porta, nos homens que riam, na mulher que me olhara com desprezo e no meu desafeto sentado à mesa que, durante tanto tempo, eu associara à minha própria presença. Pensei também nos homens que haviam descido pelo corredor do prédio no Centro, quando meu amigo e eu tentávamos esconder um morto.

Aquela sequência de acontecimentos parecia não ter relação alguma. O corpo embrulhado em plástico, as provocações no bar e o vazamento no edifício pertenciam a situações distintas, separadas por horas, lugares e circunstâncias. Entretanto, havia entre elas uma semelhança difícil de ignorar.

Em todas, alguma coisa que eu julgava poder manter sob controle escapava à minha vontade.

O corpo precisava ser escondido, mas havia o risco de alguém o ver.

O bar deveria ser um lugar onde eu pudesse entrar livremente, mas a presença de certas pessoas transformara a noite numa experiência de humilhação.

O apartamento deveria ser um abrigo, mas a água atravessara a porta e molhara os nossos pertences.

Não havia um único acontecimento que explicasse os outros. Havia apenas a sensação de que o mundo, por alguma razão que me escapava, se recusava a permanecer nos limites que eu lhe atribuía.

O vizinho chamou por mim.

— Pode me ajudar com esta estante?

Entrei novamente em seu apartamento. A água havia chegado à base do móvel, e alguns livros começavam a absorver a umidade. Seguramos a estante pelas laterais e a deslocamos alguns centímetros, o suficiente para afastá-la da parede molhada. O esforço foi maior do que eu esperava. O móvel resistiu, arrastando-se sobre o piso, e o vizinho precisou interromper o movimento para recuperar o fôlego.

Quando terminamos, ele ficou olhando para os livros.

— Passei anos cuidando deste prédio — disse, quase para si mesmo. — Anos!

Não respondi.

Ele pegou um dos livros e tentou secar a capa com a toalha que trazia nas mãos. O gesto tinha uma delicadeza que contrastava com a agitação anterior. Já não falava de manutenção, de responsabilidades ou de avisos ignorados. Falava pouco, e sua atenção se concentrava nas pequenas coisas que ainda podiam ser salvas.

Ajudei-o a colocar os livros sobre uma mesa seca.

Depois voltamos ao corredor, onde o rapaz das ferramentas finalmente conseguiu alcançar a válvula principal. Houve uma sequência de ruídos metálicos, um breve jorro de água e, em seguida, uma redução gradual do fluxo. O registro foi fechado, e o vazamento diminuiu até se transformar num gotejar espaçado.

O silêncio que veio depois pareceu maior do que o próprio edifício.

As pessoas começaram a se dispersar. A senhora do andar de cima voltou para casa. O rapaz guardou as ferramentas. Alguém prometeu chamar um encanador pela manhã. O antigo síndico permaneceu à porta de seu apartamento, olhando para a água acumulada no chão, como se ainda esperasse que o problema pudesse ser desfeito por completo.

Minha esposa e eu recolhemos alguns dos nossos pertences e tentamos afastar a água que entrara em casa. Usamos panos, baldes e toalhas velhas. Colocamos as roupas molhadas sobre cadeiras e estendemos outras no varal interno. Movemos pequenos objetos para lugares mais altos e secamos o piso da sala.

Era um trabalho lento, sem qualquer garantia de que conseguiríamos deixar tudo em ordem naquela noite.

Enquanto eu torcia um pano sobre o balde, ouvi a água pingar de uma das extremidades da nossa mesa. Cada gota produzia um som pequeno, quase imperceptível, mas eu me concentrava nele como se aquele ruído pudesse revelar alguma coisa.

A água continuava presente mesmo depois de interrompido o vazamento.

Estava nos tecidos, nos cantos do piso, nas fibras dos móveis e nas pequenas frestas em que o pano não conseguia alcançar. O problema já não era apenas a água que chegava, mas a água que ficara. O fluxo havia sido interrompido, porém suas consequências permaneciam espalhadas pela casa.

Foi nesse momento que percebi o quanto me cansara naquele dia.

Não era apenas cansaço físico. Eu sentia o peso de todas as situações que havia atravessado, como se cada uma tivesse exigido de mim uma forma diferente de vigilância. Pela manhã, fora preciso vigiar os movimentos dos homens no edifício do Centro. À noite, vigiar as reações das pessoas no bar. Agora, era necessário observar a água, proteger os objetos e antecipar os problemas que ainda poderiam surgir.

Em nenhum momento eu havia conseguido simplesmente estar em algum lugar.

Sempre existia algo a esconder, alguém a enfrentar ou alguma coisa a impedir que piorasse.

Minha esposa terminou de separar as roupas e veio até a sala. Trazia uma toalha seca nos braços. Olhou para o chão, para os móveis e para o balde cheio de água suja.

— Amanhã vamos ter muito trabalho — disse.

— Vamos.

Ela pousou a toalha sobre o encosto de uma cadeira e se aproximou da janela. Do lado de fora, a cidade continuava acesa. Os faróis dos carros passavam entre os edifícios, e algumas janelas permaneciam iluminadas nas fachadas vizinhas. Em algum lugar, pessoas ainda estavam reunidas em bares, conversando, bebendo e ouvindo música. Talvez o show tivesse começado no estabelecimento de onde havíamos saído. Talvez meu desafeto continuasse sentado àquela mesa, cercado pelos amigos, sem se lembrar de nós.

Eu já não conseguia dizer o que me incomodava mais: a possibilidade de que ele não se lembrasse ou a certeza de que eu ainda me lembrava dele.

Fui até a janela e fiquei ao lado de minha esposa.

A cidade, vista dali, parecia tranquila. Os edifícios se erguiam em fileiras, as ruas desapareciam entre as quadras e as luzes desenhavam uma paisagem familiar. Não havia sinal de que, em algum lugar do Centro, um homem morto pudesse estar à espera de ser encontrado. Não havia sinal das risadas na porta do bar, nem do desconforto que sentíramos ao sair. Não havia sinal da água que, até pouco tempo antes, corria pelo nosso andar.

Tudo permanecia oculto pela distância e pela aparência de normalidade.

Atrás de nós, as roupas molhadas continuavam espalhadas pela sala e pelos quartos. No apartamento vizinho, o antigo síndico ainda tentava salvar o que podia. No Centro, talvez os homens que havíamos encontrado no prédio já tivessem esquecido a nossa presença, ou talvez estivessem contando a alguém que haviam visto dois desconhecidos num corredor escuro.

Eu não tinha como saber.

E essa era a parte mais difícil: aceitar que os acontecimentos continuavam existindo fora do meu alcance, que as pessoas levavam consigo impressões que eu não poderia corrigir e que os lugares permaneceriam abertos a outras histórias, mesmo quando eu acreditava ter sido retirado delas.

Olhei para minha esposa.

Ela parecia cansada, mas não derrotada. Havia uma espécie de serenidade em sua maneira de observar a rua, como se aceitasse que, por mais inconveniente que fosse o mundo, ainda seria possível encontrar um modo de continuar vivendo nele.

Pensei em dizer alguma coisa sobre o dia, mas não encontrei palavras que não soassem ridículas. Como explicar o peso de um corpo que eu não sabia de onde viera? Como falar da mesa ocupada por meu desafeto sem parecer prisioneiro de uma disputa antiga? Como transformar em frases a sensação de que até a nossa casa, o último lugar em que eu esperava ser surpreendido, havia perdido por algumas horas a capacidade de nos proteger?

Acabei ficando em silêncio.

Ela segurou minha mão.

Permanecemos assim por algum tempo, olhando as luzes da cidade. Aos poucos, os ruídos do corredor diminuíram. Uma porta se fechou, depois outra. O elevador subiu, parou em algum andar e voltou a descer. O edifício recuperava lentamente a rotina, embora o cheiro de umidade permanecesse no ar.

Mais tarde, quando o chão já estava quase seco, fui até o quarto e recolhi as roupas que haviam ficado sobre a cama. Separei as peças que poderiam ser aproveitadas das que precisariam de uma lavagem completa. Coloquei algumas toalhas num cesto e estendi uma camisa sobre o varal.

A casa começava a recuperar a sua forma habitual.

Ainda havia trabalho pela frente, mas os objetos voltavam a ocupar seus lugares. A água deixara manchas, e algumas peças precisariam de tempo para secar. Mesmo assim, o apartamento já não parecia ameaçado por uma força que avançava sem que pudéssemos detê-la.

Antes de me deitar, passei pela sala uma última vez.

A cadeira onde as roupas haviam sido deixadas estava vazia. O balde fora colocado junto à área de serviço. O chão, embora ainda úmido em alguns pontos, refletia a luz do teto sem as manchas irregulares que o cobriam antes.

Tudo parecia em ordem.

Mas eu sabia que a ordem era apenas uma aparência, uma disposição provisória das coisas, uma trégua entre acontecimentos que não podíamos prever.

Havia um morto cujo destino eu desconhecia. Havia um homem que ocupava um lugar que eu ainda considerava meu. Havia pessoas que riam de mim sem que eu pudesse obrigá-las a parar. Havia roupas molhadas, paredes úmidas e um vizinho que precisaria reconstruir a própria casa a partir do que restara.

E havia, acima de tudo, a cidade.

A cidade que nos permitia desaparecer entre milhares de pessoas e, ao mesmo tempo, nos fazia sentir observados em cada esquina. A cidade em que os edifícios escondiam corredores escuros, os bares conservavam rivalidades antigas e os apartamentos, separados por paredes aparentemente sólidas, podiam ser invadidos pela água que escapava de uma conexão defeituosa.

Apaguei a luz da sala.

No escuro, o apartamento parecia finalmente descansar. Deitei-me ao lado de minha esposa, que já estava quieta, e fiquei algum tempo ouvindo os sons distantes do edifício. Uma tubulação estalou dentro da parede. Em algum apartamento, alguém arrastou uma cadeira. Um automóvel passou pela rua, e o ruído do motor desapareceu pouco a pouco.

Fechei os olhos.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer naquela noite.

Pela primeira vez desde a manhã, não precisei vigiar uma porta, interpretar um olhar ou tentar impedir que alguma coisa escapasse ao meu controle. O morto estava longe, o bar havia ficado para trás e a água já não corria pelo corredor.

Ainda assim, antes de adormecer, tive a impressão de que as três coisas permaneciam ligadas por um fio invisível: o embrulho negro, a cadeira ocupada pelo meu desafeto e as roupas estendidas para secar.

Talvez porque cada uma delas guardasse a marca de uma ausência.

O homem morto, a quem eu não sabia dar um nome, havia perdido definitivamente o lugar entre os vivos. Eu perdera um lugar num bar e continuava a procurar, em outros ambientes, a confirmação de que ainda podia pertencer a alguma coisa. O antigo síndico via sua casa ser invadida por uma água que ameaçava levar embora os objetos com que construíra a própria vida. E nós, no nosso apartamento parcialmente molhado, tentávamos recuperar a segurança que julgávamos possuir.

Pensei que as pessoas passavam a vida inteira defendendo seus lugares.

Defendiam a cadeira em que costumavam sentar-se, a casa em que guardavam seus pertences, a reputação que construíam diante dos outros, a história que contavam a si mesmas sobre quem eram. Algumas vezes, conseguiam conservar tudo isso durante muitos anos. Em outras, bastava um acontecimento inesperado para que descobrissem que nada lhes pertencia de maneira absoluta.

Os lugares continuavam existindo depois que deixávamos de ocupá-los.

As pessoas continuavam vivendo depois que saíamos de suas vidas.

A água encontrava passagens que ninguém havia previsto.

E os mortos, mesmo quando escondidos, permaneciam no mundo como perguntas às quais alguém, cedo ou tarde, precisaria responder.

Virei-me na cama e procurei uma posição mais confortável. Minha esposa se aproximou, ainda adormecida, e o silêncio voltou a se instalar entre nós.

Lá fora, São Paulo continuava acordada.

Em algum ponto da cidade, alguém abria a porta de um bar. Em algum edifício, um homem descia as escadas levando uma pasta de couro. Em alguma casa, uma torneira pingava sobre uma pia vazia. As vidas prosseguiam, cada uma encerrada em seus pequenos dramas, em seus segredos e em suas tentativas de manter o mundo no lugar.

Eu também prosseguiria.

Na manhã seguinte, precisaria verificar as roupas, conversar com o vizinho e descobrir se o registro havia sido consertado. Talvez encontrasse meu amigo e perguntasse pelo homem que deixáramos no prédio. Talvez voltasse a passar diante daquele bar, ainda que não tivesse intenção de entrar. Talvez, com o tempo, a lembrança das provocações perdesse a força e eu pudesse me sentar em outra mesa sem pensar naquela que deixara de ocupar.

Mas, naquela noite, nenhuma dessas possibilidades me oferecia consolo.

Adormeci com a sensação de que o mundo havia se aproximado demais de mim, atravessando sucessivamente o porta-malas do carro, a porta do bar e a entrada do apartamento. E, embora tudo parecesse ter voltado ao seu devido lugar, eu já não confiava inteiramente nas portas, nas paredes ou nas cadeiras.

Porque descobrira, em poucas horas, que esconder alguma coisa não significava fazê-la desaparecer; que sair de um lugar não significava libertar-se dele; e que fechar um registro não bastava para devolver à casa a água que já a havia molhado.

Na manhã seguinte, quando a luz entrasse pelas janelas e os primeiros ruídos do trânsito voltassem a preencher as ruas, a cidade pareceria a mesma de sempre.

Mas alguma coisa teria mudado.

Não na cidade, nem nos bares, nem no edifício.

Em mim.

Eu passara a compreender que os lugares que julgamos perder continuam existindo, às vezes com uma persistência maior do que a nossa, e que os acontecimentos que tentamos deixar para trás nem sempre obedecem à distância. Há coisas que permanecem conosco porque não sabemos onde colocá-las. Há outras que retornam porque nunca deixaram de estar presentes.

E há certas noites em que, mesmo depois de secarmos o chão, recolhermos as roupas e apagarmos todas as luzes, ainda sentimos que alguma coisa continua vazando em algum ponto invisível da casa.

 

Maurício Menossi Flores

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