O Suave Milagre Chinês. Conto de Maurício Menossi Flores.

 


O Suave Milagre Chinês.

(Em processo, sem revisão.)

“Esqueça o passado”, eu disse diante do espelho.

Não era a primeira vez que eu me ordenava isso.

Ajeitei o terço no pescoço e saí.

Ia ao encontro da minha amada, no meu bar favorito, aquele mesmo, escondido como uma confidência no fim de um beco estreito, onde uma luz amarela insistia em não morrer. Aquela lâmpada parecia que iria durar mais do que eu próprio. Quantas vezes atravessei o beco de madrugada, bêbado e feliz, abraçado a ela, cantando fraquinho na sua orelha direita uma canção inventada.

Ela se encolhia um pouco, inclinando o corpo, talvez incomodada com o meu bafo de champanha — ou talvez apenas para caber melhor dentro daquele instante.

Em Paris, descolei um cantinho do céu. Não foi difícil — bastou subir alguns lances de escada num prédio antigo, sem elevador, onde o silêncio não era ausência de som, mas um tipo de acordo coletivo. Os poucos moradores eram discretos como sombras educadas. Não havia portas batendo, nem discussões, nem música.

Foi nesse lugar que nos instalamos.

Planejávamos, com um humor quase infantil, os nossos próprios funerais. Discutíamos flores, músicas, quem choraria de verdade e quem fingiria. Ríamos muito. Havia uma leveza absurda em tratar da morte como se fosse apenas mais um evento social mal organizado.

Nunca cozinhávamos. Havia um restaurante próximo — suficientemente barato para não nos constranger, suficientemente bom para não nos decepcionar. Deixávamos nossas roupas para lavar na lavanderia. Tínhamos algumas poucas roupas e alguns poucos livros somente.

Há um mês, fechei negócio com uma grande galeria no distrito artístico de Pequim. Não foi um processo gradual. Não houve ascensão, nem reconhecimento progressivo. Foi um rasgo.

Num dia, eu era um artista disperso, acumulando obras. No outro, uma aquisição completa.

Eles compraram tudo.

Desenhos, esculturas, objetos, vídeos, músicas, livros, peças, performances — até mesmo os vestígios das performances, aquilo que normalmente se varre depois que o público vai embora. Compraram rascunhos, tentativas, erros. Compraram o que eu fui, o que eu tentei ser e o que desisti de ser.

Compraram, inclusive, a roupa que eu usava no encontro com eles.

Disseram que fariam um boneco de cera.

Eu ri. Eles não.

No mesmo dia do encontro com os chineses para fechar negócio, estando na dúvida ainda se vendia meu trabalho ou não, caminhava distraído diante do Centro Cultural de Urussurunga e vi um saco plástico sendo revirado por sujeito sujo, de olhos fundos. Dentro do saco, dezenas de desenhos de crianças em cartolina, descartados como lixo.

Havia sol naquelas cores.

Um sol insistente, que não combinava com o destino final daquele material.

Minha crise em vender ou não passou.

A fama repentina e o dinheiro chegaram com uma objetividade quase vulgar: um milhão de dólares depositados sem cerimônia e exposições pela China e em vários outros países.  

Desconfiei até o momento em que vi o valor aparecer na conta.

Meus parceiros em alguns trabalhos receberam suas partes. Houve agradecimentos, desconfianças, pequenas invejas mal disfarçadas. Mas, no fundo, todos estavam contentes.

Eu, que sempre afastara as pessoas com meus peidos abundantes e fétidos, agora me sentia, pela primeira vez, amado.

Amado à distância.

Amado por desconhecidos.

Amado por um sistema.

Era um tipo de amor que não exigia convivência.

Quando vi o avião partindo, levando a minha produção artística — agora embalada, catalogada, assegurada — senti ter cumprido o meu destino. Não alegria, não tristeza. Uma espécie de quietude funcional.

Na minha família, há um dom.

Sabemos a data da nossa morte.

Não é algo que se revela dramaticamente. Não há visões, nem sonhos. Apenas uma certeza que surge em algum momento da vida.

E isso causava inquietação específica: morrer e ter minha obra dispersa, esquecida, destruída.

Agora, não.

Agora, tudo estava protegido.

Catalogado.

Internacionalizado.

Luxuoso.

Bebia champanha e me observava feliz, ocupando lugar de espectador privilegiado.

Atinei então: eu via minha extinção física em tempo real. Os chineses haviam criado com IA um outro eu para exibirem em capítulos diários.

Nessa noite, voltei ao espelho.

“Esqueça o passado”, repeti.

No mesmo instante, recebi nova mensagem.

Curta.

Objetiva.

Irrecusável.

Eles queriam completar a coleção.

Faltava apenas uma coisa.

Eu.

Com feição suave e passos elegantes, caminhei em direção àquela luz amarela no fim do beco.  

No dia seguinte, minha amada procedeu conforme planejamos.

FIM

Maurício Menossi Flores

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