Monólogo Teatral "Eu Pintei O Brasil", De Maurício Menossi Flores, É Sobre O Pintor Almeida Júnior.
MONÓLOGO – “EU PINTEI O BRASIL” (EM PROCESSO)
Almeida Júnior em cena
(Entra lentamente. Observa as próprias mãos. Respira fundo.)
Eu nasci em Itu.
Interior de São Paulo.
Terra de silêncio comprido, de sol batendo forte no barro,
de gente simples… como eu.
Meu nome é José Ferraz de Almeida Júnior,
mas o mundo me chama apenas de Almeida Júnior.
Talvez porque o Brasil ainda estivesse crescendo
e eu também.
(Pausa. Olha para o público.)
Quando menino, fui coroinha.
Aprendi cedo a olhar para o alto…
mas foi no chão que encontrei minha pintura.
No rosto queimado do caipira.
Na mão calejada que segura a enxada.
No gesto quieto de quem vive e não faz alarde.
Foi ali que descobri:
a grandeza mora no simples.
(Aproxima-se do centro do palco.)
Tive sorte — eu sei.
O imperador Dom Pedro II viu meus quadros.
Viu algo em mim que nem eu mesmo sabia nomear.
E me enviou para Paris.
Paris!
Ah… a Cidade Luz.
(Ligeiro sorriso, depois fica sério.)
Lá estudei com os mestres.
Aprendi a anatomia perfeita,
a composição correta,
o traço acadêmico, limpo, respeitável.
Mas algo me faltava.
Porque enquanto pintava deuses, mitos e salões elegantes,
meu coração estava longe…
Estava em Itu.
Estava no Brasil.
(Bate levemente no peito.)
Eu não queria pintar o que a Europa achava belo.
Eu queria pintar quem nós somos.
(Pausa mais longa.)
Quando voltei, me chamaram de estranho.
Disseram que meus personagens eram rudes demais.
Que aquilo não era arte nobre.
Mas eu pintei mesmo assim.
Pintei o homem sentado,
pensando a própria vida.
Pintei o caipira picando fumo,
descascando o cotidiano com a mesma dignidade
que um rei carrega sua coroa.
(Pausa. Olhar firme.)
Porque o Brasil não precisava se fantasiar de Europa.
O Brasil precisava se reconhecer.
(Eleva um pouco a voz.)
Eu pintei o Brasil como ele é:
sem maquiagem,
sem desculpas,
com luz dura e verdade crua.
(Respira fundo. O tom muda, mais sombrio.)
Mas a vida…
a vida não tem a harmonia de um quadro bem acabado.
Meu fim não foi silencioso.
Foi violento.
Foi humano demais.
Morri jovem.
Antes de ver meu nome consagrado.
Antes de saber que um dia me chamariam
de precursor da pintura brasileira moderna.
(Sorri de leve, melancólico.)
Mas talvez seja assim mesmo.
O pintor se vai.
A pintura fica.
(Ele olha as mãos novamente.)
Estas mãos não seguram mais pincéis…
mas ainda seguram histórias.
E enquanto alguém olhar para um de meus quadros
e enxergar ali
um pouco de si mesmo…
(Pausa final.)
Eu continuo vivo.
(Silêncio. Luz baixa.)

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