A Pandemia de Lector Vorax Vírux. Conto De Maurício Menossi Flores.

 


Quero um conto longo, bem estruturado e complexo, cujo tema é a pandemia de um vírus, o Lector Vorax Vírux, acatando o cérebro humano e provocando o hábito da leitura constante e contínua, com método e reflexão, em todo tempo possível e criando nos infectados e necessidade irresistível de debater os livros lidos, com respeito ao debatedor e sempre procurando o aprendizado com os demais. Grupos de leitura e debate de livros são organizados presencialmente. Esses grupos leem de tudo: marxistas leem os liberais e os liberais leem autores marxistas, por exemplo. Com o tempo, os leitores começam a ter a inteligência e a sensibilidade aumentadas, passando a organizar o espaço geográfico, a partir das próprias ruas e dos próprios bairros, de maneira que só a virtude e o bem prevaleçam, combatendo barulho, sujeira e aglomerados de usuários de entorpecentes. Os criminosos começam a debandar dos lugares, vendo que a população começa a usar de estratégias e estratagemas inteligentes, sabotando a ação deles e antecipando os seus crimes. Os políticos profissionais começam a preocupar-se seriamente, quando as prefeituras são tomadas e os próprios cidadãos, recusando a pagar impostos, passam a gerirem as suas próprias cidades. Apesar de tentarem obrigar o povo a tomarem vacina criada às pressas, o povo percebe não ser isso necessário, pois trabalham e produzem com maior racionalidade e vontade, tornando o labor agradável e mais brando. A partir dessas poucas linhas escritas aqui, siga um raciocínio dialético serial, sob os preceitos de Proudhon, a fim de levar o conto até um desfecho no qual o nascimento, a doença, a velhice e a morte são eliminadas devido a ação do vírus na inteligência dos humanos, criando, de fato, na Terra, um ambiente saudável e feliz para todos os viventes.

 

 

A Pandemia de Lector Vorax Vírux.

 

A primeira notícia saiu numa nota de rodapé, dessas que ninguém lê: “Relatos de um vírus atípico que não causa febre nem tosse, mas leitura compulsiva.” O nome, cunhado por um virologista com senso de humor tardio, soava como latim de manual medieval: Lector Vorax Vírux. Voraz não pela carne, mas pelo texto; não pelo sangue, mas pelo sentido.

No início, o contágio parecia um gracejo urbano. Pessoas eram vistas lendo em pé no metrô, caminhando devagar pelas calçadas, sentadas no chão de praças antes ocupadas por vendedores e ruídos. Lia-se tudo: bula, poema, tratado, romance esquecido. O sintoma principal não era o livro em si, mas o método: leitura contínua, reflexiva, com pausas para anotações mentais e uma inquietação nova, quase ética, de conversar sobre o que fora lido.

I. Tese: o hábito

Os infectados percebiam uma transformação silenciosa. O tempo, antes fragmentado por notificações, começava a se organizar em blocos densos. A leitura não expulsava o trabalho; antes, infiltrava-se nele, tornando-o mais atento. Um pedreiro lia Proudhon na hora do almoço; uma advogada, Marx à noite; um estudante liberal, Bakunin por curiosidade; um sindicalista, Hayek por método. A tese do mundo antigo — a separação entre pensamento e vida — começava a ranger.

Os grupos surgiram naturalmente, não como movimentos, mas como necessidades fisiológicas. Salas emprestadas, igrejas vazias, garagens, praças. A regra era simples e inflexível: ler para compreender, debater para aprender. O respeito não era moralismo; era pragmático. Gritar atrapalhava o argumento. Interromper empobrecia a síntese. O vírus parecia reforçar essa economia da inteligência.

II. Antítese: a desordem

As cidades, contudo, não foram feitas para o silêncio atento. O barulho resistia, a sujeira persistia, os velhos hábitos de abandono reclamavam seu espaço. A antítese se apresentou nas ruas: carros de som, lixo acumulado, territórios dominados por traficantes e pequenos tiranos locais. Mas algo havia mudado na população: ela não reagia com fúria, e sim com estratégia.

Não houve confrontos espetaculares. Houve antecipação. Rotas de fuga foram previstas antes de existirem; mercados ilegais perderam clientela quando a comunidade reorganizou consumo e circulação; o barulho foi combatido não por proibição, mas por redesenho urbano — árvores, horários, pactos locais. A leitura ensinara uma coisa elementar e esquecida: o poder mais eficaz é o que torna a violência desnecessária.

Os criminosos sentiram primeiro o frio do deslocamento. Seus métodos, baseados na repetição e no improviso, tornaram-se previsíveis diante de uma população que lia Maquiavel de manhã e Sun Tzu à tarde, não para dominar, mas para neutralizar. Foram embora, não expulsos, mas tornados obsoletos.

III. Síntese: a gestão

As prefeituras perceberam tarde demais. Os cidadãos, reunidos em assembleias de leitura e deliberação, começaram a gerir serviços: limpeza, iluminação, transporte local. O dinheiro não desapareceu; mudou de função. Recusou-se o imposto enquanto coerção e instituiu-se a contribuição enquanto acordo. Não era a negação da organização, mas da hierarquia profissionalizada.

Aqui, o raciocínio dialético proudhoniano ganhou corpo: propriedade e comunidade deixaram de ser polos fixos e passaram a ser funções móveis; autoridade dissolveu-se em responsabilidade; o Estado, enquanto síntese forçada, foi superado por uma federação viva de bairros leitores. Cada rua era uma página; cada bairro, um capítulo; a cidade, um livro em revisão constante.

Quando governos superiores tentaram impor uma vacina — fabricada às pressas, mais por pânico do que por ciência —, a população respondeu com algo inédito: leu os protocolos. Leu os contratos, os estudos, as entrelinhas. Concluiu que o vírus não era patologia, mas metamorfose. Trabalhava-se melhor, com mais vontade; o labor tornara-se menos pesado porque passara a fazer sentido. Não houve rebelião, houve recusa argumentada. E a recusa, sustentada por método, mostrou-se irremovível.

IV. Nova antítese: o limite humano

Ainda restava, porém, o maior dos limites: o ciclo biológico. Nascer, adoecer, envelhecer, morrer — a velha gramática da espécie. O Lector Vorax Vírux, ao aprofundar-se no cérebro humano, não se contentou em reorganizar hábitos sociais. Começou a agir no tempo interior. A leitura constante criou redes neurais mais estáveis, menos sujeitas ao desgaste. A memória deixou de ser arquivo e tornou-se circulação. A identidade, antes presa à cronologia, passou a ser função da compreensão.

Crianças já não nasciam como antes; eram acolhidas. A reprodução biológica perdeu centralidade diante da continuidade intelectual. Doença, entendida como falha de interpretação do próprio corpo, tornou-se rara. Velhice, como decadência, foi substituída por aprofundamento. A morte, enfim, revelou-se um erro de edição: uma interrupção desnecessária num texto que podia ser revisto.

V. Síntese final: a vida como leitura

Não houve imortalidade no sentido vulgar. Houve permanência consciente. Os indivíduos não se acumulavam no mundo; circulavam nele, como ideias bem lidas. A Terra, liberta da pressa e do ruído, tornou-se um espaço de convivência entre espécies, todas beneficiadas por humanos que, finalmente, haviam aprendido a ler antes de agir.

O Lector Vorax Vírux não dominou o planeta. Foi compreendido por ele. E, como toda boa leitura, deixou de ser vírus para tornar-se método. Um método simples, dialético, serial: ler o mundo, negar seus erros, sintetizar suas virtudes — e recomeçar, página após página, sem fim, porque o fim, afinal, era apenas um mau hábito que a humanidade aprendera a abandonar.


EM PROCESSO, SEM REVISÃO.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Auto da Barca do Inferno (Gil Vicente) & IA - Inteligência Artificial. Texto.

Texto, Marcações, Trilha Sonora e Ensaio de "O Presidente Negro", Monólogo Teatral Adaptado do Romance de Monteiro Lobato.

Monólogo Teatral Inspirado no Livro "A Evolução da Física", de Albert Einstein e Leopold Infeld. Em Processo.