O Balé Da Luta Do Pau: Judaísmo E Preconceito. Espetáculo de Teatro-Dança Em Processo.


O Balé Da Luta Do Pau: Judaísmo E Preconceito. Espetáculo de Teatro-Dança Em Processo.

De Maurício Menossi Flores, Alessandro Dos Santos, José Faustino E Sebastião Otávio.   

Quero que estruture a peça de teatro-dança dentro do seguinte: Moisés é um negro capoeirista, que percebe viver numa sociedade judaico-cristã e que reflete em como seu comportamento no dia a dia expressa isso. Vê no seu hábito de ser bastante crítico e querer viver em uma cidade limpa, silenciosa, sem pichações e sem bolinhos de usuários de drogas largados em praças uma expressão da mentalidade judaica, bem como seu hábito de gostar de discutir esses problemas, na praça principal da cidade. Em flashes recorrentes, lembra de três histórias conhecidas nessa cidade. A primeira foi um morador de rua ter sido morto por outro morador de rua em decorrência de uma discussão sobre racismo. A segunda história trata de um amigo da infância morto a paulada, em decorrência de envolvimento com tráfico de armas e a terceira é a história de um julgamento, na qual o réu assassina a pauladas um antigo rival, depois de anos, e alega forte emoção. Essas lembranças ocorrem a ele durante o espetáculo de 30min de duração, em espaço comum (uma sala simples, um salão, uma sala de aulas). Moisés costuma portar uma verga de berimbau, pois está frequentemente treinando a capoeira. E é esse o adereço que o personagem tem, bem como traja sempre calça jeans e camiseta. A iluminação é a comum do lugar onde o espetáculo está sendo apresentado, podendo haver um ou outro led vermelho, azul, para ambientar os momentos. É utilizado um aparelho de som simples e um pedrive com música própria gravada. Esse aparelho é manipulado pelo próprio personagem. E ainda, Moisés, em uma discussão na Praça Principal da Cidade, vê-se agredido por grupo de puxa-sacos do atual prefeito. Tem para sua defesa a verga do berimbau. Após desferir golpes aqui e acolá, acaba tendo que sair da cidade. Esse seria o final da peça de teatro-dança aqui em questão. Quero que a partir de todos esses elementos fornecidos, elabore um espetáculo de teatro-dança.


Peça de teatro-dança para um intérprete, uma verga de berimbau e uma cidade inteira.

Duração: 30 minutos
Espaço: sala comum (salão, sala de aula, espaço comunitário)
Cenografia: inexistente
Iluminação: luz ambiente + eventuais LEDs (vermelho / azul)
Figurino: calça jeans, camiseta, pés descalços ou tênis simples
Objeto cênico: verga de berimbau
Som: aparelho simples, operado pelo próprio intérprete


EIXOS DRAMATÚRGICOS

  1. O corpo que carrega uma tradição (capoeira / Moisés / vara)

  2. A cidade como texto moral judaico-cristão

  3. O pau como objeto neutro que se torna violência

  4. A palavra que falha → o corpo que responde

  5. O exílio como desfecho inevitável


ESTRUTURA EM 7 MOMENTOS (com duração aproximada)


1. PRÓLOGO – O HOMEM COM O PAU (4 min)

Ação:
Moisés entra no espaço caminhando normalmente, como alguém que chega antes do início “oficial”. Carrega a verga do berimbau como quem carrega algo cotidiano. Observa o espaço, o chão, as paredes, o público.

Sem música. Apenas respiração e pequenos sons do ambiente.

Ele começa um treino de capoeira solitário, seco, sem roda:

  • ginga mínima

  • esquivas contidas

  • o pau acompanha o corpo, nunca se adianta

Qualidade do movimento: contido, racional, atento.

Texto (fragmentado, quase pensamento):

“Eu treino porque a cidade é dura.”
“Não é raiva. É atenção.”
“Um corpo atento não suja o chão.”

Aqui se estabelece:

  • Moisés não é violento

  • O pau não é arma

  • A cidade já é hostil


2. A CIDADE E A LEI (5 min)

Som: entra uma faixa sonora urbana discreta (ruído, trânsito, vozes distantes).

Ação corporal:
Moisés passa a marcar o espaço com a verga:

  • toca o chão

  • delimita áreas

  • afasta “sujeira imaginária”

  • reage a pichações invisíveis nas paredes

O movimento é quase ritual de limpeza.

Texto (mais discursivo):

“Eu vivo numa cidade judaico-cristã.”
“Aqui a sujeira não é só no chão.”
“Aqui a desordem vira culpa.”
“Eu gosto de discutir.
Porque discutir é organizar o mundo.”

Ele fala como quem defende um argumento na praça, não como quem acusa.

Luz: se possível, um LED branco mais frio.


3. FLASH I – O MORADOR DE RUA (4 min)

Ruptura sonora: som cortado abruptamente.
Luz: LED azul fraco.

Ação:
O corpo de Moisés se divide em dois:

  • um lado fala

  • o outro reage

A verga vira linha de separação racial, de classe, de existência.

Movimento:

  • empurrões simulados

  • desequilíbrios

  • quedas controladas

  • nenhuma coreografia “bonita”

Texto (entrecortado):

“Discutiam racismo.”
“Nenhum deles tinha casa.”
“Nenhum deles tinha escudo.”
“Só a palavra.”
“E a palavra falhou.”

O pau não aparece como arma ainda, apenas como presença inevitável.


4. FLASH II – O AMIGO DA INFÂNCIA (5 min)

Som: entra uma música mais rítmica, grave, quase batida.

Ação corporal:
Capoeira mais aberta, mais jovem, quase brincadeira — lembrança da infância.
A verga acompanha como brinquedo, eco da luta do pau infantil.

Progressivamente:

  • o ritmo pesa

  • os golpes endurecem

  • o pau começa a anteceder o corpo

Texto:

“A gente brincava.”
“Depois vendeu arma.”
“Depois virou alvo.”
“Não foi o pau que matou.”
“Foi o caminho.”

Momento-chave:
Moisés simula um golpe final, mas interrompe antes do impacto. Silêncio.


5. FLASH III – O JULGAMENTO (5 min)

Luz: LED vermelho discreto.

Ação:
O corpo vira tribunal:

  • coluna ereta

  • passos marcados

  • a verga como martelo de juiz / prova do crime

Ele encena:

  • o réu

  • o promotor

  • a defesa
    apenas mudando o eixo corporal.

Texto:

“Depois de anos, ele matou.”
“A pauladas.”
“Forte emoção.”
“A cidade entendeu.”
“A lei perdoou.”

Aqui a crítica judaico-cristã aparece clara:

  • culpa

  • expiação

  • perdão seletivo


6. A PRAÇA PRINCIPAL – O CONFRONTO (5 min)

Som: música urbana mais agressiva.
Ação:
Moisés retorna ao modo debate, como no início.

Fala para o espaço vazio:

“A praça é pública.”
“O silêncio também.”
“A cidade pode ser limpa.”

Ruptura:
Ele é cercado (corpos invisíveis).
O movimento muda bruscamente.

Capoeira defensiva, realista:

  • golpes curtos

  • esquivas baixas

  • a verga agora é arma, mas nunca glorificada

Nenhum heroísmo. Apenas necessidade.


7. ÊXODO – SAIR DA CIDADE (2 min)

Som: tudo cessa.

Ação final:
Moisés pega o aparelho de som, desliga.
Coloca a verga no ombro, como cajado.

Último texto:

“Moisés saiu da cidade.”
“Não porque quis.”
“Porque ficou.”

Ele caminha para fora do espaço.
Não olha para trás.


SENTIDO GERAL DO ESPETÁCULO

  • O pau não é metáfora, é consequência.

  • A violência não nasce no corpo, nasce na cidade.

  • Moisés não liberta ninguém — apenas sobrevive.

  • O exílio não é punição: é continuação histórica.





Quero que aponte nesse trabalho elementos da cultura judaica e o preconceito sofrido por ela.

Vou apontar com precisão, dentro do espetáculo que você concebeu, onde e como aparecem elementos da cultura judaica e o preconceito histórico e contemporâneo sofrido por ela — não de modo ilustrativo ou didático, mas incorporados ao corpo, à ética e à ação do personagem. A ideia é mostrar que o judaísmo não está “representado”, mas operando.


1. A CIDADE LIMPA, ORDENADA E O IMPULSO DA LEI

(Judaísmo como ética cotidiana)

Elemento judaico

O desejo de uma cidade:

  • limpa

  • silenciosa

  • organizada

  • sem pichações

  • sem degradação visível

remete diretamente à centralidade da Lei (Halachá) no judaísmo:
não como moral abstrata, mas como organização da vida diária.

No espetáculo, isso aparece:

  • quando Moisés marca o chão com a verga

  • quando “limpa” o espaço

  • quando se incomoda com o barulho e a desordem

📖 Referência implícita:

“Sede santos, porque Eu sou santo” (Levítico 19:2)
Santidade aqui é ordem no cotidiano, não pureza espiritual.


Preconceito associado

Esse comportamento é frequentemente lido como:

  • “mania de controle”

  • “rigidez moral”

  • “elitismo”

Historicamente, judeus foram acusados de:

  • não se misturarem

  • quererem “organizar demais” a sociedade

  • impor regras invisíveis

➡️ Moisés sofre isso quando sua crítica urbana é recebida como provocação, não como cuidado.


2. O ATO DE DISCUTIR NA PRAÇA

(A cultura do debate — Machloket)

Elemento judaico

O gosto de Moisés por discutir publicamente os problemas da cidade ecoa:

  • o Talmud

  • a tradição da machloket (discordância produtiva)

No judaísmo:

  • discutir não é desrespeito

  • é forma de buscar verdade coletiva

Isso aparece:

  • no tom argumentativo

  • na recusa ao consenso fácil

  • na exposição do conflito como método

📖 “Estas e aquelas são palavras do Deus vivo” (Eruvin 13b)


Preconceito associado

Historicamente, judeus foram acusados de:

  • serem “argumentativos demais”

  • “gostarem de confusão”

  • “nunca aceitarem a autoridade”

No espetáculo, isso se manifesta:

  • quando Moisés é atacado por puxa-sacos do prefeito

  • quando a crítica vira “ameaça à ordem”

➡️ O debate judaico é lido como insubordinação política.


3. O PAU COMO VARA, NÃO COMO ESPADA

(Violência regulada pela lei)

Elemento judaico

O judaísmo tradicional desconfia da espada e privilegia:

  • a vara

  • o cajado

  • o bordão

Objetos ligados a:

  • pastoreio

  • condução

  • correção limitada

Moisés carrega a verga:

  • não para atacar

  • mas como extensão do corpo atento

📖 Êxodo 4:2 – “Que é isso na tua mão? Um bordão.”


Preconceito associado

Judeus foram historicamente vistos como:

  • fracos fisicamente

  • incapazes de luta direta

  • “intelectuais demais”

Quando Moisés usa o pau para se defender:

  • ele quebra esse estereótipo

  • e por isso é ainda mais punido

➡️ A violência do judeu não é tolerada, mesmo quando defensiva.


4. OS TRÊS FLASHES DE MORTE

(Memória, trauma e repetição histórica)

Elemento judaico

O espetáculo não avança linearmente: ele retorna, repete, lembra.

Essa estrutura ecoa:

  • a centralidade da memória (Zikaron)

  • o mandamento de lembrar o sofrimento

📖 “Lembra-te do que te fez Amalek” (Deuteronômio 25:17)

Os três episódios de morte funcionam como:

  • pequenas diásporas

  • expulsões

  • rupturas do tecido social


Preconceito associado

O judeu que lembra é acusado de:

  • “não superar o passado”

  • “vitimização”

  • “ressentimento histórico”

No espetáculo:

  • ninguém aprende com as mortes

  • a cidade segue igual

➡️ A memória judaica incomoda porque cobra responsabilidade.


5. O JULGAMENTO E A “FORTE EMOÇÃO”

(Crítica à justiça cristã do perdão fácil)

Elemento judaico

O judaísmo enfatiza:

  • responsabilidade objetiva

  • reparação do dano

  • limites ao perdão

O assassinato “por forte emoção” não absolve.

📖 Ezequiel 18:20

“A alma que pecar, essa morrerá.”

No espetáculo:

  • a cidade aceita a justificativa

  • Moisés não


Preconceito associado

Judeus foram acusados de:

  • não perdoarem

  • serem “vingativos”

  • “duros demais”

➡️ Aqui, a ética judaica aparece como incômoda porque exige consequência.


6. O ÊXODO FINAL

(Diáspora como destino recorrente)

Elemento judaico

Moisés sai da cidade:

  • não derrotado

  • mas expulso pela incompatibilidade ética

Isso ecoa:

  • o Êxodo

  • a Diáspora

  • a repetição do deslocamento

📖 “Meu pai era um arameu errante” (Deuteronômio 26:5)


Preconceito associado

O judeu é visto como:

  • eterno estrangeiro

  • alguém que “não se adapta”

  • alguém que “vai embora”

➡️ Quando Moisés parte, a cidade respira aliviada — e não se transforma.


SÍNTESE FINAL

No seu espetáculo:

  • o judaísmo não é religião explícita

  • é forma de habitar o mundo

E o preconceito não aparece como xingamento, mas como:

  • silenciamento do debate

  • criminalização da ética

  • expulsão do corpo dissonante

Moisés não é atacado apesar de ser judeu.
Ele é atacado porque age como judeu.



No esquema acima, represento o personagem Moisés, negro, praticante de capoeira e grande debatedor contra o barulho, a sujeira, as pichações e os aglomerados de usuários de entorpecentes. No primeiro quadro, da esquerda para a direita, tomando o espectador como referência, vemos Moisés com a verga do berimbau, a qual porta constantemente, devido aos treinos duros. Três lembranças de mortes causadas por pauladas são constantes para ele: essas são marcadas, no esquema, por I, II, III. A Primeira, é de um amigo de infância que foi morto por ser traficante de armas. A segunda é a de um julgamento na sua cidade de um homem que matou outro, depois de uma briga bem antiga. Quando o réu encontrou a vítima, por acaso, depois de anos, disse ter sido tomado de forte emoção, ao rememorar os acontecimentos antigos, e isso o fez matar o outro a pauladas. A terceira memória (III) é a de com três puxa-sacos do prefeito, sempre tentando passar pano para ele. Isso está representado no segundo quadro, a partir do espectador. No quarto quadro, vemos o personagem Moisés utilizando a verga para bater nos puxa-sacos, pois esses partiram para cima dele, tentando agredi-lo. No sexto e último quadro, vemos Moisés abandonando a cidade. Quero que refaça o meu esquema, o da figura, a partir dessas descrições, utilizando desenhos realistas, coloridos, porém dando a impressão de estarem ainda no rascunho.






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