A Amizade Entre Lima Barreto E Monteiro Lobato: Uma Transcomunicação. Teleteatro Em Processo.
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TELETEATRO
“AMIZADE EM INTERFERÊNCIA”
(Transcomunicação entre Lima Barreto, Monteiro Lobato e um Pesquisador)
PERSONAGENS
-
O PESQUISADOR – homem ou mulher, contemporâneo, cansado, atento, diante de uma TV antiga.
-
LIMA BARRETO – aparece em preto e branco, imagem instável.
-
MONTEIRO LOBATO – idem, com leves distorções sonoras.
-
A VOZ DO RUÍDO – chiado, falhas, palavras cortadas (pode ser feita por áudio ou ator).
CENA ÚNICA
(O PESQUISADOR entra, segura um caderno cheio de anotações.)
(Gira o botão da TV. A imagem falha.)
SURGE LIMA BARRETO
A imagem é maior, à esquerda da tela. O som oscila.
(Chiado.)
SURGE MONTEIRO LOBATO
À direita da tela, imagem mais nítida, mas com atraso de som.
(A TV estala.)
DIÁLOGO EM INTERFERÊNCIA
O PESQUISADOR INTERVÉM
(A imagem treme. Um banner imaginário desce da TV com livros pendurados.)
METALINGUAGEM
CORO DO RUÍDO (VOZ DISTORCIDA)
DESFECHO
(Chiado forte. As imagens quase desaparecem.)
(A TV perde o sinal. Tela vermelha. Silêncio.)
ÚLTIMA IMAGEM
O PESQUISADOR fica sozinho, olhando para a TV desligada.
ESCURIDÃO.
Se quiser, posso:
-
adaptar para teleteatro infantil ou juvenil,
-
transformar em monólogo do pesquisador,
-
ou ajustar o texto para 30 minutos de duração, mantendo sua pesquisa autoral e experimental.
A relação entre Lima Barreto e Monteiro Lobato, tal como pode ser reconstruída a partir de A Barca de Gleyre (conjunto de cartas de Lobato a Godofredo Rangel), é menos uma amizade íntima e mais uma amizade intelectual atravessada por admiração, distância e tensão histórica.
1. O lugar de Lima Barreto em A Barca de Gleyre
Em A Barca de Gleyre, Lobato não escreve para Lima Barreto, mas pensa Lima Barreto em voz alta. Ele aparece como uma figura constantemente evocada nas cartas, sobretudo como:
-
símbolo de independência literária
-
exemplo extremo de escritor fora do sistema
-
consciência crítica incômoda da República e da elite letrada
Lobato vê Lima Barreto como alguém que escreve “sem pedir licença”, pagando caro por isso. Há um tom ambíguo: admiração real, mas também uma tentativa de enquadrar Barreto como um “caso”, quase um mártir literário.
2. Admiração sem intimidade
Não há, ao contrário do que ocorre com Godofredo Rangel, uma troca calorosa ou cotidiana. A amizade entre Lobato e Lima Barreto é:
-
mais ética do que afetiva
-
mais literária do que pessoal
-
mais observada do que vivida
Lobato admira em Lima Barreto aquilo que ele próprio teme e, ao mesmo tempo, evita plenamente encarnar:
a recusa radical aos salões, às academias, às mediações sociais.
Em A Barca de Gleyre, Lobato reconhece o valor da obra de Lima Barreto antes que ela fosse consensual, o que é significativo. Ele percebe que ali há algo que ultrapassa o gosto da época.
3. Diferença social e racial como pano de fundo silencioso
Embora Lobato não formule isso de modo explícito, o texto deixa transparecer um dado fundamental:
Lima Barreto vive uma exclusão mais profunda e estrutural do que a de Lobato.
-
Lobato pode criticar o sistema de dentro
-
Lima Barreto o critica de fora, sem redes de proteção
Em A Barca de Gleyre, Lobato demonstra consciência dessa assimetria, mas não chega a problematizá-la politicamente. Ele lamenta o destino de Lima Barreto, mas frequentemente o lê como um indivíduo trágico, e não como resultado de uma violência social organizada.
Esse ponto é crucial:
há empatia, mas não plena identificação.
4. Lima Barreto como advertência
Um aspecto muito forte do livro é que Lima Barreto funciona para Lobato como uma figura de advertência:
o que acontece ao escritor que não negocia nada?
Lobato vê nele:
-
talento
-
lucidez
-
coragem
mas também isolamento, alcoolismo, miséria e morte precoce.
Em várias passagens, o tom sugere algo como:
“Veja, Rangel, até onde vai a coerência absoluta.”
Isso não diminui a admiração; ao contrário, a torna mais trágica.
5. Uma amizade impossível nos termos da época
Se podemos falar em amizade, ela é uma amizade possível apenas no plano das ideias.
Eles compartilham:
-
o desprezo pela retórica vazia
-
a crítica à falsa modernidade republicana
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o interesse pelo Brasil real
Mas não compartilham:
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as mesmas condições materiais
-
o mesmo lugar social
-
a mesma margem de erro permitida
Em A Barca de Gleyre, Lima Barreto aparece como alguém que Lobato respeita profundamente, mas que ele observa à distância, quase com reverência e receio.
6. Síntese
A relação entre Lima Barreto e Monteiro Lobato, vista através de A Barca de Gleyre, pode ser definida como:
-
amizade intelectual sem convivência intensa
-
admiração atravessada por diferença social
-
solidariedade sincera, mas incompleta
-
respeito que não chega a comunhão
Lima Barreto não é para Lobato um “companheiro de barca”, mas alguém que navega sozinho, em mar mais violento — e cuja travessia Lobato observa, registra e, em certa medida, teme.
Se quiser, posso:
-
comparar essa visão com a de Carlos Drummond sobre Lima Barreto
-
ou transformar essa leitura em texto ensaístico ou teatral, no tom que você costuma trabalhar.
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