Reflexo. Poema de Maurício Menossi Flores, Com Análise Da Inteligência Artificial.
Reflexo
(Em processo, sem revisão.)
Parece haver
Uma barreira intransponível
Bastante simples...
Um não querer.
Algo me impedindo
De atingir a integridade
Do meu ser,
Eliminando a barriga
Em formato de melancia,
Como minha ex-sogra,
Provavelmente, já falecida,
Dizia.
João Guimarães Rosa
Dedicou-se à poesia,
Antes de virar diplomata,
Conforme aprendi
Na entrevista concedida
À certa TV alemã.
Vejo nele
Falha no dente da frente.
Fuma cigarro igual condenado,
Embora tenha muito charme.
E a mim, como me vejo?
Nos reflexos
Dos vidros
Dos automóveis,
Sou homem comum,
Disforme.
A pança proeminente,
Difícil de contrair,
Salta aos olhos.
É essa a barreira tênue:
Entre o que vejo
E o que gostaria de ver realmente,
Um reflexo mais leve, somente.
(Mameflo)
Ano 2025
1. Análise sintática
O poema emprega um estilo paratático, com orações curtas, muitas vezes independentes, criando um ritmo fragmentado que reforça a sensação de hesitação e autoquestionamento. Alguns pontos estruturais:
a) Predominância de frases nominais ou verbos pouco desenvolvidos
Exemplos:
-
“Parece haver / Uma barreira intransponível / Bastante simples...”
-
“Um não querer.”
Esses enunciados funcionam quase como cortes de cena, pensamentos isolados.
b) Uso de verbos de percepção e de estado
-
“Vejo nele…”
-
“E a mim, como me vejo?”
-
“Sou homem comum, / Disforme.”
Há recorrência de verbos ligados ao olhar, reforçando o tema do reflexo e da autoimagem.
c) Enjambements marcados
As quebras de verso deslocam elementos sintáticos, criando pausas expressivas:
-
“Algo me impedindo / De atingir a integridade / Do meu ser”
-
“Nos reflexos / Dos vidros / Dos automóveis”
Isso gera um ritmo hesitante, introspectivo, que simula a própria dificuldade do sujeito em formular uma imagem estável de si.
d) Interpolação de referências externas
O trecho sobre Guimarães Rosa introduz uma digressão sintática e semântica, como se um parágrafo de prosa entrasse no poema:
-
“João Guimarães Rosa / Dedicou-se à poesia, / Antes de virar diplomata, / Conforme aprendi / Na entrevista concedida / À certa TV alemã.”
As orações subordinadas, empilhadas, criam um tom mais discursivo, quase anecdótico, contrastando com o lirismo introspectivo dos trechos anteriores e posteriores.
e) Alternância entre períodos elípticos e períodos completos
-
“E a mim, como me vejo?” (interrogativa completa)
-
“Disforme.” (frase nominal abrupta)
Essa alternância cria um balanço entre afirmação e suspensão.
2. Análise estética
a) Tema central: identidade vs. autoimagem
O poema articula a tensão entre o eu vivido e o eu percebido no reflexo. O corpo — particularmente a barriga — torna-se símbolo dessa discrepância. A pergunta “E a mim, como me vejo?” torna-se eixo estético e existencial.
b) Mistura de registro lírico e prosaico
Há momentos altamente poéticos (“Entre o que vejo / E o que gostaria de ver realmente”) e momentos de linguagem cotidiana ou humorística (“Em formato de melancia”, “Fuma cigarro igual condenado”).
Esse contraste dá ao poema um tom humano, confessional, sem afetação, aproximando-o da poesia contemporânea diária.
c) Caminho digressivo
A inserção de Guimarães Rosa — inesperada — cria um efeito de pensamento vagante, como se a mente do eu lírico saltasse de um tema ao outro enquanto reflete sobre si. É um procedimento muito moderno, de estilo quase ensaístico dentro do poema. Isso adiciona complexidade e sugere que a percepção do eu ocorre entrecortada por memórias e referências culturais.
d) Imagens do espelho urbano
A escolha de “reflexos / dos vidros / dos automóveis” é muito significativa:
-
São reflexos involuntários, imperfeitos.
-
São reflexos não-românticos, não simbólicos como o espelho tradicional.
-
Representam um olhar fugaz, acidental — que captura o corpo sem filtros.
Esteticamente, isso posiciona o poema no mundo contemporâneo, dando-lhe concretude.
e) Tom confessional, melancólico e irônico
O poema oscila entre a melancolia (“Sou homem comum, / Disforme.”) e a ironia suave (a ex-sogra comparando a barriga à melancia).
Essa dualidade produz autenticidade afetiva: o eu lírico se expõe, mas com humor.
f) Desfecho reflexivo e delicado
A conclusão — “um reflexo mais leve, somente” — é uma espécie de desejo modesto, sem grandiloquência. Esteticamente, o fechamento é suave, não retórico. O “somente” final funciona como suspensão, como se o eu lírico pedisse pouco — mas algo que, emocionalmente, é muito.
3. Considerações gerais
-
O poema cria um arco temático de autoanálise corporal e identitária, entrecortado por referências pessoais e culturais.
-
O ritmo, predominantemente breve e entrecortado, reforça a sensação de consideração íntima, de um pensamento que vai se formulando enquanto é dito.
-
A estética é concreta, cotidiana, com imagens acessíveis, e ao mesmo tempo capaz de tocar em questões profundas.

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