Primavera. Poema De Maurício Menossi Flores, Com Análise Da Inteligência Artificial.



 Primavera

(Em processo, sem revisão.)
Flutuava pelos bons ares
Despido, de corpo pintado,
Como Deus negro,
Na contraluz pairava.
Era primavera, e por toda cidade
Antigas construções encimavam
Verdes morros cortados.
Procurava onde exibir
Meus longos cabelos lisos e dourados.
Onde pudesse ser
Muito admirado.
Antes disso, de sono profundo,
Acordei a minha mãe
Jovem, remoçada,
Que era eu mesmo,
Agora, sem mordaça.
Perguntou a mim,
Minha namorada,
Por onde andavam as moças,
Se as encontrara.
Com o corpo nu,
Em mim, ela feliz roçava:
A pele morena
E toda perfumada.
(Mameflo)

Excelente escolha de poema — “Primavera” é uma composição de rica densidade simbólica e sintática, mesmo em seu estado de “em processo”. Abaixo segue uma análise sintática e estética detalhada, dividida em duas partes complementares.

🌿 ANÁLISE SINTÁTICA

O poema alterna frases nominais e orações completas, articulando-as por parataxe (justaposição) e coordenação com poucas subordinações explícitas. Essa estrutura contribui para o ritmo livre e onírico.

1. Primeira estrofe:

Flutuava pelos bons ares
Despido, de corpo pintado,
Como Deus negro,
Na contraluz pairava.

  • Sujeito elíptico: “Eu” (revelado posteriormente).

  • Predicado verbal: “Flutuava pelos bons ares” → verbo intransitivo com adjunto adverbial (“pelos bons ares”).

  • Predicativos do sujeito: “Despido, de corpo pintado, / Como Deus negro” → expressões que descrevem o estado e aparência do sujeito.

  • Oração coordenada: “Na contraluz pairava” reforça a ideia de suspensão e presença etérea.

→ O efeito é de um quadro em suspensão, quase mitológico, com o “eu” pairando entre o humano e o divino.

2. Segunda estrofe:

Era primavera, e por toda cidade
Antigas construções encimavam
Verdes morros cortados.

  • Verbo de ligação: “Era” com predicativo do sujeito (“primavera”).

  • O sujeito “Antigas construções” tem o verbo “encimavam” (transitivo direto) e o objeto direto “verdes morros cortados”.

  • imagem topográfica e temporal: a estação (primavera) emoldura o cenário urbano e geográfico.

→ Aqui, o sujeito se desloca para a paisagem. A estrutura sintática firme contrasta com o tom nebuloso da primeira estrofe.

3. Terceira estrofe:

Procurava onde exibir
Meus longos cabelos lisos e dourados.
Onde pudesse ser
Muito admirado.

  • Oração principal: “Procurava onde exibir meus longos cabelos…” (verbo transitivo direto, com oração subordinada adverbial de lugar).

  • Repetição anafórica de “onde”, reforçando o desejo de exibição e reconhecimento.

  • “Pudesse ser muito admirado” é oração subordinada adjetiva ou consecutiva (dependendo da leitura), expressando anseio de vaidade e autoafirmação.

→ Sintaticamente fluida e introspectiva — o ritmo alterna entre desejo e melancolia.

4. Quarta estrofe:

Antes disso, de sono profundo,
Acordei a minha mãe
Jovem, remoçada,
Que era eu mesmo,
Agora, sem mordaça.

  • Sujeito: “Eu”.

  • Verbo transitivo direto: “Acordei” (objeto direto “a minha mãe”).

  • “Jovem, remoçada” são adjuntos adnominais da mãe, ou predicativos se lidos como estado.

  • O pronome relativo “que” introduz uma oração explicativa — “que era eu mesmo” — criando uma identificação simbólica entre o eu e a mãe (arquétipo da origem, da criação).

  • “Agora, sem mordaça” é adjunto adverbial de modo, libertador.

→ Sintaticamente, essa é a passagem mais complexa e metafísica do poema: o “eu” sonhador desperta a “mãe” que é ele mesmo — uma inversão de papéis, um renascimento.

5. Quinta estrofe:

Perguntou a mim,
Minha namorada,
Por onde andavam as moças,
Se as encontrara.

  • Verbo de elocução: “Perguntou” (sujeito: “minha namorada”).

  • Oração subordinada substantiva indireta: “por onde andavam as moças” e “se as encontrara”.
    → A sequência encena um diálogo íntimo e curioso, retomando o tema do desejo.

6. Sexta estrofe:

Com o corpo nu,
Em mim, ela feliz roçava:
A pele morena
E toda perfumada.

  • Oração principal: “Ela feliz roçava em mim.”

  • “Com o corpo nu” → adjunto adverbial de modo.

  • “A pele morena / E toda perfumada” → aposições ou complementos explicativos que intensificam a sensualidade.

→ A estrutura final é sintaticamente simples e ritmicamente lenta, encerrando o poema num clímax de fusão corporal e onírica.

🎨 ANÁLISE ESTÉTICA E INTERPRETATIVA

  1. Tema e atmosfera
    O poema transita entre o mito da primavera (renascimento, juventude, beleza) e a autoimagem do sujeito poético, que mistura vaidade, erotismo e transcendência.
    A “primavera” aqui é menos uma estação e mais um estado psíquico de recomeço, em que o eu se vê tanto divino (“como Deus negro”) quanto terreno (“meus longos cabelos lisos e dourados”).

  2. Dualidades centrais

    • Luz e contraluz.

    • Masculino e feminino (o eu e a mãe/namorada).

    • Corpo e espírito.

    • Eu e outro (autoerotismo e espelhamento).

    Essas tensões são resolvidas não por oposição, mas por fusão imagética, típica do simbolismo e do surrealismo lírico.

  3. Estilo e linguagem

    • Léxico simples, mas altamente icônico e cromático: “negro”, “verdes”, “dourados”, “morena”.

    • Sintaxe livre, fluência onírica e cinematográfica (planos que se sobrepõem).

    • Uso do presente narrativo misturado ao pretérito, reforçando o caráter de sonho e memória.

    • A ausência de pontuação forte cria suspensão e continuidade respiratória — há um tom de transe poético.

  4. Aspectos simbólicos e psicanalíticos
    A figura da mãe que é o próprio “eu” rejuvenescido lembra a reversão do mito de Narciso, em que o espelho não é o lago, mas a ancestralidade.
    O erotismo final não é apenas carnal — é autoerótico e libertador, marcado pela expressão “sem mordaça”.

💡 Síntese final

“Primavera” é um poema sobre o despertar — físico, erótico e existencial — de um sujeito que renasce na própria imagem materna, unindo contradições (homem e mulher, negro e dourado, nu e pintado).

Sintaticamente, alterna liberdade e estrutura, como se o próprio texto respirasse.

Esteticamente, combina traços do Simbolismo, do Surrealismo e de uma poética performática moderna, muito próxima de uma escrita corporal.

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