Anatole France. Poema De Maurício Menossi Flores, Com Análise Da Inteligência Artificial.

Anatole France


(Em processo, sem revisão.)

Quantos elétrons existem no Universo?
Estarão todos emparelhados?
A primeira pergunta do Monark
Para o primeiro entrevistado
Do seu novo programa do YouTube
Foi se a vida vale a pena.
Vê-se que ele continua perdido
E nem mesmo mudar o formato
De ir para a rede foi possível.
É como trocar a caneta de mão
Esperando novo espírito.
A transformação de Lorentz
Passa a fazer sentido,
Nesses sistemas de coordenadas locais.
Quero conectar-me
Com todos os gordos do planeta
E, assim, encontrarmos a solução
Para o nosso problema.
Não escrevo o diário de D. Pedro.
Não bolo frase para publicar no Facebook.
O banheiro unissex parece perfeito.
Mas a silhueta do cadeirante
Está meio escondida.
Às vezes, penso em procurar emprego,
Ao ser informado do balconista do bar que habito
Ter se demitido.
Essa última, referência ao filme do Almodóvar,
É tentativa de dar sentido
Ao meu caráter erudito.
Fiquei sabendo que tem Nobel de Física
Ligado em Parapsicologia.
Não falo do Richet,
Porque o dele é de fisiologia.
Nem quero me entrosar
Do papo da mesa ao lado...
Percebi tratarem-se de funcionários públicos...
Alguém já repetiu três vezes seguidas:
"- Ele não avisou ninguém!"
Se meu texto fosse fórmula matemática,
Mudaria o nível de energia
E me tornaria corpo radiante.
Os robôs estão sendo produzidos em escala.
Não tenho mais questões existenciais.
Estou tentando manter-me vivo,
Sem saber que é isso.
Talvez tenha sido suficiente e necessário:
Sou reservado, não me meto nesse papo...
Imito a discrição do meu tio alcoólatra.
A ausência dela me consola.
Meu prazer é ficar quieto no meu canto.
Pergunto-me mentalmente:
"- Por que no princípio era o Verbo?"
Cada um na sua, eu na minha.
Fui ao banheiro duas vezes.
Deus não joga dados com o Mundo
E Einstein não se ligava em estatística.
Experimentos idealizados sobre a mesa de bilhar.
Quando fizer silêncio, ouvirei os santos.
Não sei se vou para outro canto
Ou cruzo o meu olhar com um cúmplice.
Talvez esteja no ocaso
De um conto de livro didático
Do tempo de colégio.
Quantos sentimentos tive de relevar!
Perco-me, atrapalhando-me no cumprimento,
Esperando fala estereotipada.
Estava indo tudo tão bem,
Nos gráficos das aplicações financeiras
Nas moedas virtuais.
Naquele dia eu tinha um grande tema:
Hoje, procuro algo para servir
De acento, de banco, no meu teatro.

(Mameflo)

🧩 1. Estrutura sintática geral

O poema é composto de versos livres, de extensão irregular, sem rimas fixas e sem métrica definida.
Predomina o parataxismo (justaposição de frases ou orações coordenadas, sem nexos explícitos), o que confere ao texto um ritmo mental, fragmentário, quase discursivo — como se o sujeito lírico pensasse em voz alta.

Exemplo:

“Quantos elétrons existem no Universo?
Estarão todos emparelhados?
A primeira pergunta do Monark
Para o primeiro entrevistado
Do seu novo programa do YouTube
Foi se a vida vale a pena.”

Aqui, há alternância de orações interrogativas diretas (“Quantos elétrons...?”, “Estarão todos...?”) e orações declarativas simples, unidas por continuidade de sentido, não por conectivos lógicos.
A justaposição reforça o fluxo associativo do pensamento, e o uso recorrente do paralelismo sintático (repetição de estruturas equivalentes) dá musicalidade e ritmo.

Do ponto de vista morfossintático, predominam:

  • Orações simples ou coordenadas assindéticas (“Quero conectar-me / Com todos os gordos do planeta / E, assim, encontrarmos a solução / Para o nosso problema.”)

  • Predicados verbais diretos e secos, com verbos de cognição (“penso”, “percebi”, “pergunto-me”), e de estado (“sou reservado”, “estou tentando”).

  • Elipses e truncamentos — o sujeito lírico suprime partes do discurso, sugerindo pensamento não concluído (“Talvez tenha sido suficiente e necessário”).

Há também uma alternância entre registro coloquial e culto, que é central à expressividade do texto:

“Não bolo frase para publicar no Facebook.”
“A transformação de Lorentz / Passa a fazer sentido.”

Essa oscilação cria tensões de linguagem, que reforçam o caráter híbrido entre o “intelectual desencantado” e o “homem comum digital”.


🎭 2. Construção estética e simbólica

a) Título — “Anatole France”

O título evoca o escritor francês (1844–1924), célebre pelo ceticismo e pela ironia ilustrada.
Sua presença sugere autorreflexão sobre o papel do intelectual — como se o “eu lírico” fosse uma versão contemporânea do cético Anatole, deslocado no caos informacional do século XXI.

Assim, o nome funciona como espelho e ironia: o sujeito tenta manter o olhar crítico (à maneira de Anatole France), mas o contexto é dominado por YouTube, redes sociais e criptomoedas.


b) Campo semântico: ciência, mídia e introspecção

O poema alterna três registros semânticos:

  1. Científico-técnico: elétrons, Lorentz, energia, robôs, Parapsicologia, estatística, Einstein.
    → Representam o racionalismo e a tentativa de compreender o mundo por modelos.

  2. Cultural-midiático: Monark, YouTube, Facebook, Almodóvar.
    → Símbolos da era digital e do espetáculo, do ruído informacional.

  3. Existencial-intimista: “Meu prazer é ficar quieto no meu canto.” / “Estou tentando manter-me vivo.”
    → Núcleo de solidão e desencanto, o “resíduo humano” após o colapso do sentido.

A colisão desses campos semânticos cria o efeito central: o homem pensante preso em um circuito de ruído, ciência e tédio — espécie de “intelectual em decomposição cotidiana”.


c) Ironia e autoironia

O texto está permeado de ironias discretas, que funcionam como dispositivos de defesa do eu lírico diante do absurdo:

“Essa última, referência ao filme do Almodóvar,
É tentativa de dar sentido / Ao meu caráter erudito.”

Aqui, o sujeito se ironiza: reconhece sua própria vontade de parecer culto, denunciando-a.

“Imito a discrição do meu tio alcoólatra.”
Mistura de humor e tragédia doméstica, que humaniza e desarma o discurso.

A ironia tem também função metalinguística: o poema comenta sua própria necessidade de existir — o “grande tema” que se dissolve na banalidade.


d) A poética do prosaico

Há forte influência da poesia de observação urbana e antirretórica, próxima de Manuel Bandeira, Paulo Leminski e Francisco Alvim.
O tom de conversa casual (“Fui ao banheiro duas vezes.”) contrasta com as referências elevadas, produzindo um efeito de realismo melancólico e cômico.

Essa opção estética — misturar trivialidade e filosofia — gera uma poesia “científico-cotidiana”, que reflete o homem pós-moderno: lúcido, fragmentado, irônico e cansado.


🧠 3. Temas centrais

  1. Desencanto com o discurso racional e tecnológico.
    A física (Lorentz, Einstein) é citada como tentativa frustrada de reencontrar sentido.

  2. A inutilidade da erudição na sociedade de redes.
    “Não bolo frase para publicar no Facebook” e “foi se a vida vale a pena” são contrapontos entre o erudito e o banal.

  3. O isolamento e o humor defensivo.
    “Sou reservado, não me meto nesse papo...” — o sujeito se preserva do mundo vulgarizado.

  4. A falência da transcendência.
    A pergunta “Por que no princípio era o Verbo?” ecoa João 1:1, mas aqui o Verbo já perdeu força criadora.


🔍 4. Leitura filosófica

Há um substrato existencialista (à la Camus): o homem moderno tenta encontrar sentido em meio à absurda sucessão de estímulos.
Mas também há um eco de materialismo irônico: o sujeito reconhece-se corpo, átomo, energia — “Se meu texto fosse fórmula matemática, / Mudaria o nível de energia / E me tornaria corpo radiante.”

Esse verso sintetiza o nexo entre matéria e espírito, ironizando a busca de iluminação (“corpo radiante”) como fenômeno físico, não místico.


🎨 5. Conclusão estética

Anatole France”, de Mameflo, é um poema de observação filosófica e autodepreciação lúcida, que mistura cultura de massa, ciência e vida cotidiana.
A sintaxe fragmentária traduz a intermitência da consciência contemporânea, enquanto a estética do prosaico e a ironia erudita constroem um retrato pós-irônico do sujeito moderno — culto, saturado e cansado de si.

Trata-se de uma obra madura, de grande densidade reflexiva, mesmo “sem revisão”.
A beleza do texto está justamente na sua inconclusão, que é também a do tempo histórico e do indivíduo que tenta pensar dentro dele.


Se quiser, posso montar uma leitura crítica expandida (para publicação), com referências teóricas a Baudrillard, Adorno, Barthes e Camus, articulando a ideia de “sujeito colapsado na era da informação”. Deseja que eu elabore essa versão também?

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