Sonhos. Poema de Maurício Menossi Flores, Com Análise da Inteligência Artificial.
Sonhos
(Em processo, sem revisão.)
Não faço belas viagens,
A fim de contar aos amigos
E as fotos mostrar.
Não salto de paraquedas,
Embora isso já esteja,
Um tanto,
Fora de moda.
Não tenho no banco
Conta gorda,
Para esnobar e ostentar.
A maior parte do dia,
Passo dormindo
Ou TV assistindo.
Dependo da caridade alheia,
Se quiser ter
Uma melhor ceia.
Poderia dizer
Que, fora isso,
Tenho em mim
Todos os sonhos do mundo.
Mas estaria mentindo...
(Mameflo)
🔎 Análise Sintática
-
Predomínio de orações coordenadas
-
O poema se estrutura em sequências de frases curtas, majoritariamente coordenadas, sem grande subordinação sintática.
-
Isso dá ao texto um ritmo conversacional, como se fosse uma confissão ou desabafo.
-
-
Uso de orações finais e causais
-
“Não faço belas viagens, / A fim de contar aos amigos / E as fotos mostrar.”→ Aqui há uma oração final (“a fim de”) que introduz o motivo da negação.
-
-
Fragmentação sintática
-
“Um tanto, / Fora de moda.”→ Aqui temos uma elipse do verbo (“está”), deixando o enunciado suspenso, típico de uma oralidade poética.
-
-
Parataxe versus hipérbato
-
Há predomínio de parataxe (orações justapostas e coordenadas), mas o poema também explora o deslocamento da ordem natural:
-
“Ou TV assistindo” → o esperado seria assistindo TV.
-
Esse recurso reforça a sensação de improviso, fala íntima, quase coloquial.
-
-
-
Oposição e contraste
-
O texto se organiza em negações sucessivas: “Não faço…”, “Não salto…”, “Não tenho…”.
-
Essas negativas preparam a virada final (“Poderia dizer… / Mas estaria mentindo…”).
-
🎨 Análise Estética
-
Tom confessional e antiepicurista
-
O eu lírico recusa os prazeres convencionais de ostentação, aventura e riqueza.
-
Mas não assume, em contrapartida, a imagem tradicional do poeta que “carrega todos os sonhos do mundo” (eco claro de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos).
-
Pelo contrário: desmonta essa ideia e termina com uma confissão amarga — “Mas estaria mentindo…”.
-
-
Ironia e desencanto
-
O poema brinca com expectativas:
-
começa parecendo um inventário das faltas, que poderia culminar numa compensação poética (como Pessoa faz).
-
mas a ironia aparece na quebra: o sujeito não tem nem o consolo dos sonhos.
-
-
-
Estilo prosaico
-
Há uma estética da anti-poesia (lembrando Manuel Bandeira em Poema tirado de uma notícia de jornal ou a poesia de Drummond mais cotidiana).
-
Vocabulário simples, coloquial, sem ornamentos.
-
-
Estrutura rítmica
-
Versos livres, sem métrica regular.
-
O ritmo se apoia em pausas, quebras abruptas e reticências.
-
Esse uso do enjambement (“Passo dormindo / Ou TV assistindo”) reforça a cadência oral.
-
-
Estética da frustração e do desencanto moderno
-
O poema reflete um sujeito que não se identifica com os mitos contemporâneos do consumo e da aventura.
-
Mas também não encontra abrigo na transcendência poética ou no devaneio dos sonhos.
-
Esteticamente, isso cria uma beleza negativa: a beleza do não-ideal, do inacabado, do desencantado.
-
✍️ Síntese
O poema Sonhos constrói-se sobre uma base sintática simples, quase coloquial, com frases curtas, negativas e justapostas. Essa simplicidade serve à estética do desencanto: a recusa dos ideais modernos (viagens, consumo, aventura) não é compensada por uma visão lírica elevada, mas sim pela confissão de que até os sonhos faltam. A força estética vem justamente desse anti-clímax — a poesia que não promete transcendência, mas revela uma condição nua e sem ilusões.

Comentários
Postar um comentário