Poema "Trabalho", De Maurício Menossi Flores, Com Análise da IA - Inteligência Artificial.
Trabalho
(Em processo, sem revisão.)
Há um trabalho para fazer.
Na verdade, vários.
Talvez eu tenha alguma utilidade...
Passo os olhos pelo apartamento:
O chuveiro instalado,
A torneira da pia da cozinha trocada,
A luminária da sala consertada,
As plantas, nos vasos, regadas,
A louça lavada,
O lixo retirado.
Nisso tudo somado,
Fazendo os devidos descontos,
Percebo o meu erro
De me manter ausente,
Nas ocasiões mais significantes,
Da parceria feita em certa data,
Escolhida ao acaso.
Não sei o que digo...
Deve haver algum sentido insólito,
Na existência pífia,
Sem por mim ser visto.
(Mameflo)
🔎 Análise Sintática
O poema se estrutura em frases curtas, diretas, em sua maioria oracionais simples ou compostas por coordenação, o que confere ritmo entrecortado e cotidiano.
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Primeira estrofe (versos iniciais)
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"Tenho um trabalho para fazer. / Na verdade, tenho vários."→ Estruturas declarativas simples, organizadas em torno do sujeito explícito "eu". Há uma cadência de enunciados curtos, quase prosaicos.
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"Talvez eu tenha alguma utilidade..."→ O advérbio modalizador talvez e o uso do subjuntivo tenha sugerem dúvida e fragilidade.
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Listagem de tarefas (versos médios)
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"O chuveiro instalado, / A torneira da pia da cozinha trocada, / A luminária da sala consertada..."→ Aqui predominam orações reduzidas de particípio, elípticas de verbo principal (foi instalado, foi trocada). O sujeito é apagado, o que reforça a ideia de ação realizada sem a presença plena do eu.
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O efeito é de enumeração, típico de uma crônica da rotina.
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Versos reflexivos (após a enumeração)
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"Nisso tudo somado, / Fazendo os devidos descontos, / Percebo o meu erro..."→ Estruturas de valor condicional/causal, como raciocínio lógico, em que se misturam o cálculo (somado, descontos) com o íntimo (erro).
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"De me manter ausente, / Nas ocasiões mais significantes..."→ Uso do infinitivo substantivado (de me manter) que funciona como complemento de "erro". A forma abstrata aumenta a sensação de distanciamento.
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Fecho
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"Não sei o que digo... / Deve haver algum sentido insólito, / Na existência pífia, / Sem por mim ser visto."→ Alternância entre frase direta e modalização epistêmica (deve haver).→ O fecho desloca o "trabalho" do plano material/doméstico para o plano existencial/ontológico.
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🎨 Análise Estética
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Tom e atmosfera
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O poema começa objetivo, quase burocrático, narrando tarefas banais. Mas aos poucos desloca-se para um terreno de dúvida e autoacusação.
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O contraste entre a frieza prática (chuveiro, torneira, luminária) e a confissão íntima (ausência, existência pífia) cria um movimento de deslocamento estético: do concreto ao abstrato.
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Estratégia formal
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A enumeração de objetos domésticos funciona como metáfora de um inventário da vida, quase contábil, o que é reforçado pela expressão "fazendo os devidos descontos".
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O uso de orações reduzidas de particípio dá um ar impessoal, como se o eu lírico não fosse sujeito ativo de sua própria vida.
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Estilo
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Há uma estética da incompletude: frases suspensas, uso de reticências, declarações que terminam em dúvida ("Não sei o que digo...").
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O eu lírico transita entre o pragmatismo e a introspecção, revelando uma crise do sentido: cumpre funções práticas, mas sente-se ausente do essencial.
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Tensão central
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O título "Trabalho" remete tanto ao labor doméstico e útil quanto ao trabalho da existência, ou mesmo ao labor poético.
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O deslocamento do útil para o existencialmente inútil constitui a ironia trágica do poema.
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Estética do cotidiano
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O poema dialoga com uma linha estética próxima da poesia concreta e minimalista em sua simplicidade, mas também com a poesia confessional, em que a rotina vira trampolim para uma reflexão sobre sentido, ausência e fracasso.
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✍️ Síntese
O poema cria uma poética da rotina: começa com uma lista de afazeres práticos, mas se converte em exame de consciência. A sintaxe curta e fragmentada reforça o tom coloquial e confessional, enquanto a estética se desloca do cotidiano banal para a busca de sentido diante da sensação de inutilidade.
👉 Ele trabalha com uma dialética entre trabalho objetivo (tarefas realizadas) e trabalho subjetivo (sentido de existir), concluindo com a percepção de ausência e insatisfação.

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