Poema "Trabalho", De Maurício Menossi Flores, Com Análise da IA - Inteligência Artificial.

 


Trabalho


(Em processo, sem revisão.)

Há um trabalho para fazer.
Na verdade, vários.
Talvez eu tenha alguma utilidade...
Passo os olhos pelo apartamento:
O chuveiro instalado,
A torneira da pia da cozinha trocada,
A luminária da sala consertada,
As plantas, nos vasos, regadas,
A louça lavada,
O lixo retirado.
Nisso tudo somado,
Fazendo os devidos descontos,
Percebo o meu erro
De me manter ausente,
Nas ocasiões mais significantes,
Da parceria feita em certa data,
Escolhida ao acaso.
Não sei o que digo...
Deve haver algum sentido insólito,
Na existência pífia,
Sem por mim ser visto.

(Mameflo)


🔎 Análise Sintática

O poema se estrutura em frases curtas, diretas, em sua maioria oracionais simples ou compostas por coordenação, o que confere ritmo entrecortado e cotidiano.

  1. Primeira estrofe (versos iniciais)

    • "Tenho um trabalho para fazer. / Na verdade, tenho vários."
      → Estruturas declarativas simples, organizadas em torno do sujeito explícito "eu". Há uma cadência de enunciados curtos, quase prosaicos.

    • "Talvez eu tenha alguma utilidade..."
      → O advérbio modalizador talvez e o uso do subjuntivo tenha sugerem dúvida e fragilidade.

  2. Listagem de tarefas (versos médios)

    • "O chuveiro instalado, / A torneira da pia da cozinha trocada, / A luminária da sala consertada..."
      → Aqui predominam orações reduzidas de particípio, elípticas de verbo principal (foi instalado, foi trocada). O sujeito é apagado, o que reforça a ideia de ação realizada sem a presença plena do eu.

    • O efeito é de enumeração, típico de uma crônica da rotina.

  3. Versos reflexivos (após a enumeração)

    • "Nisso tudo somado, / Fazendo os devidos descontos, / Percebo o meu erro..."
      → Estruturas de valor condicional/causal, como raciocínio lógico, em que se misturam o cálculo (somado, descontos) com o íntimo (erro).

    • "De me manter ausente, / Nas ocasiões mais significantes..."
      → Uso do infinitivo substantivado (de me manter) que funciona como complemento de "erro". A forma abstrata aumenta a sensação de distanciamento.

  4. Fecho

    • "Não sei o que digo... / Deve haver algum sentido insólito, / Na existência pífia, / Sem por mim ser visto."
      → Alternância entre frase direta e modalização epistêmica (deve haver).
      → O fecho desloca o "trabalho" do plano material/doméstico para o plano existencial/ontológico.


🎨 Análise Estética

  1. Tom e atmosfera

    • O poema começa objetivo, quase burocrático, narrando tarefas banais. Mas aos poucos desloca-se para um terreno de dúvida e autoacusação.

    • O contraste entre a frieza prática (chuveiro, torneira, luminária) e a confissão íntima (ausência, existência pífia) cria um movimento de deslocamento estético: do concreto ao abstrato.

  2. Estratégia formal

    • A enumeração de objetos domésticos funciona como metáfora de um inventário da vida, quase contábil, o que é reforçado pela expressão "fazendo os devidos descontos".

    • O uso de orações reduzidas de particípio dá um ar impessoal, como se o eu lírico não fosse sujeito ativo de sua própria vida.

  3. Estilo

    • Há uma estética da incompletude: frases suspensas, uso de reticências, declarações que terminam em dúvida ("Não sei o que digo...").

    • O eu lírico transita entre o pragmatismo e a introspecção, revelando uma crise do sentido: cumpre funções práticas, mas sente-se ausente do essencial.

  4. Tensão central

    • O título "Trabalho" remete tanto ao labor doméstico e útil quanto ao trabalho da existência, ou mesmo ao labor poético.

    • O deslocamento do útil para o existencialmente inútil constitui a ironia trágica do poema.

  5. Estética do cotidiano

    • O poema dialoga com uma linha estética próxima da poesia concreta e minimalista em sua simplicidade, mas também com a poesia confessional, em que a rotina vira trampolim para uma reflexão sobre sentido, ausência e fracasso.


✍️ Síntese

O poema cria uma poética da rotina: começa com uma lista de afazeres práticos, mas se converte em exame de consciência. A sintaxe curta e fragmentada reforça o tom coloquial e confessional, enquanto a estética se desloca do cotidiano banal para a busca de sentido diante da sensação de inutilidade.

👉 Ele trabalha com uma dialética entre trabalho objetivo (tarefas realizadas) e trabalho subjetivo (sentido de existir), concluindo com a percepção de ausência e insatisfação.

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