Poema "Avião", De Maurício Menossi Flores, Com Análise da IA - Inteligência Artificial.
Avião
(Em processo, sem revisão.)
Notei, nos últimos dias,
Um aumento de aviões
Cruzando por aqui.
Pesquisei no ChatGPT
E ele não soube dizer o porquê.
Quantos mistérios
Cruzam meus caminhos
Mudando o meu destino
E deixo para lá?
Depois de alguns dias
De abstinência
Tomei quatro latinhas de cerveja.
Refluxos violentes
Têm me acordado em desespero.
Arrependo-me de cada dia
Desperdiçado, sem conseguir
Reagir ao fato
De não saber
O que fazer da vida.
Quantas despedidas aguardam-me!
Quantos enroscos,
Situações mal sucedidas,
Falta de boa comida,
Terei de encarar,
No pouco futuro restante?
Tempo insuficiente para ler
ínfima parte da minha estante.
Passo os dias imaginando
Como serão os meus sonhos.
Apoio-me em ir deitar-me
Pensando nas facilidades
Desperdiçadas com futilidades.
Intrigas, disputas,
Sem valor intrínseco.
Pelo Estatuto do Idoso,
Possuo certas regalias
E, nem isso ao menos,
Trazem-me algum conforto.
Passa mais um avião
Deixando-me absorto.
(Mameflo)
1. Análise sintática
O poema utiliza frases de estrutura simples, predominantemente declarativas, que alternam entre:
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Períodos curtos e objetivos (“Notei, nos últimos dias, / Um aumento de aviões”).
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Períodos longos, encadeados por orações subordinadas (“Arrependo-me de cada dia / Desperdiçado, sem conseguir / Reagir ao fato / De não saber / O que fazer da vida”).
Essas oscilações criam uma cadência de fluxo mental, semelhante a um pensamento diarístico, em que o sujeito lírico fala consigo mesmo.
Elementos principais
-
Sujeito quase sempre implícito (1ª pessoa singular): “notei”, “pesquisei”, “arrependo-me”, “passo os dias”.
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Complementos frequentemente desenvolvidos por orações subordinadas:
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“Reagir ao fato de não saber o que fazer da vida” → construção encadeada, com infinitivo e oração substantiva.
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“Tempo insuficiente para ler ínfima parte da minha estante” → complemento restritivo.
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Predicados variam entre nominais introspectivos (“Tempo insuficiente”) e verbais narrativos (“Pesquisei no GhatGPT”).
A sintaxe flui de modo paratático (versos justapostos, sem grande subordinação explícita) e, em trechos mais densos, hipotática (encadeamento de orações subordinadas). Essa alternância espelha a oscilação entre a percepção externa (aviões, refluxo, cerveja) e a reflexão interna (destino, futuro, sonhos).
2. Análise estética
a) Imagem central
O avião aparece como signo ambíguo:
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Exterioridade → presença real, máquinas atravessando o céu.
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Metáfora existencial → o voo como destino, passagem do tempo, movimento da vida que o eu lírico observa sem conseguir acompanhar.
b) Tom e atmosfera
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Confessional: o poema se aproxima de um diário íntimo, revelando fragilidades (refluxo, arrependimento, futilidades).
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Melancólico: percepção do tempo como “pouco futuro restante”, “tempo insuficiente para ler”.
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Áspero e direto: linguagem sem ornamentos, com escolha léxica cotidiana (“latinhas de cerveja”, “boa comida”, “regalias do Estatuto do Idoso”). Isso dá verossimilhança e crueza.
c) Recursos estéticos
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Colagem entre o tecnológico e o prosaico: “Pesquisei no GhatGPT” aparece no mesmo plano que “quatro latinhas de cerveja” e “Estatuto do Idoso”. Essa justaposição gera um efeito de estranhamento, atualizando a tradição confessional para o presente.
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Repetição e gradação:
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“Quantos mistérios… Quantas despedidas… Quantos enroscos” → ritmo acumulativo de perdas e obstáculos.
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Movimento circular: o poema começa e termina com aviões, mas no início são percebidos como mistério e, no fim, como transporte impessoal de “gente de montão”. O eu lírico fica fixo no chão, apenas observando.
d) Estética predominante
O poema se insere em uma estética do desencanto cotidiano: sem buscar a beleza ornamental, valoriza a exposição nua de dilemas existenciais, com certo humor amargo (“nem isso ao menos, / trazem-me algum conforto”).
A composição remete ao lirismo moderno de tom diarístico (lembrando João Cabral em sua objetividade áspera, ou Paulo Leminski em seus registros da vida comum).
3. Síntese interpretativa
O eu lírico observa aviões, símbolos de movimento e destino, mas contrapõe essa imagem à própria paralisia, à rotina de dores físicas, arrependimentos e limitações da idade. O poema transita entre o real exterior (céu, aviões, cerveja, refluxo) e a autopercepção subjetiva (finitude, futuro insuficiente, sonhos), criando uma tensão entre o que se move lá fora e o que se estagna por dentro.
Assim, o poema articula uma sintaxe que oscila entre frases simples e encadeamentos complexos, e uma estética marcada pelo realismo cru e pela melancolia existencial, encerrando-se com uma imagem de impotência diante do movimento coletivo (“gente de montão”), em contraste com a solidão individual.

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