Pensando
(Em processo, sem revisão.)
Para formar uma ideia
De quem o país governa,
Observe
A rua de sua residência.
Aí identifique
Quem nela
De verdade manda.
Hoje, deixei de jogar
Tênis de Mesa,
No Sesc Vila Mariana,
Para assistir ao espetáculo
Do julgamento
Dos supostos comparsas
Em um golpe de estado.
Justifiquei-me, mentalmente,
Dizendo-me ser isso necessário
No meu aprendizado.
Não fiquei muito satisfeito,
Pois, no fundo,
Bastaria relembrar
O que aconteceu comigo.
Ouvi certo rapaz na TV dizer
Ser limpo não é se sujar,
Mas tomar banho diariamente.
Estou farto de me fazer promessas.
Se o poderio
Dos Estados Unidos da América
Está nos oceanos,
O meu consiste
Em viver me afogando.
(Mameflo)
Análise Sintática
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Predomínio de orações subordinadas e coordenadas justapostas
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O poema alterna períodos curtos e longos. Os curtos criam impacto direto (“Observe / A rua de sua residência.”), enquanto os longos marcam reflexões mais complexas (“Justifiquei-me, mentalmente, / Dizendo-me ser isso necessário / No meu aprendizado.”).
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Há predominância da primeira pessoa do singular, o que reforça o caráter confessional e reflexivo.
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Imperativos e injunções
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O poema começa com verbos no imperativo: “Observe”, “Identifique”. Isso confere tom de manual ou guia de leitura da realidade. Depois, desloca-se para a experiência pessoal do eu-lírico.
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Rupturas sintáticas e uso de enjambement
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Muitas frases são interrompidas por quebras de verso (“Hoje, deixei de jogar / Tênis de Mesa, / No Sesc Vila Mariana”), o que dá uma cadência fragmentada, quase de relato oral.
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Alternância entre discurso direto e indireto
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O trecho “Ouvi certo rapaz na TV dizer / Ser limpo não é se sujar, / Mas tomar banho diariamente” insere um relato de fala dentro da reflexão, como citação indireta com tonalidade de máxima popular.
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🎭 Análise Estética
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Tom híbrido: entre o político e o íntimo
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O poema começa com uma máxima sobre poder (“Para formar uma ideia / De quem o país governa”), logo deslocada para o espaço micro da rua e depois para o espaço íntimo da vida do eu-lírico.
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Essa transição do macro (política, geopolítica, julgamento de golpe) para o micro (rotina, promessas pessoais, sentimento de afogamento) é um dos recursos estéticos mais fortes.
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Poética do cotidiano
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A menção ao Tênis de Mesa no Sesc Vila Mariana dá uma cor concreta, quase banal, que contrasta com a gravidade do julgamento político. Essa justaposição cria uma ironia sutil, um descompasso que traz densidade poética.
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Imagem final como síntese existencial
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O fechamento é de grande força simbólica:
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“Se o poderio / Dos Estados Unidos da América / Está nos oceanos, / O meu consiste / Em viver me afogando.”
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Aqui, há uma metáfora do afogamento que conecta geopolítica e subjetividade. O sujeito não domina os mares como potência imperial, mas se vê tragado por eles — impotência e resistência se fundem.
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Estilo fragmentário e ensaístico
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O poema parece estar a meio caminho entre diário pessoal, crônica política e poema meditativo.
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A estética é mais pensamental (no sentido de um pensar em voz alta) do que imagética, o que dialoga com uma tradição de poesia filosófica e crítica (lembra o tom de Drummond em “A rosa do povo” ou até Cavafy, na contenção das imagens).
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Ritmo irregular
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Não há métrica fixa nem rima, mas há cadência produzida pela alternância de frases curtas e longas e pela repetição de partículas como “Pois, no fundo” ou “Estou farto”.
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O ritmo reforça a hesitação, o caráter “em processo” do poema.
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✨ Síntese
O poema "Pensando" é um exercício de poesia reflexiva, em que a linguagem coloquial, quase diarística, se torna meio de observação crítica. Sintaticamente, ele é marcado pela fragmentação e pelo uso de imperativos que depois se dissolvem em confissão. Esteticamente, destaca-se o contraste entre cotidiano banal e macro-história política, culminando em uma imagem final poderosa de impotência existencial frente às forças do mundo.
É um poema ensaístico-existencial, em que a poesia nasce menos da ornamentação verbal e mais do choque de planos — o íntimo, o político, o cotidiano e o filosófico.

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