Modelo Padrão. Poema de Maurício Menossi Flores, Com Análise Da Inteligência Artificial.


Modelo Padrão

(Em processo, sem revisão.)

A Matemática entrou num beco sem saída:
Nem mesmo o modelo padrão do átomo está completo.
Dependendo da massa do neutrino, se houver,
Tudo mudará novamente.
E se eu não usar repelente, serei picado por mosquito.
Durmo excessivamente procurando nos sonhos
Uma mudança de rotina.
Comprei uma nova botina: alteraram-lhe o formato.
Pensei em me exercitar e o tênis de mesa virou novo problema.
Adquiro livros e afogo-me na aflição de não os ler.
A prática do yoga corre o risco de transformar-se em desprazer.
Encontro certo conhecido à porta do boteco.
Trocamos impressões sobre a velhice.
Constatamos a eminência da morte.
Despedimo-nos com indiferença.
A irmandade da qual eu fazia parte extinguiu-se.
Chego ao meu apartamento
E, com pressa, alimento-me.
Ligo a TV sem nada de útil para ver.

(Mameflo)


 Análise Sintática

O poema adota frases curtas, na maioria coordenadas, sem grandes períodos compostos por subordinação. Isso cria uma cadência direta, quase coloquial. Vamos olhar trecho por trecho:

  1. "A Matemática entrou num beco sem saída:"

    • Sujeito: A Matemática.

    • Verbo: entrou (intransitivo, mas complementado pela locução adverbial num beco sem saída).

    • Estrutura sintática enxuta, mas carregada de sentido metafórico.

  2. "Nem mesmo o modelo padrão do átomo está completo."

    • Sujeito: o modelo padrão do átomo.

    • Verbo de ligação: está.

    • Predicativo: completo.

    • Aqui a estrutura sintática é simples, mas o peso está na negação inicial (nem mesmo), que amplia o fracasso sugerido.

  3. "Dependendo da massa do neutrino, se houver, / Tudo mudará novamente."

    • Período composto por oração subordinada adverbial condicional (se houver).

    • Núcleo: Tudo mudará.

    • Aqui aparece um pouco mais de complexidade, mas ainda assim a frase é leve e direta.

  4. "E se eu não usar repelente, serei picado por mosquito."

    • Estrutura paralela à anterior.

    • Subordinação condicional (se eu não usar).

    • O contraste está em passar de neutrinos para mosquitos.

  5. Do verso “Durmo excessivamente...” até “desprazer.”

    • Temos orações principais coordenadas (assindéticas e sindéticas aditivas).

    • Ex.: Durmo excessivamente... / Comprei uma nova botina... / Pensei em me exercitar...

    • Sintaxe propositalmente trivial, quase prosaica.

  6. "Encontro certo conhecido à porta do boteco."

    • Sujeito simples: Eu.

    • Verbo transitivo direto: Encontro.

    • Complemento: certo conhecido.

    • Adjuntos: à porta do boteco.

    • Aqui a simplicidade da frase reforça a cena banal.

  7. "Trocamos impressões sobre a velhice. / Constatamos a eminência da morte."

    • Estruturas simétricas: sujeito plural + verbo transitivo + objeto direto.

    • A concisão aqui dá um efeito seco, quase de sentença.

  8. Final (“Chego ao meu apartamento... Ligo a TV sem nada de útil para ver.”)

    • Novamente frases diretas, coordenadas, que ecoam o tom do início.

    • Simplicidade sintática acentua o vazio da ação.

👉 Conclusão sintática: o poema tem predomínio de frases curtas, coordenadas, sem floreio gramatical. Essa sintaxe seca, quase de registro de diário, é parte fundamental da estética.


🔹 Análise Estética

  1. Estrutura e Progressão

    • O poema começa no campo científico (Matemática, modelo padrão, neutrino).

    • Depois cai para o cotidiano (mosquito, botina, tênis de mesa).

    • Desce ainda mais para a banalidade social (boteco, conversa sobre velhice).

    • Fecha na solidão doméstica (apartamento, TV sem nada útil).

    • Essa progressão é uma espécie de espiral descendente, do cosmos à banalidade, do abstrato ao concreto, do infinito ao inútil.

  2. Estilo

    • Predomínio de enunciados declarativos, sem interrogações ou exclamações.

    • Tom quase “contábil”: registro de pequenos fracassos ou inutilidades.

    • Isso gera uma estética minimalista e existencial, com leve ironia.

  3. Ritmo

    • As frases curtas criam uma cadência seca, lembrando a poesia moderna que se aproxima da prosa (Carlos Drummond em certos momentos, ou um diário poético).

    • Não há rima, e a métrica é livre. O ritmo é dado pela enumeração e pela pausa dos pontos finais.

  4. Imagens e Contrastes

    • Contraste entre grandeza (física de partículas, neutrino) e trivialidade (mosquito, botina, boteco).

    • Isso produz humor sutil e, ao mesmo tempo, melancolia.

    • A estética se aproxima do realismo desencantado: nada se resolve, nada é sublime, tudo é posto em igualdade de valor.

  5. Tema Existencial

    • A “incompletude” (átomo inacabado, yoga que vira desprazer, livros não lidos, irmandade extinta) perpassa todo o texto.

    • A morte aparece como evidência natural, mas é recebida sem drama: “Despedimo-nos com indiferença.”

    • O fecho na televisão acentua a vacuidade da rotina moderna.

👉 Conclusão estética: o poema constrói uma poética do desencanto cotidiano, na qual tanto a ciência quanto a vida pessoal se mostram incompletas, inúteis ou banais. A força está na combinação entre sintaxe seca e visão existencial desencantada.

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