Modelo Padrão. Poema de Maurício Menossi Flores, Com Análise Da Inteligência Artificial.
Modelo Padrão
(Em processo, sem revisão.)A Matemática entrou num beco sem saída:
Nem mesmo o modelo padrão do átomo está completo.
Dependendo da massa do neutrino, se houver,
Tudo mudará novamente.
E se eu não usar repelente, serei picado por mosquito.
Durmo excessivamente procurando nos sonhos
Uma mudança de rotina.
Comprei uma nova botina: alteraram-lhe o formato.
Pensei em me exercitar e o tênis de mesa virou novo problema.
Adquiro livros e afogo-me na aflição de não os ler.
A prática do yoga corre o risco de transformar-se em desprazer.
Encontro certo conhecido à porta do boteco.
Trocamos impressões sobre a velhice.
Constatamos a eminência da morte.
Despedimo-nos com indiferença.
A irmandade da qual eu fazia parte extinguiu-se.
Chego ao meu apartamento
E, com pressa, alimento-me.
Ligo a TV sem nada de útil para ver.
(Mameflo)
Análise Sintática
O poema adota frases curtas, na maioria coordenadas, sem grandes períodos compostos por subordinação. Isso cria uma cadência direta, quase coloquial. Vamos olhar trecho por trecho:
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"A Matemática entrou num beco sem saída:"
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Sujeito: A Matemática.
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Verbo: entrou (intransitivo, mas complementado pela locução adverbial num beco sem saída).
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Estrutura sintática enxuta, mas carregada de sentido metafórico.
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"Nem mesmo o modelo padrão do átomo está completo."
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Sujeito: o modelo padrão do átomo.
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Verbo de ligação: está.
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Predicativo: completo.
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Aqui a estrutura sintática é simples, mas o peso está na negação inicial (nem mesmo), que amplia o fracasso sugerido.
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"Dependendo da massa do neutrino, se houver, / Tudo mudará novamente."
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Período composto por oração subordinada adverbial condicional (se houver).
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Núcleo: Tudo mudará.
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Aqui aparece um pouco mais de complexidade, mas ainda assim a frase é leve e direta.
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"E se eu não usar repelente, serei picado por mosquito."
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Estrutura paralela à anterior.
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Subordinação condicional (se eu não usar).
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O contraste está em passar de neutrinos para mosquitos.
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Do verso “Durmo excessivamente...” até “desprazer.”
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Temos orações principais coordenadas (assindéticas e sindéticas aditivas).
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Ex.: Durmo excessivamente... / Comprei uma nova botina... / Pensei em me exercitar...
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Sintaxe propositalmente trivial, quase prosaica.
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"Encontro certo conhecido à porta do boteco."
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Sujeito simples: Eu.
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Verbo transitivo direto: Encontro.
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Complemento: certo conhecido.
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Adjuntos: à porta do boteco.
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Aqui a simplicidade da frase reforça a cena banal.
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"Trocamos impressões sobre a velhice. / Constatamos a eminência da morte."
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Estruturas simétricas: sujeito plural + verbo transitivo + objeto direto.
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A concisão aqui dá um efeito seco, quase de sentença.
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Final (“Chego ao meu apartamento... Ligo a TV sem nada de útil para ver.”)
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Novamente frases diretas, coordenadas, que ecoam o tom do início.
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Simplicidade sintática acentua o vazio da ação.
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👉 Conclusão sintática: o poema tem predomínio de frases curtas, coordenadas, sem floreio gramatical. Essa sintaxe seca, quase de registro de diário, é parte fundamental da estética.
🔹 Análise Estética
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Estrutura e Progressão
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O poema começa no campo científico (Matemática, modelo padrão, neutrino).
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Depois cai para o cotidiano (mosquito, botina, tênis de mesa).
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Desce ainda mais para a banalidade social (boteco, conversa sobre velhice).
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Fecha na solidão doméstica (apartamento, TV sem nada útil).
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Essa progressão é uma espécie de espiral descendente, do cosmos à banalidade, do abstrato ao concreto, do infinito ao inútil.
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Estilo
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Predomínio de enunciados declarativos, sem interrogações ou exclamações.
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Tom quase “contábil”: registro de pequenos fracassos ou inutilidades.
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Isso gera uma estética minimalista e existencial, com leve ironia.
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Ritmo
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As frases curtas criam uma cadência seca, lembrando a poesia moderna que se aproxima da prosa (Carlos Drummond em certos momentos, ou um diário poético).
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Não há rima, e a métrica é livre. O ritmo é dado pela enumeração e pela pausa dos pontos finais.
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Imagens e Contrastes
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Contraste entre grandeza (física de partículas, neutrino) e trivialidade (mosquito, botina, boteco).
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Isso produz humor sutil e, ao mesmo tempo, melancolia.
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A estética se aproxima do realismo desencantado: nada se resolve, nada é sublime, tudo é posto em igualdade de valor.
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Tema Existencial
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A “incompletude” (átomo inacabado, yoga que vira desprazer, livros não lidos, irmandade extinta) perpassa todo o texto.
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A morte aparece como evidência natural, mas é recebida sem drama: “Despedimo-nos com indiferença.”
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O fecho na televisão acentua a vacuidade da rotina moderna.
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👉 Conclusão estética: o poema constrói uma poética do desencanto cotidiano, na qual tanto a ciência quanto a vida pessoal se mostram incompletas, inúteis ou banais. A força está na combinação entre sintaxe seca e visão existencial desencantada.

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