Gases. Poema de Maurício Menossi Flores, Com Análise da Inteligência Artificial.

 


Gases


(Em processo, sem revisão.)

Já não me importaria
Se visse espíritos.
Consideraria natural,
Se a materialização deles
Tivesse algo
Com os meus gases.
De onde teria surgido
A consideração
Do belo e do feio,
Do limpo e do imundo?
Não me desespero
Com o esquecimento
Dos lampejos
De memórias falsas.
Perdidas nas evanescências
Dos finais de sinapses,
Apesar de poder isso ser
Sintoma clássico
Do princípio de demência.
Quanto privilégio
Em bem pensar agora,
Para, amanhã,
Mal saber, no relógio,
Ver as horas!
Meus vasos sanguíneos
Absorvem os piores venenos
Pelo meu intestino produzidos.
Aprendi, em certo livro,
Por um anjo escrito,
Em uma quarta-feira,
Na casa do melhor amigo,
Os efeitos deletérios da diamba.
Ver espíritos de mortos
É sinal de que continuam vivos.
Nada mais óbvio.

(Mameflo)


🔹 Análise Sintática

  1. Estrutura frasal

    • O poema é construído majoritariamente em orações coordenadas e subordinadas de caráter coloquial, que dão ritmo conversacional ao texto.

    • Há pausas frequentes marcadas por quebras de verso que funcionam como vírgulas ou reticências, imprimindo cadência descontínua e reflexiva.

  2. Predominância do verbo ser e estar implícito

    • Muitos versos giram em torno do “ser” e do “ter” (ex.: “De onde teria surgido / A consideração / Do belo e do feio”), que introduzem o pensamento filosófico.

    • Isso reforça um tom de enunciação ensaística, como se o eu lírico pensasse em voz alta.

  3. Uso da anáfora e paralelismo

    • Reaparecem estruturas repetitivas como “Do belo e do feio, / Do limpo e do imundo”, que criam efeito retórico.

    • O paralelismo sintático marca contrastes (antíteses), contribuindo para a reflexão crítica.

  4. Sintaxe elíptica

    • Há supressão de termos esperados na norma padrão, como artigos ou pronomes, o que confere leveza e aproximação da oralidade (“Ver espíritos de mortos / É sinal de que continuam vivos”).


🔹 Análise Estética

  1. Tom filosófico e irônico

    • O poema alterna entre o trivial (gases, intestino) e o metafísico (espíritos, memória, demência), criando um choque de registros que produz humor negro e reflexão.

    • O cômico corporal (fisiologia, gases, intestino) é colocado ao lado da metafísica da morte e do espírito, sugerindo uma estética grotesca próxima de autores como Villon, Rabelais e até a prosa mais ácida de Lobato.

  2. Estética da contradição

    • O eu lírico aceita com naturalidade tanto a degeneração do corpo (venenos, gases, demência) quanto a transcendência (anjos, espíritos).

    • Essa convivência de polos (o sujo e o limpo, o belo e o feio) cria uma dialética estética, que lembra a visão materialista da existência: o corpo como lugar da verdade.

  3. Memória e esquecimento

    • Há uma reflexão melancólica sobre a memória e a demência (“Não me desespero / Com o esquecimento / Dos lampejos / De memórias falsas”).

    • O tom oscila entre resignação e sarcasmo, num lirismo irônico-existencial.

  4. Final categórico

    • O poema encerra com uma afirmação seca e tautológica: “Ver espíritos de mortos / É sinal de que continuam vivos. / Nada mais óbvio.”

    • Essa conclusão desmonta a tensão metafísica anterior, fechando com banalização do mistério, o que amplia o efeito irônico.


🔹 Síntese interpretativa

O poema “Gases” explora a tensão entre corpo e espírito, degradação e transcendência, memória e esquecimento.
A escolha de elementos fisiológicos (gases, intestino, venenos) aproxima o sublime do grotesco, e a sintaxe fluida, entrecortada, aproxima o texto do discurso oral e ensaístico.
Esteticamente, resulta numa poesia que dialoga com o grotesco rabelaisiano, com o existencialismo irônico e com a tradição de poetas que não temem misturar escatologia e filosofia.

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