Escrever

(Em processo, sem revisão.)

Eu tinha uma tia louca
Que escrevia e nunca
Alguém se interessou
Pelo conteúdo
Das suas missivas.
Sinto-me assim:
Ignorado.
Mas e daí?
Serei um babaca
Carente de atenção
Julgando-me importante?
Que é isso?!
Só me faltava essa,
Precisar de elogios,
Ser a alma da festa!
Estou fora!
É muito mais digno
Parecer um bosta.
A fim de cumprir
O meu turno
Como inútil,
Decidi, por mais quinze minutos,
Escrever apologias
Aos desatinos.
Tosse, tosse, tosse,
O vizinho fumante.
Ele faz os seus cálculos
Dos danos irreparáveis do tabaco
E como administrá-los.
Há dias, ardem minhas narinas...
Será doença grave?
Seria a poluição?
Minha energia oscila:
Uns dias fico disposto
E nada faço.
Sinto-me, noutros, fraco
E retraio-me.
Onde estará aquela alienada
Escrevendo cartas?

(Mameflo)

🔎 Análise sintática

  1. Predomínio da parataxe:
    O texto tem construções simples, ligadas por coordenação, sem períodos longos nem subordinações complexas. Isso cria um fluxo coloquial, próximo à fala espontânea.

  2. Frases curtas e interrogativas:
    O uso frequente de interrogações (“Mas e daí?”, “Que é isso?!”, “Será doença grave?”) dá ao poema um tom de autoquestionamento e diálogo interno, quase como uma conversa consigo mesmo.

  3. Enumerações e repetições:
    – Repetição de palavras: “tosse, tosse, tosse” (onomatopeia rítmica, criando ênfase).
    – Listagens irônicas: “Precisar de elogios, / Ser a alma da festa!”
    Essas estruturas reforçam a oralidade e a ironia.

  4. Alternância de sujeitos:
    – Primeiro, o eu lírico (confessional, comparando-se à tia).
    – Depois, a inserção do vizinho fumante, um desvio narrativo que traz cotidiano e concretude.
    – Em seguida, volta-se ao “eu” com dúvidas existenciais.
    Essa oscilação reforça o caráter fragmentário.

  5. Quebra de linearidade temporal:
    O poema inicia com uma lembrança (a tia), passa para o presente (escrevendo, refletindo, ouvindo o vizinho), e termina com uma volta circular à figura da “alienada escrevendo cartas”.


🎭 Análise estética

  1. Tom confessional e autoirônico:
    O eu lírico expõe fragilidades (carência, inutilidade, oscilação de energia), mas de forma crítica e irônica: prefere “parecer um bosta” a “ser a alma da festa”. Essa autoexposição lembra traços de Augusto dos Anjos (na crueza) e de poetas marginais dos anos 70 (na coloquialidade).

  2. Coloquialidade e oralidade:
    – Uso de expressões cotidianas: “Que é isso?!”, “Estou fora!”, “Só me faltava essa”.
    – Quebra da solenidade poética tradicional.
    – Aproximação do leitor pela fala comum, como um desabafo.

  3. Fragmentação e fluxo de consciência:
    O poema não segue uma estrutura formal rígida, mas um fluxo de ideias que emergem de forma aparentemente desordenada — primeiro a memória, depois a autocrítica, a vizinhança, o corpo adoecido, a dúvida sobre poluição, e por fim o retorno à tia. Esse movimento remete à escrita diarística ou à prosa poética fragmentada.

  4. Ironia e desmistificação da escrita:
    Escrever aqui não é ato grandioso ou literário sublime, mas quase um gesto banal, comparado ao vício (como fumar) ou a uma função inútil (“cumprir o meu turno como inútil”). Essa atitude nega a aura romântica da literatura e a coloca em um terreno de falência e absurdo.

  5. Contraponto entre intimidade e exterioridade:
    – O eu lírico oscila entre olhar para si (angústia, vaidade, energia oscilante) e olhar para fora (o vizinho fumante, a poluição, a tia).
    – Esse choque cria tensão entre um mundo interno subjetivo e um mundo externo hostil ou indiferente.

  6. Final circular e aberto:
    O poema termina evocando novamente a tia alienada que escrevia cartas. Essa retomada dá unidade, mas deixa em aberto a reflexão: seria o eu lírico hoje a mesma figura marginalizada da tia?


✨ Síntese estética

O poema trabalha com minimalismo sintático, oralidade e ironia, gerando um efeito de desabafo íntimo, próximo ao anti-poema. Há um jogo entre humildade e vaidade, banalidade e transcendência negada, que coloca a escrita não como missão iluminada, mas como gesto de resistência diante da sensação de inutilidade.

Ele dialoga, em termos de estilo, tanto com a poesia marginal brasileira (oralidade, crítica, cotidiano) quanto com a tradição existencialista (escrever como ato de resistência ao vazio).

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