EQM. Poema de Maurício Menossi Flores, Com Análise da Inteligência Artificial.

 


EQM


(Em processo, sem revisão.)

Se pensar em doar o corpo morto
Para a pesquisa médica,
Alivia a sensação
De inutilidade,
Por outro lado,
Perceber não ser bom em nada,
Ficando nos preâmbulos
De todas as artes,
Traz-me o sentimento
De ser vazio.
Toda uma existência para concluir
Não ter valido a pena,
O caminho de muitos
Ter cruzado,
Somente provocando
Prantos e mágoas.
E, mesmo tendo EQM,
Direi, sem nenhum espanto,
Voltar à vida,
Narrando visões
De monstros e de anjos,
Ser um grande engano.

(Mameflo)

Análise sintática e estética do poema EQM (Mameflo)

Ótimo poema — bem contido, confessional e liminar. Primeiro vou notar uma possibilidade importante: a sigla EQM costuma ser lida como experiência de quase-morte; isso afeta fortemente a leitura dos versos finais (visões, monstros e anjos). (Fontes sobre o uso da sigla e o conceito: Wikipédia; artigo explicativo.) Wikipédia+1


1. Leitura sintática (estrutura, sintaxe, gramática)

  • Verso livre / fragmentação: o poema é em verso livre, sem esquema métrico regular ou rimas fixas. A sintaxe recusa períodos longos em favor de frases curtas, fragmentos e elipses — isso cria respirações rápidas e sensação de pensamento em fluxo.

  • Frases e orações: muitas linhas são sintagmas nominais ou verbais soltos (ex.: “Alivia a sensação / De inutilidade,” — sujeito oculto: “(isso) alivia”; “Perceber não ser bom em nada,” — oração infinitiva nominalizada atuando como sujeito/objeto). Há alternância constante entre:

    • oração finita com sujeito implícito (ex.: “Traz-me o sentimento…”),

    • oração infinitiva/nominal (ex.: “Se pensar em doar o corpo morto / Para a pesquisa médica,” — estrutura condicional que funciona como cláusula introdutória),

    • fragments (ex.: “Somente provocando / Prantos e mágoas.” — oração reduzida sem sujeito explícito).

  • Sintaxe marcada por elipse e inversões: em “E, mesmo tendo EQM, / Direi, sem nenhum espanto, / Voltar à vida,” o verbo principal está dividido: “Direi” + infinitivo “Voltar” — uma escolha que dá ênfase performativa (o eu-lírico anuncia a ação antes de nomeá-la).

  • Concordância e voz: o poema alterna formas verbais (infinitivos, presente, particípio). Não há problemas significativos de concordância, mas há ambiguidade de sujeito em trechos como “O caminho de muitos / Ter cruzado,” — sintaticamente parece faltar um vínculo claro (seria “ter cruzado o meu caminho” ou “o caminho que muitos tiveram cruzado”?) — essa ambiguidade pode ser recurso (sugere perda de agência) ou sinal de revisão pendente.

  • Pontuação e maiúsculas: uso deliberado de vírgulas e quebras para criar pausas; a maiúscula em “Direi” após vírgula chama atenção (poderia ser escolha estilística para marcar mudança de tom).


2. Recursos formais e retóricos

  • Enjambment e cesuras: predominam quebras que deslocam o sentido para a linha seguinte (ex.: “Perceber não ser bom em nada, / Ficando nos preâmbulos / De todas as artes,”) — cria sensação de incompletude, de sempre ficar no limiar.

  • Anáforas e repetições: repetem-se ideias de inutilidade / invalidez / não ter valido a pena, produzindo um refrão sem rima formal, um mosaico de desvalia.

  • Contraste e antítese: pares como monstros / anjos, doar o corpo morto / voltar à vida estabelecem binarismos que exploram liminaridade entre vida/morte, utilidade/inutilidade, arte/fracasso.

  • Imagens concretas e abstratas: o poema mistura imagens concretas (“doar o corpo morto”, “prantos e mágoas”) com valorações abstratas (“inutilidade”, “ser inválido”), o que dá densidade emocional sem excesso descritivo.

  • Voz e enunciador: predominância do eu lírico confessional e autocrítico — fala em primeira pessoa, com tom quase clínico (inventário de falhas) e ao mesmo tempo visionário (visões de EQM).


3. Temas e leitura estética

  • Crise existencial e desejo de sentido: o motivo central é a sensação de inutilidade: doar o corpo para ciência aparece como um gesto pragmático que alivia o “não servir para nada”. A arte aparece como campo onde o eu apenas permanece nos “preâmbulos” — sugerindo tentativa sempre interrompida.

  • Liminalidade vida/morte: se aceitamos EQM como experiência de quase-morte, os versos finais (“Narrando visões / De monstros e de anjos, / Ser um grande engano.”) ganham uma camada extra: a experiência de quase-morte como espaço de revelação (visões) que também pode ser interpretada como ilusão/engano — dúvida entre transcendência e autoengano.

  • Ironia resignada: o verso “E, mesmo tendo EQM, / Direi, sem nenhum espanto, / Voltar à vida,” soa irônico: mesmo após visão extraordinária (potencialmente transformadora), o eu volta com a mesma condição de dúvida — não há redenção automática.

  • Tom híbrido: mistura de registro quase prosaico (vocabulário direto: inutilidade, inválido) e imagens míticas (anjos, monstros) — o efeito é de realismo afetivo tingido de onírico.


4. Pontos fortes do poema

  • Economia verbal: muitas ideias intensas em poucas palavras.

  • Uso eficaz da fragmentação para espelhar a fragmentação da identidade e da experiência.

  • Final forte e ambíguo — “Ser um grande engano.” funciona como punchline interpretativa: a vida? a visão? a arte? o próprio eu?


5. Sugestões práticas (estilísticas/sintáticas) — pequenas opções, sem impor mudanças

  • Esclarecer (se quiser) a construção “O caminho de muitos / Ter cruzado,” — por exemplo: “O caminho de muitos / Que tive de cruzar,” ou “O caminho de muitos / Terem cruzado” — cada versão muda quem age/sente.

  • Avaliar a maiúscula em “Direi” (se é ênfase intencional, ótimo; se não, pode normalizar).

  • Se a ambiguidade de EQM é intencional, mantenha; se quer orientar o leitor, pode acrescentar uma palavra ou imagem antes que deixe claro (ex.: “E, mesmo tendo EQM — experiência de quase-morte — …”), dependendo do efeito desejado.

  • Considerar, se quiser maior musicalidade, brincar com repetições sonoras (assonância/consoância) em versos selecionados — mas a franqueza do poema já tem seu charme.


6. Leituras possíveis (breves)

  1. Leitura existencialista: poema sobre o sentido (ou a falta dele) da vida artística e humana: doar o corpo é gesto que dá sentido pragmático; a arte não é suficiente.

  2. Leitura liminar / pós-mística: EQM (experiência de quase-morte) como metáfora para momentos em que se “sai do corpo” e se vê visões; contudo, essas visões não resolvem a sensação de inutilidade.

  3. Leitura social: “O caminho de muitos” pode aludir a trajetórias coletivas de sofrimento — o eu não é caso isolado, sua vida cruzou muitos caminhos que só trouxeram pranto.





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