EQM. Conto de Maurício Menossi Flores Com IA.

 



EQM


Chamo-me Manuel, mas na maioria dos papéis que escrevi — nos rascunhos amassados, nas folhas de caderno com bordas queimadas, nos bilhetes escondidos dentro de livros — apareço como Mameflo. Mameflo é uma abreviação de um nome que eu inventei numa tarde chuvosa para caber num canto apertado do meu primeiro poema; desde então tem servido de capa, máscara e desculpa. Hoje, se você me encontrar olhando pela janela do apartamento, verá alguém que parece esperar uma notícia que nunca chega: um emprego, um amor, um sinal de que a vida valeu a pena. Mas as coisas que me ocupam são outras — restos de perguntas que não pediram licença para crescer dentro de mim.

Aprendi cedo a viver nos preâmbulos. Em tudo: nas aulas de desenho eu dominava o esboço e evito a pintura; no teatro, era o ator que mais gostava dos aquecimentos e menos de entrar no palco; na música, compunha os começos de canções e as deixava soltas nas gavetas. Havia um prazer quase religioso no instante anterior ao gesto pleno; o anúncio da obra me alimentava como se já fosse o alimento. Porém, esse hábito acabou por me afiar contra mim mesmo: acumulando preâmbulos, fui também acumulando a sensação de ter falhado no que realmente importa — terminar, sustentar, ser útil. O espelho devolvia uma pessoa que, por mais gestos e rascunhos, permanecia inacabada.

Quando os amigos falaram pela primeira vez em doação de corpo para pesquisa médica, eu sorri, consciente do quanto aquilo me parecia lógico e, ao mesmo tempo, assustadoramente belo. "Se doar o corpo morto para a ciência", disse um deles, como quem propõe um jantar, "pensar nisso pode aliviar a sensação de inutilidade". E naquele alivio havia um princípio de transcendência: a possibilidade de que algo de mim, morto e, portanto, não mais exigente, sirva de matéria prima para um avanço que eu não alcançaria em vida. Era — quem sabe — uma última utilidade, a redenção do inútil. Guardei a ideia junto aos poemas inacabados. Mas entre a voz prática do amigo e meu íntimo havia um fosso.

O fosso tinha o formato de memórias pequenas: tardes diante de um cavalete, dedos manchados de carvão; olhares que buscaram em mim o que eu não conseguia sustentar; cartas de amor que comecei sem terminar; oficinas onde fui professor apenas do começo. Em cada gesto incompleto, descobria outra janela para a mesma acusação: "você nunca termina". A sensação tornou-se hábito, depois doença na linguagem que eu usava contra mim. Era como se cada preâmbulo fosse um pequeno funeral, e no fim dos funerais, ninguém chorava por mim — apenas por outros que, de fato, passaram por perdas maiores.

A casa de minha mãe, no décimo andar de um prédio que balança em ventos, ainda guarda o som de pratos partidos no chão. Não foram tantas as janelas abertas para mim; houve, sim, um padrão: professores que me olhavam com pena, amantes que se cansavam da minha volta e de minha hesitação, amigos que se foram levando consigo a paciência. Aos trinta e cinco anos, percebi que meu rastro havia deixado pouco além de confusão e, por vezes, mágoa. Saber que minha vida teve esse efeito sobre outros me atingiu com a violência de um espelho estilhaçado.

Numa noite de janeiro, passei por uma rua onde crianças lançavam fogos de artifício. Houve uma explosão curta, um clarão, e depois um cheiro de pólvora e chuva. Voltei para casa pensando no corpo que eu poderia doar — e na pessoa que o receberia, hipoteticamente, em algum laboratório frio, tentando reconstruir ou comunicar algo que eu mesmo nunca soube encerrar. A imagem da minha carne como material de estudo era estranhamente consoladora e também terrivelmente definitiva. Se nada mais serviu para mim, ao menos que o meu corpo fosse útil de alguma maneira que minha vontade inteira não tinha conseguido.

Mas a ideia de doar o corpo trouxe outra: a culpa. E a culpa veio com rostos. Vi, em câmeras lentas dentro da cabeça, as pessoas que conheci, olharam para mim com espanto, talvez com reprovação, talvez com alívio, dependendo do caso. Havia quem me nomeasse com um sorriso de pena, e havia quem dissesse, com a voz baixa, que eu era perigoso para o grupo — não por maldade, mas por ser um lembrete incômodo de todas as coisas que as pessoas abandonam. Eu havia cruzado, em muitas ocasiões, a vida de outros apenas para ser um capítulo mal escrito nos seus livros. O peso disso era inesperado: não tanto a minha própria sensação de inutilidade, mas o fato de que, por minha inação, eu tinha provocado prantos e mágoas.

Passei a frequentar os corredores de hospitais em sonhos. À noite, acordava com a sensação de estar em frente a uma porta com um número apagado. Por detrás dela, monstros e anjos disputavam lugares num salão de espera. Os monstros, curiosamente, não eram obrigatoriamente aterradores; alguns pareciam professores que nunca deram a aula completa. Os anjos, por sua vez, eram figuras com mãos de pianista: tinham a paciência de quem volta sempre ao ponto inicial. Essas visões vinham em ondas, como se minha mente, ao tentar justificar a própria existência, tivesse montado um teatro interior onde se encenavam acusações e pedidos de perdão.

Houve um dia em que decidi escrever — de verdade, com intenção de terminar — algo que se chamasse "Cartas aos que ficaram". Comecei com uma folha em branco e escrevi: "Se, ao receber este texto, você sente que minha vida foi um erro, saiba que eu também o senti." A carta teve muitas versões. Em algumas, eu me desculpava. Em outras, eu explicava as minhas razões. Em outras ainda, eu afirmava que não havia nenhuma razão saudável que justificasse as minhas incoerências. Escrever tornou-se um exercício de reparação, um esforço para transformar pranto em palavra. Mas a verdade é que a palavra nem sempre é ponte suficiente: algumas feridas exigem ações; eu tinha poucas a oferecer.

Aos poucos, a minha vida começou a se reorganizar em torno de uma pequena rotina: pequenos trabalhos de revisão para uma editora local, aulas particulares de desenho para crianças do bairro, visitas a um abrigo onde um grupo de teatro amador ensaiava peças de vanguarda que niguém tinha coragem de levar ao palco. Eram trabalhos no limiar — preâmbulos de sentido, talvez — mas cada um deles me obrigava a terminar algo para outra pessoa. Havia, ali, um risco de repetição do velho padrão; igualmente, havia a chance de um novo corpo de experiências que fizesse com que eu, finalmente, não fosse mais apenas o que começou as coisas.

Foi no abrigo que conheci Lurdes. Ela tinha uma voz que fazia as palavras parecerem luz; quando falava, o ar à sua volta ganhava espessura. Lurdes era diretora do grupo, costurava roteiros com paciência e, sobretudo, não era dada a julgamentos. Um dia, depois de um ensaio conturbado, ela me disse, sem olhar para mim: "A arte começa onde a covardia termina." Não sei se ela percebeu que, ao dizer aquilo, cortou um dos fios com que eu me segurava. Para mim, a frase foi tanto um afago quanto uma acusação misericordiosa. Eu, que sempre me sentara nos preâmbulos, ouvi ali um convite para atravessar a sala e ocupar o palco.

Decidi aceitar. Talvez tenha sido para provar a mim mesmo que eu não era totalmente inútil; talvez para responder aos rostos que me acusavam; talvez simplesmente porque Lurdes acreditou que eu poderia. Ensaios diluíram meus medos. Havia algo de milagroso na repetição: repetir uma fala até que ela se transformasse em verdade, repetir um gesto até que a mão encontrasse um caminho novo. A cada apresentação, apesar do terrível medo, algo acontecia dentro de mim: uma diminuição da necessidade de me desculpar pela própria presença. O público, por sua vez, não me tratou com pena — tratou-me como companhia de uma palavra em cena. Alguns saíam em silêncio, outros com lágrimas; alguns vinham me agradecer por ter terminado algo que, talvez, tocaram como se fosse também deles.

Mas nem tudo se reparou. Havia noites — noites longas, com o silêncio pesado — em que sentia que a tempestade interna voltava. Nessas horas, vinha a tentação de imaginar o fim: a doação do corpo como última utilidade. A ideia era um conforto e uma ameaça; se eu aceitasse que o corpo fosse útil só depois de morto, estaria talvez legitimando a minha própria inação. Por isso deixei, como prova de que não me entregava a esse destino, uma cláusula na minha vontade: "Caso eu venha a morrer, que meu corpo não seja um consolo para minha culpa; que sirva, sim, à ciência — mas que sirva também como aviso contra a desistência." Era uma maneira de escrever a minha contradição.

A vida, porém, segue com suas surpresas. Em um dia de outono, depois de uma temporada de ensaios e pequenas vitórias, subi ao palco no papel que Lurdes me pediu para interpretar: um homem que volta a si mesmo depois de anos perdido em preâmbulos. As luzes cortaram o ar como navalhas, e, no momento crucial, quando o personagem deveria decidir se permaneceria no limiar ou atravessaria a porta, senti uma claridade tão intensa que por um segundo tudo ruiu: a farsa, a máscara, a ideia de que any coisa poderia me salvar sem esforço. E então falei um texto que, naquela noite, não vinha só do roteiro: vinha do âmago de uma decisão.

"Voltar à vida", disse eu, voz trêmula, "é como ensaiar a própria morte e escolher, a cada manhã, não morrer." A plateia prendeu o fôlego. Saí do palco com o rosto molhado. Alguns me aplaudiram como se tivessem presenciado um milagre. Outros disseram, depois, que eu era um grande engano — alguém que fingia ser inteiro e não era. Aceitei ambos os comentários com o equilíbrio incerto de quem aprendeu a viver numa corda bamba. A vida nem sempre recompensa; às vezes só exige.

Hoje, quando me perguntam se ainda penso em doar o corpo, eu sorrio de um modo que talvez não os satisfaça: "Penso, como penso em tantas outras coisas — como pensar em começar uma pintura e decidir se, desta vez, irei terminá-la." Eu continuo com as minhas visões de monstros e anjos, que ainda visitam o salão de espera dentro de mim. Mas há também outras visões: pessoas cujas mãos eu prendo, por alguns minutos, nas minhas para ensinar-lhes um acorde, um traço, uma fala terminada. Não sei se isso é suficiente. Não sei se, ao final, alguém dirá que minha existência valeu a pena. O que sei é que, por enquanto, escolho narrar. Narrar, com toda a fragilidade possível, pode ser a forma mais honesta de existir.

E se, um dia, eu falhar de novo e voltar a ser o rascunho que não termina, que meus restos sirvam à ciência — mas que sirvam também de testemunho. Que alguém leia meu cérebro, meus ossos, e descubra que houve, em algum instante, uma vontade que tentou atravessar o limiar e que a única coisa que restou foi a história dessa tentativa. Quanto a mim, enquanto houver voz e um teatro qualquer que me chame, voltarei à vida — mesmo que eu, ao me narrar, me torne também um grande engano para alguns. Pelo menos, nesse engano, haverá algo terminado: a coragem de tentar.



Chamava-se Ernesto, mas nos papéis e nas conversas sempre acabava por ser apenas o “homem que gostava de guardar coisas”. Havia no seu gabinete um acervo de preâmbulos: rascunhos de dramaturgia que nunca viraram ato, pinturas pela metade que pareciam esperar por uma outra mão, partituras onde ele anotava compassos que nunca ouviu tocados. Passara a vida nos limiares das artes — em todos os ofícios fora sempre um aprendiz, um porteiro de portas criadas por outros. Isso o deixava, em dias de chuva, com um sentimento tão preciso quanto desconfortável: inutilidade.

Quando chegou aos sessenta e dois, com as articulações fazendo pequenas traições e a memória tornando-se um texto que se apaga por partes, Ernesto fez um gesto que para muitos seria estranho, e para ele, exato: preencheu o formulário de doação de corpo para pesquisa médica. Não era culpa nem generosidade messiânica; era um cálculo triste e honesto. “Se o corpo não servir mais para nada,” repetia a si mesmo, “que ao menos sirva para conhecimento.” Havia algo de ritual naquele ato — o último gesto de utilidade possível para alguém que, durante décadas, fora útil em tudo menos em si mesmo.

A família recebeu a notícia com uma mistura de espanto e alívio. A irmã, Júlia, achou corajoso; o amigo de escola, Carlos, respondeu com silêncio e depois com uma carta falando de tardes na biblioteca; a vizinha do terceiro andar, Dona Lília, fez sopa como quem oferece meio perdão. Ernesto, no entanto, sentiu que assinar aquela folha era uma confissão em voz baixa: aceitar que a vida, tal como fora vivida, poderia não ter valido a pena.

Os sonhos, que por muito tempo se mantiveram discretos, tornaram-se flagrantes. Não eram sonhos triviais — admitiu mais tarde, enquanto escrevia num caderno com capa gasta — eram sequências que começavam sempre no mesmo lugar: uma sala grande demais, paredes cobertas de molduras vazias, um corredor onde se acumulavam preâmbulos — esboços, prólogos, partituras fechadas como conchas. Ali, havia também uma figura que o observava com paciência: uma mulher de braços cruzados, cujo rosto oscilava entre a indiferença e uma ternura velha. Ele a chamava, secretamente, de “a Curadora”, e em noites de insônia repetia mentalmente seus diálogos, tentando extrair deles algum método para ser inteiro.

Tudo mudou numa manhã de silêncio cortado por sirenes. Ernesto sofreu um colapso — um sopro de ar que falhou, uma dor que veio de dentro como se alguém puxasse as cordas de um velho instrumento até que ele desafinasse por completo. Transportaram-no para a sala fria do hospital; alguém colocou um nome no seu pulso; uma enfermeira encostou uma mão morna na testa do homem que gostava de guardar coisas. E então, no limiar que separa o respirar do não respirar, aconteceu aquilo que nenhuma filosofia conseguira sempre explicar em sua vida: uma passagem.

O relato que engravidou toda a sua existência posterior começou com luzes que não doíam. Não era a visão pueril de um túnel brilhante, nem a sensação simplista de paz que os livros prometem. Era, antes, um acúmulo de sensações — memórias que se alinharam num painel panorâmico, rostos que ele pensou ter perdido voltando a fazer sentido, e, sobretudo, a clara percepção de que existiam arquétipos movendo-se no espaço entre os mundos: monstros de tamanho variável e anjos com rostos de gente comum. Alguns dos monstros tinham forma de contrato rasgado, de aplauso que não veio; outros eram simples sombras de possibilidades não tomadas. Os anjos, curiosamente, vinham em trajes domésticos — costureiras, professores, aquele rapaz do café que sempre guardava a conta do seu troco — e falavam com a familiaridade de quem lê o rascunho de alguém e insiste em sublinhar palavras.

Na beira daquele campo onde não havia relógio, deram-lhe escolhas que não eram, exatamente, escolhas. Mostraram-lhe sequências de sua vida: o jovem Ernesto que, por timidez, deixara de subir ao palco; a mulher que amara e para quem nunca escreveu uma carta definitiva; os convites que recusou por medo de parecer impostor; as horas passadas na biblioteca tomando notas que nunca publicou. Não houve julgamento explícito; houve, sim, um tipo de inventário, preciso e meticuloso, onde cada ocasião deixada em preâmbulo aparecia como um recorte de jornal encharcado. E então veio a pergunta, sem palavras: queria ficar?

Ernesto, no outro lado do espelho, percebeu que a resposta que lhe vinha do corpo — aquela febre que o fazia apertar a mão da enfermeira — era a mesma que saía de dentro dele, como um fio: queria ficar. Não por vaidade, não por medo de desaparecer, mas por uma necessidade de contar, de traduzir aquilo que vira em linguagem humana. Se o corpo era um objeto descartável, ao menos a memória deveria servir para algo. Voltar, eu volto, pensou; volto para contar as visões.

Voltando, o retorno foi um parto de pequenos milagres. Reacordar não foi um salto triunfal: foi uma travessia de detalhes — o cheiro do plástico do soro, a sensação das palmas secas ao lado, a voz da irmã sussurrando quem sabe uma oração que ninguém escutou. A recuperação foi lenta; as conversas hospitalares mediadas por olhares mais do que por palavras. E quando, enfim, lhe deram alta, Ernesto saiu com um caderno novo e a urgência de quem foi incumbido de uma tarefa.

Narrar as visões não era simples decupagem. Tudo o que ele dizia sobre monstros e anjos encontrava resistências: “Alucinações de hipóxia”, disse um neurologista; “manipulação emocional”, sugeriu um conhecido; “trufa dramática”, sentenciou um crítico de teatro ao receber, meses depois, uma proposta de peça. Ernesto aceitou as críticas com a paciência de quem traduz um idioma estranho. Sabia — por experiência, por carne e por queimadura — que as palavras falham. Ainda assim, provou de todas as formas: escreveu contos longos onde monstros apareciam como edições de jornais rasgados; encenou leituras em que os anjos eram atores velhos que não sabiam a direção certa; fundou, por um tempo, uma espécie de oficina-limite onde chamava pessoas com “preâmbulos” de suas vidas e pedia que riscassem-nos, que os vestissem de coisas concretas.

Houve quem o chamasse de farsante, quem lhe oferecesse palestra com cachê e microfone, quem, sem perceber, deixou-o pagar um preço que o médico não calculara: a reabertura de feridas. As visões, que ao princípio pareciam um clarão curador, às vezes traziam o peso de lembranças que haviam sido enterradas mal. Ele passou a sonhar com uma criança que chorava num banco de praça — a mesma criança que ele vira quando tinha quinze anos e fora covarde ao atravessar um conflito. A criança, nas suas noites, pedia que ele dissesse a verdade; e Ernesto, que sempre fora hábil em disfarces, sentiu que a verdade naquela praça era o único antídoto.

A literatura que produziu depois do retorno se enredou em camadas. Houve romances em que a cidade era um organismo que engolia vozes; houve ensaios em que ele discutia o ofício do pré-artista — o homem que passa a vida nos preâmbulos — e como esse lugar, por vezes, é acesso a uma visão mais completa do mundo. Em peças, os monstros deixavam de ser criaturas do além e tornavam-se contratos velhos, cartas não enviadas, olhares de reprovação. Os anjos — sempre eles, com roupas domésticas — encenavam pequenas misericórdias: devolveram uma chave perdida, ensinaram alguém a assar pão, trouxeram, uma vez, um menino que aprendera a cantar.

A política afetiva da sua obra tornou-se paradoxal: quanto mais ele buscava ser útil para os outros, mais se via obrigado a encarar a própria inutilidade. Era preciso admitir que o alívio que sentira ao assinar a doação do corpo tinha sido, em parte, uma fuga — uma tentativa de transformar o seu destino num serviço público. O caderno, porém, não aceitava evasivas. A narrativa pedia rigor. E assim Ernesto se viu muitas vezes escrevendo longos parágrafos com a calma de um arqueólogo: retirava camadas, justificava atos, pedia desculpas indiretas.

Houve um episódio que iluminou, por contraste, sua compreensão do termo “valer a pena”. Numa tarde de inverno, numa escola municipal onde havia sido convidado a falar, entrou numa sala apertada. As crianças olharam para o homem de cabelos ralos e sorriso cansado com a naturalidade de quem encara outra peça da cidade. Ele leu um trecho sobre anjos que vinham de chapéus velhos e sobre monstros que se escondiam em pastas. No final, uma menina levantou a mão com lacunas de unhas roídas e perguntou, direta: “Tu voltaste porque querias contar só para os grandes? Ou para nós também?” A pergunta o perfurou. Ele respondeu com verdade: “Para vocês também. Porque vocês fazem as histórias de amanhã.”

Naquele momento, um fio de utilidade atravessou o seu peito: não a utilidade da fama, nem a da produtividade mensurável, mas a utilidade de ter servido para algo que não podia ser quantificado — uma interpelação, uma semente. As crianças riram, e ele sentiu que talvez, afinal, a vida tivesse produzido alguma sombra que fosse capaz de abrigar brotos.

Mas a sombra — como todas as sombras — tinha sua própria resistência. Ao mesmo tempo em que encontrava sentido em leigos e pequenos teatros, Ernesto era visitado por uma sensação persistente de invalidez. “Ficar nos preâmbulos de todas as artes” tornara-se, para ele, um título que carregava com orgulho e com vergonha. Eis a sua contradição: ser ambos, o homem que não concluíra e o homem que permitira que outros concluíssem. Era um tipo de generosidade involuntária.

Com o passar dos anos, a narrativa de sua EQM teve efeitos práticos e imprevistos. Pesquisadores o procuraram — neuropesquisadores, psicólogos, um parapsicólogo com sotaque de programa de rádio. Alguns quiseram registrá-lo como caso para estudos; outros, apenas, conversavam como quem recolhe testemunho. Ele participou de entrevistas e seminários, mas recusou a tentação de explicar tudo. Guardava, para si, a certeza de que certas coisas só funcionavam quando deixadas como relíquias ambíguas: um pedaço de coral que ninguém sabe de onde veio, e que, por isso, é mais precioso.

A vida seguiu com pequenas cerimônias. Júlia faleceu primeiro, de súbito, como se tivesse decidido que não valia a pena prolongar a espera. O enterro foi um lugar onde Ernesto, com as mãos finas, percebeu que a inutilidade volta em ondas. No velório, recordou sua assinatura no formulário. Pensou no corpo sendo doado um dia — e sorriu, dessa vez com piedade e não com ironia. “Que façam bom uso,” murmurou. E a voz pareceu, a quem o ouviu, a expressão de alguém que havia transformado a sua inutilidade em gesto consciente.

Na velhice maior, quando as mãos tremiam e as noites traziam memórias mais duras do que antes, os monstrinhos e anjos visitavam-no menos como aparições e mais como companheiros de quarto. Ele os descreveu em um último texto longo — um romance fragmentado, de capítulos em que as margens do mundo dobravam sobre si mesmas. Nele, um protagonista sem nome atravessa cidades feitas de bibliotecas, encontra seres que propõem tarefas e aprende que o valor não é sinônimo de produtividade. O livro não foi um best-seller; teve poucas vendas. Imprimiu-o numa pequena gráfica e enviou cópias para amigos, para a escola onde as crianças o perguntaram, para o hospital onde respirara por pouco. Guardou duas cópias: uma, para si; outra, para o arquivo da universidade que um dia pediu os seus papéis.

Quando finalmente, muitos anos depois, entregou o corpo por vontade própria — e não como desistência, mas como gesto final de reconhecimento —, fez-no com a mesma calma com que preenchera o formulário na juventude tardia. Soube, naquela hora, que sua vida não era uma única sentença julgadora, mas um conjunto de reticências com momentos de clareza. A doação foi feita com cerimônia muito simples: a mesa, o protocolo, uma mão amiga a segurá-lo. E quando tudo acabou, alguém levou as caixas com seus manuscritos para um corredor de pesquisa.

Dias depois, num caderno pertencente a um assistente de laboratório, encontraram uma anotação: “Encontrado: material de linguagem sobre estados limítrofes — possível uso em estudo sobre memória e identidade.” As caixas ficaram, por algum tempo, numa prateleira. Alguém, talvez, citou um parágrafo; outro, talvez, leu um trecho e anotou uma referência. Pessoas que nunca o conheceram compartilharam trechos que gostaram. A vida, a seu modo, continuou produzindo efeitos inesperados.

E se lhe perguntassem se a existência “valera a pena”, Ernesto já não teria pressa na resposta. A sua experiência quase-morte, e o retorno que contou e encenou, ensinaram-lhe a tolerar a ambiguidade. Dizia, com ironia leve, que a grande virtude de ter EQM fora a permissão para reavaliar seus preâmbulos. Não era prova de nada absoluto — nem de vida após a vida, nem de nada —, era, afinal, um espelho que lhe devolvera fragmentos. E fragmentos, quando organizados com delicadeza, às vezes formam imagens que não foram previstas.

No fim, o que Ernesto deixou para trás não foi uma resposta definitiva, mas uma forma de trabalhar com as perguntas: oficinas, peças, folhas soltas, um punhado de anotações sobre monstros que eram contratos e anjos que vinham de cozinhas. E também uma lição pequena, prática e humana: que a utilidade não é apenas um saldo em conta, mas a capacidade de tocar o outro; que há, entre as coisas que não se concluem, uma matéria que se pode transformar em tecido. Talvez não tenha valido a pena para alguns — para outros, talvez sim. Para ele, a resposta final era um gesto contínuo: voltar à vida para narrar, sem espanto, as visões que viu — e, com isso, oferecer às outras vidas a chance de encontrar, em seus próprios preâmbulos, um começo.


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