Charles Richet E O Boneco-Médium Com A Voz de Kardec. Monólogo Teatral de Maurício Menossi Flores. Em Processo.
Título: Charles Richet E O Boneco-Médium Com A Voz de Kardec.
(Em Processo.)
Personagem:
Charles Richet (único ator em cena, mas interage com um boneco-médium que emite a voz de Allan Kardec)
Cenário: Um espaço simples, lembrando um gabinete científico do início do século XX. Mesa de madeira com papéis, tinteiro, alguns frascos e livros. Ao centro, em uma cadeira, um boneco de tamanho humanoide, de feições neutras, com um pequeno aparelho embutido que reproduz a voz gravada de Allan Kardec. Luz amarelada, ambiente austero, misto de laboratório e sala espírita.
Ato Único
(Luzes baixas. Richet entra, vestindo casaca, segurando alguns papéis. Caminha lentamente até a mesa, olha o boneco, suspira.)
RICHET (pausado): Senhoras, senhores... Se me permitem, não falo aqui como cético nem como crente. Falo como homem. Homem que investigou, que dissecou corpos, que pesou cérebros, que mediu pulsações... e, no entanto, tropeçou no invisível. (pausa) Eu, Charles Richet, prêmio Nobel de Medicina. Criador de uma ciência que batizei... Metapsíquica.
(Ele se aproxima do boneco, ajeita-lhe a gravata como se fosse alguém vivo.)
Ah... meu companheiro de hoje. Não respira, não se move, e ainda assim... dele ecoará uma voz. Não qualquer voz. A voz do senhor Allan Kardec, codificador de um sistema que inquietou a razão do século XIX.
(Richet se volta para a plateia, como em confidência.)
Mas que estranho! Eu, que repudiei a palavra "espírito"... hoje me disponho a dialogar com ele.
(Aciona discretamente o dispositivo. A voz do boneco ecoa, calma e grave:)
VOZ DE KARDEC (do boneco): Boa noite, senhor Richet. Eis-me aqui, não em corpo, mas em presença.
(Richet dá um passo atrás, respira fundo, quase desconcertado.)
RICHET: Voz que não deveria estar aqui! Voz que atravessa as barreiras do tempo... (olhando para o boneco) Allan Kardec... se é mesmo o senhor... que explicação dá ao fato de que o invisível insiste em desafiar a ciência?
VOZ DE KARDEC: Não é o invisível que desafia. É o orgulho humano que recusa o visível em outra dimensão.
(Richet começa a andar pelo palco, mãos para trás, ritmando a fala.)
RICHET: Orgulho? Não! Método! Eu me debati contra charlatães, contra fraudes... Contra mesas que giravam por truques e médiuns que escondiam imãs sob as mangas! A Metapsíquica não nasceu da fé, mas da necessidade de separar o fato da ilusão.
(Pausa. Volta-se lentamente para o boneco.)
E o senhor, Kardec, fez o contrário: recolheu testemunhos, codificou mensagens, acreditou em médiuns que eu jamais teria aprovado. Como pode garantir que não foi enganado?
VOZ DE KARDEC: A fraude existe, sem dúvida. Mas onde há falsificação é porque há moeda verdadeira. Se tudo fosse engano, nada permaneceria.
(Richet franze o cenho, pensa, aproxima-se do boneco, quase sussurrando.)
RICHET: Moeda verdadeira... Eu mesmo vi. (pausa longa, emocionada) Vi a materialização de mãos, de rostos... Vi uma médium franzina levantar pesos que desafiavam seus músculos. E ainda assim... ainda assim, meu coração se divide. Seriam alucinações coletivas? Seria o inconsciente humano, esse território desconhecido, projetando suas imagens para fora?
(Se afasta, erguendo as mãos em desespero contido.)
Sou médico! Cientista! Não posso me render à palavra "espírito"!
VOZ DE KARDEC: Não se renda a uma palavra. Renda-se à evidência. Não se trata de dogma, mas de observação. A vida continua, senhor Richet. O homem não é apenas corpo.
(Richet olha para a plateia, em silêncio alguns segundos, depois sorri ironicamente.)
RICHET: Continua... Eis o consolo que milhões buscam! Mas, diga-me, Kardec: e os que sofrem? E os que morrem de fome? Que consolo é dado às crianças que não chegam à idade adulta?
VOZ DE KARDEC: Todos são espíritos imortais. O sofrimento é aprendizado, não castigo. O tempo terreno é breve diante da eternidade.
(Richet anda pelo palco em círculos, voz exaltada.)
RICHET: Fácil dizer! Fácil prometer que a dor é escola quando não se pode prová-lo em laboratório! Eu pesei órgãos, medi reflexos, fotografei espectros de luz em experiências com médiuns... Mas nunca, nunca pude arrancar do invisível uma fórmula que se repetisse sob as mesmas condições!
(Bate na mesa com a mão.)
A ciência pede repetição! A ciência exige controle! E o que me dão os espíritos? Aparições fugidias, fenômenos caprichosos! Como edificar conhecimento sobre terreno tão movediço?
VOZ DE KARDEC: A ciência do espírito obedece a outras leis. A liberdade é uma delas. O fenômeno não é máquina. É consciência. E consciência não se dobra a experimentos como reagentes em um tubo.
(Richet silencia. Pega um livro na mesa, folheia nervoso. Fecha-o com força. Pausa. Fala mais baixo, quase confessional.)
RICHET: E, no entanto... há algo. Algo que não sei nomear. (olha para cima) Quando fecho os olhos, sinto... presença. Quando observo um transe, sinto... verdade. Como médico, chamo isso de sugestão. Como homem... chamo de mistério.
(Richet se aproxima lentamente do boneco, olha-o fixamente, quase pedindo respostas.)
Seja honesto, Kardec... O senhor acredita, mesmo agora, depois da morte, que tudo o que disse era verdade?
VOZ DE KARDEC: Não é questão de crença. É constatação. O corpo morre, mas o espírito persiste. Eu estou aqui diante de ti, não como lembrança, mas como existência.
(Richet leva a mão ao rosto, balança a cabeça em negação, mas um sorriso nervoso lhe escapa. Ele fala para si e para a plateia.)
RICHET: Que ironia... Richet, o materialista, conversando com Kardec por meio de um boneco! (ri brevemente, depois se cala subitamente) Mas não... não é apenas comédia. É tragédia também. Porque o que busco não é entretenimento. É verdade.
(Luz se intensifica levemente, marcando o clímax. Richet ergue a voz, como quem faz um discurso solene.)
RICHET: Seja espírito ou inconsciente, seja imortalidade ou mera projeção da mente... Eu digo: o homem não cabe inteiro no microscópio. Não cabe inteiro no bisturi. Há um resto. Um resto que escapa, que se insinua, que ri das nossas medidas! Eis o que chamei de Metapsíquica. Eis o que, talvez, Kardec chame de espírito!
(Volta-se para o boneco, emocionado.)
RICHET: Kardec... se a vida continua... diga-me: verei meus mortos outra vez?
VOZ DE KARDEC: Sim, senhor Richet. Ninguém perde a quem ama. Apenas se reencontra depois de um breve intervalo.
(Richet respira fundo, fecha os olhos, como quem segura lágrimas. Longa pausa. Depois, encara a plateia com voz mais serena.)
RICHET: Talvez nunca consiga provar em laboratório. Talvez a eternidade não se deixe enjaular em frascos. Mas... se há algo que aprendi é que a ciência não tem a última palavra. Ela apenas começa o diálogo.
(Se volta lentamente para o boneco, desliga o aparelho. O silêncio toma conta. Richet o encara mais um instante, depois se senta à mesa. A luz vai se fechando sobre ele.)
RICHET (sussurrando): Metapsíquica... Espiritismo... dois nomes, um mesmo abismo. Quem sabe, um mesmo horizonte.
(Escuridão total. Fim.)

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