Até o Ponto Final. Poema de Maurício Menossi Flores, Com Análise da Inteligência Artificial.
Até o Ponto Final.
(Em processo, sem revisão.)
Devo agir na perspectiva
Do que sei de mim.
É bom sangrar,
Vez ou outra,
Regando o jardim.
Embarco no ônibus,
Pensando em ler o livro.
Até o ponto final viajo,
Voltando em seguida.
Mas, antes disso,
O pagamento
Das aulas de yoga
Pronto deposito,
Trago meu dinheiro,
Mesmo sendo imundo.
Mesmo sendo roto.
Mesmo sendo pouco.
Ao chegar em casa,
Escovo mais uma vez os dentes:
A periodontite já levou alguns,
Pelo meu desleixo.
(Mameflo)
1. Análise Sintática
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Predomínio de orações simples e coordenadas:O poema é composto por frases de estrutura direta e clara, muitas vezes justapostas ou ligadas por vírgulas. Esse recurso cria um ritmo prosaico, de fluxo cotidiano.
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Períodos compostos por subordinação:
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“Devo agir na perspectiva / do que sei de mim.” → oração principal com complemento subordinado substantivo.
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“Até o ponto final viajo, / voltando em seguida.” → oração principal com oração reduzida de gerúndio.
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“Mesmo sendo imundo. / Mesmo sendo roto. / Mesmo sendo pouco.” → três orações subordinadas reduzidas de gerúndio, paralelas, que funcionam como reforço explicativo ou concessivo.
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“A periodontite já levou alguns, / pelo meu desleixo.” → oração principal com adjunto adverbial de causa.
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Fragmentação sintática:O uso de quebras, interrupções e encadeamentos incompletos (“Mas, antes disso, / O pagamento / Das aulas de yoga / Pronto deposito”) reforça o caráter oral e improvisado, como se o poema fosse pensado enquanto escrito.
2. Análise Estética
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Tom e temática:O poema combina elementos do cotidiano banal (ônibus, yoga, dinheiro, dentes) com reflexões existenciais e íntimas (“do que sei de mim”, “sangrar regando o jardim”). O contraste cria uma estética da vida comum, onde o ordinário e o simbólico se entrelaçam.
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Vocabulário:Predominam termos simples, concretos, cotidianos, mas pontuados por palavras de maior carga simbólica (“sangrar”, “jardim”, “imundo”, “ponto final”). Essa oscilação dá ao poema um ar de confissão direta, sem ornamento excessivo.
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Figuras de linguagem:
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Metáfora: “sangrar / regando o jardim” → a dor e a vitalidade transformadas em fertilização poética.
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Metonímia: “o ponto final” → não apenas o término da viagem de ônibus, mas também metáfora da finitude (da vida ou da escrita).
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Paralelismo e anáfora: repetição em “Mesmo sendo…” cria ritmo cadenciado, reforçando a precariedade material.
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Ironia leve: a tensão entre o gesto espiritual (aula de yoga) e a materialidade prosaica do “dinheiro imundo, roto, pouco”.
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Ritmo e sonoridade:Há cortes secos, versos curtos e quebras que lembram um diário ou um relato íntimo em voz baixa. O ritmo é marcado mais pela pausa e pela enumeração do que pela musicalidade tradicional.
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Movimento interno:O poema progride em três etapas:
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Reflexão inicial → “agir na perspectiva do que sei de mim”.
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Rotina cotidiana → ônibus, livro, yoga, dinheiro.
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Corpo e falha física → dentes perdidos, periodontite, desleixo.
Esse deslocamento vai do pensamento abstrato ao corpo concreto, terminando na fragilidade física — um ponto final orgânico.
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3. Síntese Interpretativa
O poema constrói uma estética da vida ordinária atravessada por marcas existenciais. A voz poética se movimenta entre a reflexão sobre si, os gestos práticos do cotidiano (ônibus, yoga, pagamento), e a constatação da deterioração do corpo. O “ponto final” deixa de ser apenas destino da viagem para se tornar metáfora da vida e do desgaste inevitável.
A simplicidade sintática reforça essa estética: frases diretas, fragmentadas, sem floreio, que refletem um eu-lírico confessional, sincero, quase cru.

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