Poema "A Porcaria", De Maurício Menossi Flores, Com Análise da Inteligência Artificial.

 


A Porcaria.

Em processo, sem revisão.)

Nem eu transaria comigo mesmo.
Só de pensar, sinto asco.
Igual à poeira fina,
Que tudo impregna,
E, depois de breve garoa,
Vira aquela porcaria,
Imagino ser assim
Estar em minha companhia.
O matraquear do famigerado palhaço,
Em frente ao açougue,
Vendendo carne podre,
Não é pior:
A minha parceria
É tão insidiosa
Quanto as chuvas no sul do país.
Um transistor pode servir
De interruptor
Ou como amplificador...
Eu tal e qual
Interrompo o bem
E amplifico o mal.

(Mameflo)


Análise Sintática

O poema tem uma construção que oscila entre frases completas e fragmentos — um recurso expressivo que reflete o próprio tema: o desconforto consigo mesmo, a sensação de quebra e desajuste.

  1. Primeira estrofe:

    • "Nem eu transaria comigo mesmo." → frase declarativa completa, em primeira pessoa, com negação enfática (“Nem eu”).

    • "Só de pensar, sinto asco." → oração reduzida de infinitivo como adjunto adverbial (“só de pensar”) + oração principal.

    • "Igual à poeira fina, / Que tudo impregna, / E, depois de breve garoa, / Vira aquela porcaria," → encadeamento por coordenação e subordinação. Há uma quebra rítmica com a vírgula depois de "fina", quase como um enjambement.

  2. Segunda estrofe:

    • "Imagino ser assim / Estar em minha companhia." → oração principal (“Imagino”) + infinitiva subjetiva (“ser assim estar em minha companhia”). O alongamento do verbo imaginar cria uma sensação de deslocamento.

  3. Terceira estrofe:

    • "O matraquear do famigerado palhaço, / Em frente ao açougue, / Vendendo carne podre, / Não é pior:" → estrutura nominal + oração de comparação. Os adjuntos adnominais ("do famigerado palhaço") e adverbiais ("em frente ao açougue") acrescentam imagens sensoriais fortes.

    • "A minha parceria / É tão insidiosa / Quanto as chuvas no sul do país." → oração comparativa, bem marcada.

  4. Quarta estrofe:

    • "Um transistor pode servir / De interruptor / Ou como amplificador..." → oração simples, técnica, com enumeração.

    • "Eu tal e qual / Interrompo o bem / E amplifico o mal." → paralelismo sintático (“interrompo” / “amplifico”), reforçando o contraste.

→ Sintaticamente, há um ritmo entre frases inteiras e cortes abruptos. Isso cria uma cadência irregular, semelhante à respiração ansiosa ou ao fluxo de pensamento descompassado.


🎭 Análise Estética

  1. Tema e tom:
    O poema trata do asco de si mesmo, da recusa em se suportar, explorando a imagem da sujeira, da podridão e da insídia. O tom oscila entre o confessional (intimidade extrema) e o satírico (ironia no uso de imagens grotescas).

  2. Imagens:

    • Poeira + garoa → sujeira inevitável, metáfora para a persistência da autodegradação.

    • Palhaço + açougue + carne podre → grotesco popular, mistura de espetáculo e repulsa.

    • Transistor → deslocamento para a linguagem técnica, metáfora da própria função: o eu-lírico como dispositivo que amplifica o mal.

  3. Estilo:

    • Mistura de linguagem coloquial e técnica: “transaria” convive com “transistor”.

    • Uso de imagens do cotidiano sujo (poeira, açougue, carne podre) e do universo tecnológico (transistor). Isso produz uma estética híbrida e pós-moderna, em que o grotesco e o técnico se fundem.

    • Estrutura livre, sem métrica fixa, mas com ritmo criado por cortes e pausas, sugerindo enjambements.

  4. Movimento estético:
    O poema se inscreve numa linha expressionista, pois projeta para fora a visão negativa do eu, deformada, exagerada e carregada de imagens fortes. Também dialoga com o Teatro do Absurdo (palhaço, grotesco, insidioso) e com o concreto-tecnológico (transistor).

  5. Efeito estético:
    O resultado é uma estética do autodesprezo dramatizado, em que a linguagem tenta se tornar tão áspera quanto o sentimento que expressa.


📌 Síntese:
O poema A Porcaria articula linguagem coloquial, imagens grotescas e metáforas técnicas para expressar o asco de si mesmo. Sintaticamente irregular e esteticamente híbrido, ele alterna intimidade confessional, crítica irônica e metáforas de sujeira e tecnologia. O efeito é expressionista e corrosivo: uma autocaricatura amarga que amplifica a negatividade até o ponto de tornar-se estética.

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