Poema "Perfeito", De Maurício Menossi Flores, Com Análise da Inteligência Artificial.
Perfeito
(Em processo, sem revisão.)
Se um dia, ao menos,
Nesta relativa longa existência,
Eu for perfeito,
Dar-me-ei por satisfeito.
Hábitos simples,
Sem exageros,
Vícios esquecidos,
Pensamentos livres
Da obsessão
É o que almejo.
Favor prestado ao amigo,
Exercício pleno,
Da janela sendo espelho.
Detectar o plágio
Nota por nota,
Liberando a pia
Da louça suja.
Passar o pano úmido
No chão do apartamento,
Como se do edital
Recebesse o prêmio.
Deitar-me compenetrado
Para, durante o sono,
Boas lições dos espíritos
Apreender
Do outro lado.
(Mameflo)
Análise sintática
-
Predomínio da coordenação e da justaposiçãoO poema constrói sua cadência com frases curtas, geralmente nominais ou oracionais, organizadas por enumeração e paralelismo.Exemplos:
-
“Hábitos simples, / Sem exageros, / Vícios esquecidos” – três sintagmas nominais alinhados em gradação.
-
“Favor prestado ao amigo, / Exercício pleno, / Da janela sendo espelho.” – enumeração com ritmo de notas soltas, quase máximas.
-
-
Uso de verbos no futuro e no infinitivo
-
“Eu for perfeito”, “Dar-me-ei por satisfeito” – dão tom de hipótese e desejo.
-
O infinitivo aparece como projeção de ação desejada: “Passar o pano úmido”, “Deitar-me compenetrado”, “Apreender”.→ Isso cria uma tensão entre o ideal (“for perfeito”) e o cotidiano (tarefas domésticas).
-
-
Construções reduzidasHá muitas elipses e truncamentos, que sugerem espontaneidade e ritmo falado.
-
Ex.: “Pensamentos livres / Da obsessão / É o que almejo.” – aqui há um salto sintático: espera-se “Pensamentos livres da obsessão são o que almejo”, mas o verbo está ajustado para manter a cadência.
-
-
Encadeamento imagéticoO poema se estrutura quase como uma lista de atos e aspirações, que são independentes mas ligados pela ideia de “perfeição possível”.
🎨 Análise estética
-
Tema
-
O poema parte de uma busca ética e espiritual (“ser perfeito”, “boas lições dos espíritos”) e a encarna no cotidiano banal (“louça suja”, “passar o pano úmido”).
-
Há uma estética da simplicidade como perfeição: o perfeito não é grandioso, mas está em gestos mínimos.
-
-
Imagens poéticas
-
“Da janela sendo espelho” – metáfora que sugere autoconhecimento, olhar de dentro para fora.
-
“Como se do edital / Recebesse o prêmio” – ironia delicada: transformar o ato banal da faxina em reconhecimento público.
-
O final introduz o transcendente: “Boas lições dos espíritos / Apreender / Do outro lado.” – contraste com o doméstico, mas sem rompê-lo.
-
-
Estilo
-
Minimalista, enumerativo, com ecos de poesia concreta em sua disposição sintática enxuta.
-
Mistura de prosa cotidiana e lirismo espiritual: estética do ordinário elevado.
-
O “perfeito” não é o divino inatingível, mas o humano que busca equilíbrio entre ordem prática e aprendizado espiritual.
-
-
Efeito
-
A leitura cria um fluxo de tarefas simples que se metamorfoseiam em símbolos.
-
O poema passa do material (faxina, louça) ao moral (favor ao amigo) e ao espiritual (lições dos espíritos).
-
Há um crescendo: do trivial → ao ético → ao transcendental.
-
📌 Síntese
O poema constrói uma sintaxe fragmentada, quase em tópicos, que ecoa a cadência de um diário ou lista de afazeres. Esteticamente, extrai poesia do prosaico e confere à rotina a dignidade do “perfeito”. A obra sugere que a perfeição é menos uma condição absoluta e mais um exercício humilde, feito de pequenos gestos que ecoam no espiritual.

Comentários
Postar um comentário