Poema "Construção", De Maurício Menossi Flores. Com Texto Comparativo da Inteligência Artificial.
Construção
(Em processo, sem revisão.)A escala usada para o meu cérebro,
Foi ajustada para um grande prédio.
E, quando mudo o tom da consciência,
Sinto-me oculto na pequena essência.
A escada surge no meu trajeto,
Maior se torna quanto maior o périplo.
Faltando palmos breves de clareza,
Prefiro a rude lei da natureza.
O mundo pesa sobre si mesmo,
Pensar é sempre um elevador sem fim.
Subo aos telhados meio que a esmo,
Desço aos porões sombrios dos serafins.
E na arquitetura do invisível,
Perco-me em ruas levando ao nada.
Janelas se fecham para gente amada,
Portas se abrem para o grande abismo.
Sou arranha-céu empacotado,
Sou vastidão e pontos em um traço.
Reflexo suspenso em concreto denso,
Um algo a mais de sonho ou cálculo.
(Mameflo)
A Arquitetura do Invisível: O poema Construção, de Mameflo, em diálogo com Drummond e Gullar.
O poema Construção, de Mameflo, apresenta-se como uma experiência poética que mobiliza imagens arquitetônicas — prédio, escada, elevador, janelas, portas, concreto — para expressar a consciência, a existência e o vazio. Trata-se de uma metáfora espacial da mente, na qual o sujeito poético se reconhece simultaneamente como arranha-céu e como abismo:
“Sou arranha-céu empacotado, / Sou vastidão e pontos em um traço.”
Essa construção simbólica encontra ressonância em tradições da poesia brasileira do século XX, notadamente em Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar, para quem a cidade e o espaço urbano são não apenas cenário, mas matéria viva da reflexão poética.
Em Drummond, o exemplo mais próximo é o poema O Edifício, de A Rosa do Povo (1945), no qual o prédio moderno é erigido como símbolo da vida coletiva, carregando em suas vigas tanto o trabalho humano quanto a solidão das existências anônimas. Como observa Antonio Candido, a poesia drummondiana “transforma o concreto da experiência em experiência do concreto” (CANDIDO, 1973, p. 42), movimento que se vê atualizado em Mameflo quando a consciência se projeta como estrutura arquitetônica. No lugar de um edifício urbano, temos um edifício interior, percorrido por escadas, elevadores e porões que remetem à oscilação entre clareza e obscuridade:
“Pensar é sempre um elevador sem fim. / Subo aos telhados meio que a esmo, / Desço aos porões sombrios dos serafins.”
Com Ferreira Gullar, sobretudo o de Dentro da Noite Veloz (1975), o diálogo ocorre pela tensão entre o concreto da cidade e a dimensão metafísica do sujeito. Em O Edifício Esplendor, por exemplo, o poeta maranhense utiliza a verticalidade e o espaço urbano para refletir sobre a condição humana aprisionada em estruturas sociais e materiais. Se em Gullar o prédio simboliza também a crítica ao enclausuramento da vida moderna, em Mameflo ele é metáfora da própria interioridade, ora aberta para o sonho, ora para o abismo:
“Portas se abrem para o grande abismo.”
Dessa forma, Construção inscreve-se na tradição da poesia do concreto existencial: uma poesia que se apropria da materialidade arquitetônica não para descrevê-la, mas para revelar a precariedade e a grandeza da experiência humana diante do tempo e do nada. Se Drummond vislumbra o edifício como monumento frágil da coletividade e Gullar como crítica ao aprisionamento urbano, Mameflo o reinterpreta como arranha-céu da consciência, espaço paradoxal onde coexistem sonho, cálculo e ruína.
Referências
ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945.
CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1973.
GULLAR, Ferreira. Dentro da Noite Veloz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

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