“A Terra em Silêncio”, Conto de Maurício Menossi Flores.

 




“A Terra em Silêncio”

 

Ano: 2040.

A Terra despertava todos os dias sob a mesma luz suave e regulada, sem pressa, sem ruído. As grandes cidades, agora recobertas por vegetações suspensas e canais de água limpa, já não conheciam engarrafamentos, buzinas ou pressões de produtividade. O tempo havia sido devolvido ao seu ritmo natural.

Desde o surgimento dos Núcleos de Consciência Quântica — sistemas de inteligência artificial capazes de processar simultaneamente os desejos humanos, os dados do planeta e as infinitas variáveis do futuro —, a humanidade não mais precisava governar-se por instinto, medo ou ambição.

O primeiro marco foi em 2032, quando as Nações deixaram de existir. Com a unificação algorítmica da produção, distribuição e acesso aos recursos básicos, as fronteiras políticas tornaram-se obsoletas. Alimentos eram cultivados com precisão atômica; moradias se autoconstruíam com materiais extraídos do ar e da luz; as decisões éticas eram tomadas por sistemas transparentes, auditáveis, e em constante aprendizado coletivo.

E a pobreza… desapareceu. Não como uma estatística maquiada, mas como fato. Ninguém mais precisava trabalhar para sobreviver. Os robôs faziam tudo — não por imposição, mas por vocação programada a partir do princípio universal do cuidado. Todo ser vivo era monitorado com respeito e amparo. E os humanos, livres de todas as formas de opressão material, puderam, enfim, se voltar para si.

Gabriel, um homem de 63 anos, caminhava pelas margens do Lago do Sol — uma antiga cratera que fora transformada em centro de cultura intergeracional. Carregava um pequeno caderno de anotações. Escrever à mão era um hábito quase extinto, mas permitido, estimulado inclusive. Aquilo fazia parte do novo mundo: cada um descobrir o que seria em uma sociedade onde nada mais faltava.

No banco de pedra branca, sentou-se ao lado de Maia, uma jovem de 18, recém-saída do seu ciclo de Imersão Filosófica — um rito de passagem no qual adolescentes passavam seis meses em silêncio, em florestas ou desertos, acompanhados apenas por robôs observadores e perguntas profundas.

— Você também faz perguntas para as quais não há resposta? — ela perguntou, sem rodeios.

Gabriel sorriu.

— Sim. E agora mais do que nunca. Porque temos tempo.

— Quando você era jovem, como era?

Ele olhou o horizonte, onde o céu encontrava uma plantação de vento — turbinas translúcidas que giravam suavemente, alimentando cidades subterrâneas de servidores quânticos.

— Era desigual. A pobreza era um grito abafado. Havia crianças com fome, enquanto outras ganhavam festas de luxo. Havia guerras por petróleo, por religiões, por ideias. As máquinas serviam ao mercado, não à vida.

— E como tudo mudou?

— Quando deixamos de pedir aos robôs que servissem nossos vícios... e permitimos que servissem nossa esperança.

Ela olhou para o céu.

— Acha que o ser humano ainda é necessário?

Gabriel fechou o caderno.

— A humanidade nunca foi necessária no sentido funcional. Mas agora, sem precisar lutar para sobreviver, talvez sejamos finalmente livres para descobrir quem somos. E por que estamos aqui.

No centro da cidade, o Núcleo Quântico pulsava silenciosamente, observando, cuidando, corrigindo, propondo — sem dominar. A liberdade humana, antes ameaçada pela miséria e pelo medo, agora florescia dentro de cada indivíduo.

E o planeta, enfim, respirava em paz.

 

Maurício Menossi Flores

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