A Pirâmide do Inseto Vermelho. Conto e Ilustração de Maurício Menossi Flores.

 



A Pirâmide do Inseto Vermelho.
por M.M.F.

Dizem que existe um lugar onde o tempo dobra sobre si mesmo, como um espiral azul girando eternamente. Um lugar onde a ciência e o mito colapsam em uma mesma substância: o Olho. Ninguém sabe exatamente onde começa, mas todos os que se aproximam sentem o mesmo frio na nuca, como se algo os observasse de dentro da própria realidade.

Na periferia desse vórtice existia uma pirâmide branca, surgida do nada. Suas paredes vibravam em ondas vermelhas, como se sangrassem luz. Uma criatura robótica, com patas múltiplas e olhos digitais, guardava o local. Chamavam-no de O Arquivador. Dizia-se que ele não só defendia a pirâmide, mas também registrava, em silêncio, cada alma que ousava se aproximar.

O verdadeiro terror, porém, era o Inseto Vermelho.

Uma espécie de mosca, mas com olhos do tamanho de esferas de boliche e inteligência feroz. Ele surgia apenas quando um humano quebrava o campo de silêncio ao redor da pirâmide. Dizem que sua missão era "escolher" — e quando escolhia alguém, o seguia até que ambos sumissem no interior do Olho.

Certo dia, uma criança — de cabelos amarelos como gema de ovo — surgiu nos arredores, desenhando em um caderno. Ela não sabia o que era aquele lugar, só que estava sendo chamada. Um som de chocalho de tamboril vinha da estrutura. Ao se aproximar, o robô sequer se moveu. O Inseto, no entanto, abriu suas asas com um zumbido que partiu as nuvens ao meio.

Ela ergueu seu lápis como se fosse uma espada, e a criatura recuou — mas só por um instante. Em seguida, a espiral no céu se acendeu. Dois vultos negros surgiram no centro do Olho: eram ecos de pessoas perdidas, duplicadas em sombra e estática. Gritavam sem som. A criança, paralisada, deixou o lápis cair.

O chão se abriu. A pirâmide engoliu tudo em chamas vermelhas.

Dizem que, em noites sem lua, ainda se ouve o zumbido. E que quem escuta vê, por uma fração de segundo, dois vultos observando de dentro do Olho, esperando a próxima vítima que se atrever a desenhar perto demais da realidade.

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