Conto "O Homem do Tapa-Ouvidos", de Maurício Menossi Flores.
O Homem dos Tapa-Ouvidos.
No ano de 2036, quando os cérebros já podiam ser escaneados em tempo real e a memória humana transferida para chips orgânicos, havia um homem que só queria uma coisa: silêncio.
Seu nome era Álvaro K., um apreciador das artes, um solitário por definição. Em meio às megacidades pulsantes de neon e drones, onde anúncios publicitários vinham direto por impulsos sonoros ao canal auditivo, Álvaro desejava apenas um lugar onde pudesse ouvir o som do nada. Procurou vilas isoladas, colônias orbitais, comunidades subaquáticas e até desertos digitalmente despoluídos. Em todos, algo o perseguia: o ruído do mundo.
Foi então que adotou os tapa-ouvidos. Não simples abafadores, mas dispositivos de isolamento total, com microcircuitos que cancelavam ruídos externos e internos, inclusive o som do próprio sangue correndo nas têmporas. Começou a usá-los o tempo inteiro. Dormia com eles. Lia com eles. Assistia a filmes, utilizando um filtro especial contido no tapa-ouvidos. Ou seja, ouvia somente o que queria.
Enquanto o mundo se transformava – com humanos fundindo-se aos algoritmos, consciências sendo replicadas em redes neurais sintéticas e os teatros convertidos em experiências táteis de realidade aumentada – Álvaro mantinha sua rotina quase monástica. Apreciava arte como quem reza. Via no teatro digital de Maurício Menossi Flores, o androide dramaturgo, o eco remoto do trágico grego. Em sua biblioteca de hologramas, relia Shakespeare e Cervantes projetados no ar com tinta luminosa, como fantasmas poéticos.
Mas havia uma busca silenciosa, paralela à outra: a da vida após a morte. Desde os quinze anos de idade mergulhara nos estudos do Espiritismo, convencido de que, se houvesse algo além do túmulo, a ciência do século XXI já teria provado. Leu e releu Allan Kardec, Camille Flammarion, Gabriel Delanne, dentre centenas de outros no gênero, pesquisou registros de transcomunicação, mediunidade em laboratório, escaneamento de padrões pós-morte. Nada. Cético por fim, concluiu:
— O silêncio que tanto busco já é a morte. E se ela não fala, é porque não há mais ninguém para falar, felizmente.
Publicou um pequeno ensaio na rede aberta da Universidade de São Paulo, intitulado “A Inaudibilidade do Além: Por Que o Silêncio é a Prova do Fim”. Ganhou críticas e louvores. Os transumanos o ignoraram. Para eles, a morte era apenas um backup mal feito.
Álvaro, entretanto, continuou fiel ao efêmero. Um dia, assistindo a uma apresentação de dança aérea em que drones sincronizados guiavam bailarinos por gravidade artificial, emocionou-se. Não pelo espetáculo em si, mas por perceber que a arte ainda resistia. Era a única ponte entre o homem que sente e o mundo que não cala.
Foi enterrado aos 65 anos com os tapa-ouvidos postos. Na lápide, apenas uma frase:
“Encontrei o silêncio. E nele, nenhuma alma.”
Maurício Menossi Flores

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