A Volta das Sombras
Durante dias, ele caminhou. Passos lentos, incansáveis, num arrastar de tênis gastos sobre o asfalto esburacado, cruzando retas e curvas entre Aparecida e o centro cinzento de São Paulo. O corpo cambaleava, mas a mente ardia em febre. Quando finalmente chegou à Sé, o sino da catedral não badalou — ou ele não percebeu. Sentou-se por instantes nos degraus da praça, tentando convencer os olhos de que era verdade: havia chegado. Um feito. Um absurdo. Uma penitência autoimposta, um testemunho de fé ou culpa, não sabia bem.
Voltou para casa com o coração arfante, espalhando a notícia pela cidade como um andarilho de verdades impossíveis. Em casa, num sobrado mofado que cheirava a jornal velho e desordem afetiva, contou a caminhada às primas da infância — aquelas que não via há décadas, mas que, naquela noite, pareciam reconectar-se como nos domingos de arroz e frango com quiabo da tia Maria. Falava animado, os olhos ainda vivos com a poeira da estrada. As primas ouviam, riam, faziam perguntas, como se nunca tivessem partido da casa em comum.
Foi então que subiu ao quarto. Buscou algo no alto do guarda-roupa: um baseado esquecido, um cilindro de silêncio para o seu cansaço. Quis fumar rápido, sem testemunhas. Mas enquanto puxava a fumaça quente e grossa, ouviu risos na sala. Risos femininos. Muitos. E entre eles, uma voz que congelou a sua espinha — a de sua mãe, morta havia mais de oito anos. Ela entrou junto a um pequeno cortejo de mulheres: eram as irmãs da ex-esposa, aquela que ele abandonara anos atrás por uma paixão barata, que murchou em poucas estações.
Elas se sentaram no sofá como se fossem da casa, trocando confidências, zombarias, pequenos afagos verbais entre xícaras de café e bolo que não existia. A mãe, ainda vestida com o casaco marrom que usava nos invernos, olhou para ele com uma ternura grave e um pouco de escárnio. Disse, apontando para a mais nova das cunhadas:
— Essa menina aí tem sensibilidade. Sentiu o cheiro, viu?
Ele quis negar, mas a fumaça ainda escapava pelas narinas, lenta, denunciadora. A mãe não o acusava. Apenas observava, como quem vê um filho tropeçar pela terceira vez no mesmo degrau.
Sentou-se num canto, tentando desviar os olhos, até que ela voltou a falar, com o mesmo tom neutro e distante:
— Me explica uma coisa... Por que a Federação Espírita Brasileira está dizendo que o Divaldo Franco morreu? Eu vi o homem andando ali pela rua do sacolão, perto do ponto final do 5113.
Ninguém riu. O silêncio caiu sobre a sala como um lençol de linho grosso. Ele quis responder, mas a garganta estava seca e a língua colada ao céu da boca.
O tempo se desfez. As visitas começaram a se dispersar. Uma a uma, saíam pela porta, sumindo no corredor como se não pisassem mais no chão. A mãe foi a última. Antes de sair, olhou para trás, e disse apenas:
— A caminhada foi bonita. Mas você ainda está parado.
A porta fechou-se devagar, com um estalo que soou dentro do peito.
Ele permaneceu imóvel, ainda com a brasa do baseado acesa entre os dedos, o som dos próprios passos de Aparecida à Sé reverberando nas paredes. O quarto estava escuro e frio. Nenhuma prima. Nenhuma visita. Nenhum perfume de café. Apenas um homem, e uma presença que não se dissolvia no tempo.
E lá fora, o mundo seguia, como se nada tivesse acontecido.
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