Conto "O Emprego", de Maurício Menossi Flores.
O Emprego.
(Em processo, sem
revisão.)
Dirceu era magro, baixo, e apesar da aparência
frágil, havia algo de imponente na sua postura. Sempre bem vestido, com sua
camisa social azul clara, refletindo sobriedade, era empresário do ramo
imobiliário. Mantinha os cabelos aparados e perfeitamente penteados, marca da
atenção aos detalhes.
Ele mal me olhava. Tentava mostrar-me útil, mas,
naquela altura, eu nem sabia mais qual era o meu trabalho. Naquela manhã,
percebi a televisão estar ligada, embora ninguém estivesse presente na sala. Desliguei
o aparelho, tentando dar um passo na direção de algo produtivo. Dirceu sequer
me lançou um olhar. Eu, o trabalhador de mãos calejadas e alma vazia, apenas
observei a tela preta, sentindo-me ridículo.
Sempre fui guloso. E, ao ver alguns bombons sobre
uma mesa, de maneira impensada, apanhei um e comi. Nisso, o filho de Dirceu, de
sete anos de idade, advertiu-me que o pai dele não iria gostar daquilo. Fiquei
paralisado. Como assim? Eu, na minha insignificância, havia tomado algo sem
valor da mesa do patrão e o simples gesto de comer um doce tinha se tornado um
crime? Senti uma vergonha indescritível. Tentei me desculpar, mas as palavras
falharam. O garoto saiu da sala como quem cumpriu sua missão.
“Eu vou embora”, choraminguei para a minha esposa,
empregada da casa de Dirceu há anos. Falei baixo, sem saber exatamente as
minhas intenções. Sabia não poder mais ficar ali, naquele lugar onde minha
presença parecia não ter sentido. Estava decidido, e nada me faria mudar de atitude.
Minha esposa não parecia perceber o peso que eu carregava: saiu da sala e voltou
com um prato de comida nas mãos. "Coma”, disse ela.
Olhei para o prato. Era simples e estranho. Arroz e
farofa, e no meio, dois caroços de pêssego. Quando dei a primeira mordida, o
caroço duro fez-me parar. Tentei mastigar com cuidado, mas a dor de quase
quebrar um dente foi suficiente para que eu soltasse o prato com um suspiro de
frustração.
Naquele momento, percebi que minha luta não era
contra o rico Dirceu, mas contra a minha própria inutilidade. O vazio dentro de
mim impedia-me de enxergar qualquer propósito naquele lugar tão rico. Via-me em
um ciclo de inutilidade e não sabia como rompê-lo.
Minha esposa, sem entender o que estava passando
comigo, apenas me olhou com um olhar preocupado. Mas ela não sabia, ninguém
sabia. Eu não estava ali para comer ou ser servido. Eu estava ali para me
encontrar, e o meu encontro comigo mesmo, naquele lugar, estava mais distante
ainda.
Maurício Menossi Flores

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