"A Última Mudança", Conto de Maurício Menossi Flores.
A Última Mudança.
Ele completou 61 anos naquele dia, mas não sentiu nenhuma celebração interior. Olhou-se no espelho e viu um homem envelhecido, marcado não pelas rugas do tempo, mas pelas frustrações acumuladas ao longo da vida da mesma maneira que a gordura no corpo. Nada havia dado certo. Sua formação em Letras, antes considerada vocação, parecia uma piada cruel. Não conseguia falar espanhol, muito menos ler de forma fluente a língua na qual se formara. Aquilo, que deveria ser sua paixão, transformou-se em mais uma frustração.
Sua carreira profissional não foi diferente. Aposentou-se precocemente como funcionário público, após um processo administrativo por insubordinação. A retirada não lhe trouxe um rompimento, mas a sensação de mais uma derrota. Sem saber o que fazer da vida, passou a se isolar, mergulhando no peso da obesidade e na solidão das longas horas diante da televisão. Os dias se arrastavam, sem propósito ou motivo.
Enquanto assistia à televisão, em mais um daqueles dias tediosos, um programa chamou sua atenção. Era um especial sobre pessoas que mudaram de vida de forma radical, superando situações extremas de sofrimento e encontrando um novo caminho. Assistiu sem muita fé, apenas como uma forma de preencher o vazio, mas então uma frase, dita por um dos entrevistados, penetrou em sua mente: "Não importa onde você esteja, sempre é possível começar de novo, mesmo aos 61 anos, mesmo sentindo que já é tarde. A única coisa necessária para mudar é a disposição de acreditar na possibilidade da transformação".
Ele congelou. Aquela frase representou um ponto de virada, algo impossível de ignorar. Pela primeira vez em anos, sentiu um pequeno, mas intenso impulso dentro de si. Uma chama tímida surgiu, trazendo a sensação de que ainda poderia mudar, sem estar preso às circunstâncias.
Nos dias seguintes, começou a dar pequenos passos. Não foi fácil. Ele não mudou da noite para o dia, mas a diferença estava no fato de, finalmente, ter iniciado ações concretas. Em vez de se esconder no desconforto da rotina, buscou mudar algo simples: passou a ler de verdade os livros acumulados ao longo dos anos. Não com a expectativa de compreender tudo de uma vez, mas com a intenção de aprender um pouco a cada dia. Para sua surpresa, a cada página lida, sentia uma leveza que há tempos não experimentava.
Com o tempo, começou a cuidar melhor da saúde. Não foi uma transformação milagrosa, mas iniciou caminhadas diárias e tomou decisões mais conscientes sobre a alimentação. Nada perfeito, mas as pequenas vitórias o motivaram a continuar.
Quanto à carreira, ainda não se tornara o grande professor de Letras sonhado na juventude, mas passou a se envolver com um grupo de estudos online. Ali, compartilhou conhecimentos sobre a língua espanhola com pessoas também em aprendizado e encontrou satisfação inesperada em ensinar, mesmo de maneira informal.
Cinco anos depois, no 66º aniversário, olhou-se no espelho novamente. Não, ele não estava magro, não falava espanhol fluentemente e não se tornara o professor renomado idealizado na juventude. Mas algo surpreendente acontecera: sentia paz consigo mesmo. Havia dado o primeiro passo em uma jornada de mudança, e isso, para ele, era o mais importante.
Descobriu que o segredo não residia na perfeição ou em grandes conquistas, mas na capacidade de se reerguer, recomeçar, transformar a dor em aprendizado e tratar-se com gentileza no processo. O fracasso, antes paralisante, agora fazia parte natural da jornada, sem representar uma sentença definitiva.
Ao longo desses anos, atraiu amigos. Não de maneira grandiosa, mas de forma sutil. Antes escondido na sombra da autopiedade, passou a compartilhar experiências, oferecendo apoio a quem enfrentava momentos difíceis.
Aos 66 anos, sentia-se mais jovem do que nunca. Não porque havia perdido peso ou conquistado uma grande carreira, mas por finalmente compreender que a vida não se mede pelo sucesso ou pelo fracasso, mas pela coragem de seguir tentando, pela disposição de se reinventar.
Maurício Menossi Flores

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