Terra Nova. Conto de Maurício Menossi Flores.



Terra Nova.


O vento soprava inclemente sobre as planícies de Nova Terra, arrastando consigo o cheiro da madeira queimada e da terra úmida. As casas de toras se alinhavam de maneira desordenada, algumas ainda em construção, outras já mostrando os sinais da dura vida dos colonos. Entre eles, misturavam-se os nativos, observando com olhos atentos aqueles que chamavam de estrangeiros.

Em meio ao caos do assentamento, um jovem indígena caminhava com dificuldade, apoiando-se em um bastão improvisado. Seu pé direito, aleijado pela marca incandescente da bota que um dia disputara com um colono, pulsava de dor nos dias frios. Sua limitação o afastara do plantio e da carpintaria, mas o aproximara das crianças. Fora-lhe confiada a missão de ensinar as primeiras letras e palavras na língua inglesa, aquele idioma que era tanto um laço quanto um obstáculo entre colonos e nativos.

Certa manhã, enquanto organizava as tábuas que usava como lousa, uma criança apareceu. Pequena, de pele morena e olhos vivos, parecia ter se perdido. Os colonos a acolheram, deram-lhe alimento e abrigo, e logo a pequenina tornou-se parte do cotidiano do jovem professor. Era curiosa, aprendia rápido, e seu riso ecoava nos corredores improvisados da vila.

Dias depois, os pais da criança vieram. Guerreiros de uma tribo que rondava as margens do rio, aproximaram-se com cautela, mas sem hostilidade. A tensão no assentamento se fez sentir, cada colono apertando o punho sobre seus instrumentos de trabalho ou armas improvisadas. No entanto, o jovem indígena, com seu inglês hesitante e gestos cuidadosos, intercedeu. Explicou que a criança estava bem e que aprendera muito naquele breve tempo.

Os olhos do pai da menina faiscaram com algo entre desconfiança e interesse. Então, após um longo silêncio, ele falou em sua própria língua, misturando palavras desconhecidas ao inglês rudimentar que aprendera com outros colonos. Fez um único pedido: que a filha voltasse, mas que o aprendizado continuasse. O jovem aceitou sem hesitar, e assim, pela primeira vez, a pequena escola improvisada na Nova Terra recebeu não apenas os filhos dos colonos, mas também os descendentes daquelas terras.

Com o tempo, o jovem e os nativos passaram a trocar saberes. Ele ensinava as letras e números, enquanto aprendia as palavras que moldavam a visão de mundo dos indígenas. Sua dor no pé já não lhe parecia uma punição, mas sim um caminho que o destino traçara para ele.

Na Nova Terra, onde o passado e o futuro colidiam, um professor indígena aleijado encontrou no ensino sua redenção, e no respeito mútuo, um vislumbre de paz possível entre dois mundos que insistiam em se estranhar.

Maurício Menossi Flores

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