O Sabor do Pecado. Conto de Maurício Menossi Flores.

 


O Sabor do Pecado.

A campanha publicitária foi um escândalo antes mesmo de o produto chegar ao mercado. A mídia tradicional fingiu indignação, enquanto as redes sociais explodiam em debates acalorados. Mas era tudo parte do jogo. No mundo do marketing, a polêmica era sinônimo de vendas.

No Carnaval daquele ano, a gigante alimentícia Sintra S.A. lançou o chiclete "Conheça os Meus Desejos". A embalagem trazia a imagem de uma mulher de lábios carnudos, semicerrados, como se estivesse prestes a soltar um gemido. O detalhe mais chocante? O chiclete vinha pré-mastigado, moldado em bocas perfeitas, supostamente pertencentes a influenciadoras, modelos e atrizes do momento.

O anúncio televisivo mostrou uma musa tropical jogando um chiclete na boca, mastigando lentamente e, antes de engolir a saliva, cuspindo-o numa embalagem dourada. A voz sussurrava: “Agora, prove de mim.” O público foi à loucura. Homens, mulheres e adolescentes se acotovelavam para sentir aquele “sabor íntimo”. Em dias, o produto esgotou.

Folia, luxúria e consumo: o chiclete era a síntese perfeita de um mundo onde prazer e dinheiro se confundiam. Mas havia um preço oculto.

Os Primeiros Sintomas.

Na quarta-feira de cinzas, surgiram os primeiros relatos. Pessoas relataram sonhos vívidos e eróticos com figuras desconhecidas, sussurros em idiomas antigos e uma sede insaciável – não por água, mas por algo que não sabiam nomear. Alguns tinham lapsos de tempo, despertando em locais estranhos sem lembrança de como chegaram lá.

Médicos e cientistas correram para investigar, mas os sintomas eram abstratos demais para um diagnóstico. "Sugestão psicológica coletiva", disseram. “Efeito placebo.” Mas então, os desaparecimentos começaram.

O Preço do Desejo.

As câmeras de segurança mostravam algo assustador: as vítimas largavam seus afazeres, os olhos vazios, a boca semiaberta, como se ouvissem um chamado irresistível. Elas seguiam para locais escuros, becos, florestas, túneis abandonados – e nunca mais eram vistas.

As investigações revelaram um detalhe sinistro: todas as embalagens do chiclete vinham com um selo metálico contendo um símbolo gravado. Um criptógrafo identificou o desenho como um sigilo antigo, um encantamento de convocação. Mas convocação para quê?

Foi então que alguém conseguiu rastrear a origem do chiclete. As bocas moldadas não pertenciam a celebridades, mas sim a algo muito mais antigo e faminto. A Sintra S.A. estava longe de ser apenas uma empresa de alimentos. Ela havia feito um pacto. Cada chiclete mascado era uma oferta. Cada pessoa que mastigava o chiclete fazia um juramento inconsciente. E aqueles que cedessem ao desejo tornavam-se parte do banquete final.

O Último Grito.

Quando a verdade veio à tona, já era tarde. Milhares haviam desaparecido, e os que restavam sentiam-se sugados, como se algo os estivesse corroendo por dentro. A empresa fechou repentinamente. Seus CEOs evaporaram, suas contas bancárias foram apagadas como se nunca tivessem existido. As redes sociais silenciaram.

No ano seguinte, o Carnaval veio de novo. Nos becos sujos da cidade, uma nova mercadoria circulava discretamente. Uma embalagem dourada, com um novo rosto, novos lábios. O desejo, afinal, sempre encontra um jeito de renascer.

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