O Enterro. Conto de Maurício Menossi Flores.

 



O Enterro.


A funerária "Eterna Paz" ficava no fim da rua do Comércio, meio escondida entre duas lojas de consertos de eletrodomésticos e uma farmácia. Seu nome, em letras douradas e desgastadas pelo tempo, transmitia um ar de tranquilidade, contrastando com o movimento agitado da cidade. Era um local silencioso, com portas sempre fechadas.

João entrou. Não queria estar ali, mas não tinha escolha. O velho João, com seus cabelos brancos e o olhar cansado, sabia que acertaria todos os detalhes do funeral sem problemas maiores. Ao longo de décadas realizará o procedimento várias vezes, para amigos e familiares.

Ao entrar, foi recebido por um funcionário alto, de rosto pálido e olhar distante. Vestia terno preto, antiquado.

- Boa tarde, senhor. Como posso ajudá-lo? 

João cumprimentou-o, tentando manter a pose. Não queria demonstrar fraqueza.

- Sim... preciso resolver tudo. O velório, o enterro, as despesas... Quero fazer tudo da maneira certa, sem surpresas. 

- Claro, claro. Vamos cuidar disso.

O homem abriu um mostruário lentamente. Seus dedos eram finos, quase translúcidos, o olhar era vago. 

- Este é o nosso plano básico, senhor. O pacote inclui todos os serviços: transporte do corpo, caixão de boa qualidade, velório e enterro. Enfim, toda a parte burocrática e logística. Explicou, virando as páginas com cuidado. 

João franziu a testa, confuso.

- Eu... não entendo. As palavras aqui estão todas embaralhadas.

Ele olhou para os papéis diante de si, tentando ler, mas as letras se distorciam, como se dançassem diante de seus olhos.

- Não se preocupe, senhor. Deixe-me explicar. Aqui é o pacote básico, o caixão, as flores... Humm... O transporte está incluso... junto ao... serviço de cerimônia. 

João se inclinou para frente, sentindo um aperto no peito.

- Eu não consigo entender. As palavras... Estão todas misturadas... 

O cheiro que exalava do funcionário era mistura de formol com algo mais fétido, como se ele tivesse saído de um túmulo mal fechado. João recuou instintivamente, sua pele arrepiara.

- Eu posso garantir não haver nenhum erro, senhor. Tudo está conforme as normas. Disse o homem sorrindo sem emoção. Seus lábios eram pálidos e os dentes, de tão brancos, davam asco. Ele começou a falar mais rápido, como se tentasse não ser interrompido.

- Agora, o pagamento. Uma quantidade à vista facilitaria muito...

A mente de João ficou turva. O cheiro, o olhar vazio, as palavras emboladas... João sentiu um peso no estômago.

- Você... Você não está me enganando!

Com os olhos fixos em João e sorriso indecifrável, o funcionário se virou e foi até a parte de trás da sala. 

João ficou sozinho, tentando processar o que estava acontecendo. Sentiu algo estar errado, mas não sabia como sair daquela situação. O tempo parecia ter parado.

O funcionário retornou com um envelope em mãos.

- Aqui está, senhor, seu contrato. 

 - Obrigado", disse João, mas suas palavras soaram vazias.

João pegou o envelope com relutância, uma sensação de repulsa invadiu-o. Ao abri-lo, conferindo os papéis, o cheiro de morte agora era insuportável. Ele se virou para sair, mas, antes de fechar a porta, ouviu a voz do funcionário:

- Senhor, seu enterro será um sucesso!


Maurício Menossi Flores

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