Monólogo Teatral "O Supremo Ditador", de Maurício Menossi Flores.



O Supremo Ditador

EM PROCESSO, SEM REVISÃO.

(O palco está escuro. Um holofote ilumina uma grande mesa de madeira. No centro, um homem vestindo toga negra está sentado, as mãos tremem ao segurar uma caneta. Seu rosto está marcado pelo cansaço e pelo desespero. Ele se levanta devagar, encara o vazio, como se falasse com sua própria consciência.)

MINISTRO: (Rindo amargamente) Supremo... Tribunal... Federal. Supremo! Não soa irônico? Supremo... supremo sobre quem? Sobre o povo que brada nas ruas? Sobre os generais que agora se erguem contra mim? Sobre as nações que me condenam? Ah, mas quando eu tinha a caneta... quando eu assinava! Ah, como tremiam diante de mim...

(Ele caminha pelo palco, olhando para o alto, como se enxergasse um tribunal invisível.)

MINISTRO: Eu os chamei de terroristas. Sim, porque era isso que eu precisava que fossem. Rebeldes, criminosos, vermes insurretos! E a lei... ah, a lei, essa coisa maleável, moldável, feita para servir a quem sabe manipulá-la. Eu a dobrei, torci, rescrevi... E eles? Obedeceram! Todos obedeceram! Grandes corporações ajoelharam-se diante da minha autoridade. 'Removam este, silenciem aquele!' E eles fizeram! Com medo... Sempre o medo!

(Mas sua voz se quebra. Ele leva a mão ao rosto, respira fundo, tenta recompor-se.)

MINISTRO: Mas o medo... o medo agora é meu. Meu e apenas meu. O medo bate à porta como um oficial da justiça que não pode ser ignorado. O povo... o povo que um dia temi e prendi, que um dia censurei, agora grita lá fora. Eles querem meu sangue. Eles querem justiça! Mas justiça? O que é justiça? A minha justiça? Aquela que me servia tão bem? (Pausa) Não, não há mais justiça para mim...

(Ele pega um jornal sobre a mesa, o amassa, joga-o longe.)

MINISTRO: Golpista! Eu o chamei de golpista! Eu o acusei! E por quê? Porque era o que precisava ser feito! Porque ele era meu obstáculo! Porque precisava ser varrido! Ah, mas agora... agora vejo que o golpe foi meu. Meu próprio golpe. Contra o tempo, contra a história. Mas a história... a história não perdoa.

(Ele se aproxima de uma gaveta, abre-a lentamente. Tira um revólver, encara-o.)

MINISTRO: Eu, que me julgava intocável, estou cercado. O exército cumpre a Constituição. A democracia verdadeira, não a que inventei, se ergue contra mim. Eu, que reescrevi as regras, agora vejo que nunca as controlei de verdade.

(Ele ri, um riso seco e sem vida.)

MINISTRO: Há sempre um último decreto a ser assinado... E desta vez, ninguém pode contestá-lo.

(Ele segura a arma, mas hesita. Caminha pelo palco, lembrando de seus momentos de glória.)

MINISTRO: Ah, os salões cheios de bajuladores! As manchetes! 'O homem da lei!' 'O guardião da democracia!' Como gostavam de me chamar! Como gostavam de se curvar! Mas eram todos falsos! Eram apenas marionetes esperando o vento mudar. Quando minha estrela brilhava, todos queriam estar ao meu lado. Agora... agora me deixam à própria sorte. Como se eu fosse um leproso político, um pária do poder que um dia ostentei.

(Ele para diante do espelho. Encara sua própria imagem.)

MINISTRO: E eu? Quem sou eu agora? Um monstro? Um visionário? Um homem traído por seu próprio jogo? Não, não... sou apenas um homem que tentou segurar as rédeas do destino e foi engolido por ele. Eu queria ordem. Eu queria controle. Mas controle sobre o quê? Sobre quem? Sobre a verdade? A verdade nunca esteve sob meu controle.

(O som de gritos distantes invade o palco. Ele se assusta, olha ao redor, como se pudesse ver os manifestantes do lado de fora.)

MINISTRO: Eles não vão parar. Não vão aceitar desculpas, não vão aceitar fugas. E mesmo que eu tentasse escapar... para onde eu iria? Para qual país? Para qual esconderijo? Não há mais saída. O mundo me julga. O mundo me condena.

(Ele volta a olhar para o revólver. Suas mãos tremem.)

MINISTRO: Um último ato. Um último decreto. Talvez, assim, a história me perdoe. Talvez, assim, eu escape do julgamento que me espera do outro lado...

(O holofote pisca, a cena escurece subitamente. Um único som: um disparo.)

(FIM)

Maurício Menossi Flores


The Supreme Dictator


(The stage is dark. A spotlight illuminates a large wooden table. In the center, a man wearing a black robe is sitting, his hands shaking as he holds a pen. His face is marked by fatigue and despair. He stands up slowly and stares into the void, as if talking to his own conscience).

MINISTER: (Laughing bitterly) Supreme... Court. Federal. Supreme! Doesn't that sound ironic? Supreme... supreme over whom? Over the people roaring in the streets? Over the generals who are now rising up against me? Over the nations that condemn me? Ah, but when I had the pen... when I signed! Oh, how they trembled before me...

(He walks across the stage, looking upwards, as if he sees an invisible courtroom).

MINISTER: I called them terrorists. Yes, because that's what I needed them to be. Rebels, criminals, insurgent vermin! And the law... ah, the law, that malleable, moldable thing, made to serve those who know how to manipulate it. I bent it, twisted it, rewrote it... And they? They obeyed! They all did! Large corporations knelt before my authority. 'Remove this one, silence that one!' And they did! With fear... Always fear!

(But his voice breaks. He puts his hand to his face, takes a deep breath, tries to pull himself together).

MINISTER: But the fear... the fear is mine now. Mine and mine alone. Fear knocks at the door like a bailiff who cannot be ignored. The people... the people I once feared and imprisoned, who I once censored, are now screaming outside. They want my blood. They want justice! But justice? What is justice? My justice? The one that used to serve me so well? (Pause) No, there's no more justice for me...

(He picks up a newspaper from the table, crumples it up, throws it away.)

MINISTER: Scammer! I called you a scammer! I accused you! And why? Because it had to be done! Because he was my obstacle! Because he had to be swept away! Ah, but now... now I see that the blow was mine. My own blow. Against time, against history. But history... history doesn't forgive.

(He approaches a drawer, opens it slowly. He takes out a revolver, faces him).

MINISTER: I, who thought I was untouchable, am surrounded. The army complies with the Constitution. Real democracy, not the one I invented, is rising up against me. I, who rewrote the rules, now see that I never really controlled them.

(He laughs, a dry, lifeless laugh.)

MINISTER: There's always one last decree to be signed... And this time, no one can challenge it.

(He holds up the gun, but hesitates. He walks across the stage, remembering his moments of glory).

MINISTER: Ah, the halls full of sycophants! The headlines! 'The man of the law!' 'The guardian of democracy!' How they liked to call me! How they liked to bow! But they were all fakes! They were just puppets waiting for the wind to change. When my star was shining, everyone wanted to be by my side. Now... now they leave me to my own devices. As if I were a political leper, an outcast from the power I once wielded.

(He stops in front of the mirror. Faces his own image.)

MINISTER: What about me? Who am I now? A monster? A visionary? A man betrayed by his own game? No, no... I'm just a man who tried to hold the reins of fate and was swallowed up by it. I wanted order. I wanted control. But control over what? Over whom? Over the truth? The truth has never been under my control.

(The sound of distant shouting invades the stage. He is startled, looks around, as if he can see the protesters outside).

MINISTER: They won't stop. They won't accept excuses, they won't accept escapes. And even if I tried to escape... where would I go? Which country? Which hiding place? There's no way out. The world judges me. The world condemns me.

(He looks at the revolver again. His hands are shaking.)

MINISTER: One last act. One last decree. Perhaps then history will forgive me. Maybe this way I'll escape the judgment that awaits me on the other side...

(The spotlight flashes, the scene suddenly darkens. A single sound: a gunshot.)

(END)


El Dictador Supremo


(El escenario está a oscuras. Un foco ilumina una gran mesa de madera. En el centro, un hombre vestido con una túnica negra está sentado, con las manos temblorosas mientras sostiene un bolígrafo. Su rostro está marcado por el cansancio y la desesperación. Se levanta lentamente y mira al vacío, como si hablara con su propia conciencia).

MINISTRO: (Ríe amargamente) Tribunal... Tribunal... Federal. Tribunal Supremo. ¿No suena irónico? ¿Supremo... supremo sobre quién? ¿Sobre la gente que ruge en las calles? ¿Sobre los generales que ahora se levantan contra mí? ¿Sobre las naciones que me condenan? ¡Ah, pero cuando tenía la pluma... cuando firmaba! Oh, cómo temblaban ante mí...

(Atraviesa el escenario, mirando hacia arriba, como si viera un tribunal invisible).

MINISTRO: Les llamé terroristas. Sí, porque eso es lo que necesitaba que fueran. ¡Rebeldes, criminales, alimañas insurgentes! Y la ley... ah, la ley, esa cosa maleable, moldeable, hecha para servir a aquellos que saben cómo manipularla. La doblé, la torcí, la reescribí... ¿Y ellos? ¡Obedecían! Todos me obedecían. Grandes corporaciones se arrodillaron ante mi autoridad. «¡Quiten a éste, silencien a aquél!» ¡Y lo hicieron! Con miedo... ¡Siempre miedo!

(Pero se le quiebra la voz. Se lleva la mano a la cara, respira hondo, intenta recomponerse).

MINISTRO: Pero el miedo... el miedo es mío ahora. Mío y sólo mío. El miedo llama a la puerta como un alguacil al que no se puede ignorar. La gente... la gente a la que una vez temí y encarcelé, a la que una vez censuré, ahora grita fuera. Quieren mi sangre. Quieren justicia. ¿Pero justicia? ¿Qué es la justicia? ¿Mi justicia? ¿La que me servía tan bien? (Pausa) No, ya no hay justicia para mí...

(Coge un periódico de la mesa, lo arruga y lo tira).

MINISTRO: ¡Estafador! ¡Te he llamado estafador! Te he acusado. ¿Y por qué? Porque había que hacerlo. ¡Porque era mi obstáculo! ¡Porque tenía que ser barrido! Ah, pero ahora... ahora veo que el golpe fue mío. Mi propio golpe. Contra el tiempo, contra la historia. Pero la historia... la historia no perdona.

(Se acerca a un cajón, lo abre lentamente. Saca un revólver, se encara con él).

MINISTRO: Yo, que me creía intocable, estoy rodeado. El ejército cumple la Constitución. La democracia real, no la que yo inventé, se levanta contra mí. Yo, que reescribí las reglas, ahora me doy cuenta de que en realidad nunca las controlé.

(Se ríe, una risa seca y sin vida).

MINISTRO: Siempre hay un último decreto que firmar... Y esta vez, nadie puede desafiarlo.

(Levanta la pistola, pero duda. Camina por el escenario, recordando sus momentos de gloria).

MINISTRO: ¡Ah, los pasillos llenos de aduladores! ¡Los titulares! «¡El hombre de la ley!» «¡El guardián de la democracia!» ¡Cómo les gustaba llamarme! ¡Cómo les gustaba inclinarse! ¡Pero eran todos unos farsantes! No eran más que marionetas esperando a que cambiara el viento. Cuando mi estrella brillaba, todos querían estar a mi lado. Ahora... ahora me abandonan a mi suerte. Como si fuera un leproso político, un paria del poder del que una vez alardeé.

(Se detiene frente al espejo. Se enfrenta a su propia imagen).

MINISTRO: ¿Y yo? ¿Quién soy ahora? ¿Un monstruo? ¿Un visionario? ¿Un hombre traicionado por su propio juego? No, no... Sólo soy un hombre que intentó llevar las riendas del destino y fue engullido por él. Quería orden. Quería control. ¿Pero control sobre qué? ¿Sobre quién? ¿Sobre la verdad? La verdad nunca ha estado bajo mi control.

(El sonido de gritos lejanos invade el escenario. Se sobresalta, mira a su alrededor, como si pudiera ver a los manifestantes de fuera).

MINISTRO: No se detendrán. No aceptarán excusas, no aceptarán fugas. Y aunque intentara escapar... ¿adónde iría? ¿A qué país? ¿Qué escondite? No hay salida. El mundo me juzga. El mundo me condena.

(Vuelve a mirar el revólver. Le tiemblan las manos).

Un último acto. Un último decreto. Quizás así la historia me perdone. Quizá así escape al juicio que me espera al otro lado...

(El foco parpadea, la escena se oscurece de repente. Un único sonido: un disparo).

(FIN)





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Auto da Barca do Inferno (Gil Vicente) & IA - Inteligência Artificial. Texto.

Texto, Marcações, Trilha Sonora e Ensaio de "O Presidente Negro", Monólogo Teatral Adaptado do Romance de Monteiro Lobato.

Monólogo Teatral Inspirado no Livro "A Evolução da Física", de Albert Einstein e Leopold Infeld. Em Processo.