Conto "O Pianista Japonês", de Maurício Menossi Flores.
O Pianista Japonês.
A sala estava na penumbra, iluminada apenas por pequenas lâmpadas dispostas no chão. Colchonetes cobriam o piso, convidando os espectadores a se acomodarem para uma experiência sensorial incomum. O público murmurava baixinho, acomodando-se. Entre eles, um senhor de cabelos brancos e sua esposa haviam trazido seu próprio colchão, ainda coberto pelo plástico da fábrica. A cada movimento, o material estalava em protesto contra qualquer deslocamento.
No centro da sala, um piano de cauda reluzia sob a luz amena. O artista, um brasileiro de origem japonesa, acabara de retornar da terra de seus ancestrais. A viagem lhe trouxera novos sons, novas perspectivas, e aquela seria sua primeira apresentação desde então. Ele entrou na sala em silêncio, curvou-se respeitosamente e sentou-se diante do piano.
As vozes diminuíram. O artista ergueu as mãos, pronto para tocar. Mas, ao menor respiro do público, o plástico do colchão do casal emitiu um som agudo, como um eco irritante. Alguns riram, outros lançaram olhares impacientes. Ainda assim, o senhor e sua esposa mantinham-se firmes em seu colchão novo. O artista esperou mais um pouco, mas o barulho do plástico insistia. Além disso, pequenos cochichos ainda circulavam pelo ambiente.
Então, o artista baixou as mãos. Respirou fundo e disse:
— Não haverá apresentação esta noite. Preciso de silêncio absoluto para tocar. Devolveremos o dinheiro de todos os ingressos.
O murmúrio no público voltou, desta vez mais intenso, mesclando decepção e surpresa. Um assistente começou a percorrer a sala, devolvendo a quantia paga. Quando chegou ao casal do colchão, o senhor pegou as moedas e as girou na palma da mão. Franziu a testa.
— Esse valor está errado. Está me devolvendo menos do que paguei.
— O senhor está enganado, devolvemos exatamente o valor do ingresso — disse o assistente, com paciência treinada.
O senhor olhou para as moedas novamente. Elas tinham um brilho incomum, um relevo diferente.
— Não pode ser — murmurou, desconfiado.
Antes que continuasse, sua esposa, mais atenta, reconheceu as moedas: eram de uma nova tiragem, um lançamento recente do Banco Central, com valor elevado. Num gesto rápido, guardou-as no bolso.
— Está certo — disse ela, firme, cortando qualquer nova contestação.
Nesse momento, uma senhora idosa e obesa se aproximou e, sem cerimônia, sentou-se no colchão do casal. O senhor tentou argumentar:
— Este colchão é nosso, minha senhora.
Mas a mulher apenas sorriu e se ajeitou melhor, ocupando ainda mais espaço. A esposa do senhor, já espremida, perdeu qualquer conforto que ainda lhe restava. Ele resmungou algo inaudível, mas não houve alternativa senão aceitar a presença inconveniente.
O artista não saiu da sala. Permaneceu sentado no chão, entre os espectadores, sorrindo de leve enquanto mordia uma maçã. O público, antes ansioso pela apresentação, agora o observava sem saber ao certo como reagir. O som crocante da mordida ressoou na sala silenciosa, preenchendo o espaço com uma inesperada melodia.
O show havia terminado antes mesmo de começar, mas algo ainda estava acontecendo ali.
Maurício Menossi Flores

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