A Fachada de Papel Espelho. Conto de Maurício Menossi Flores.

 


A Fachada de Papel Espelho.


Dona Clarice sempre fora uma mulher de mãos hábeis e olhos atentos aos detalhes. Mesmo com a idade avançada e a saúde fragilizada, decidiu se inscrever no curso de artesanato para aprender a fazer fachadas de casas em papel espelho. Seu entusiasmo era comovente, ainda que suas mãos trêmulas tornassem cada corte um desafio.

Quando a professora anunciou que faria a avaliação dos trabalhos no dia seguinte, Clarice se apressou em terminar sua peça. Mas, ao tentar recortar as janelas, percebeu que seus dedos já não obedeciam como antes. Foi então que pediu ajuda ao irmão, que, mesmo sem experiência, pegou o estilete e tentou auxiliá-la. No entanto, cada tentativa resultava em um erro. Os cortes saíam tortos, as janelas desalinhadas, e o brilho do papel se desgastava sob suas mãos impacientes.

Ele olhava para o trabalho inacabado, para as imperfeições, e, acima de tudo, para o olhar triste de Clarice. Sentiu pena. Sentiu uma urgência de consertar tudo, de dar à irmã um momento de satisfação. Decidiu refazer a fachada do zero. Mas, ao vasculhar a mesa, encontrou apenas pequenos retalhos de papel, pedaços coloridos sem uniformidade. Não havia uma folha sequer inteira para recomeçar.

A professora chegaria em breve e o tempo era implacável. Ele tentou emendar os pedaços, formar algo novo a partir daquelas sobras, mas o resultado não correspondia à ideia inicial. O irmão suspirou, frustrado, enquanto Clarice apenas observava, resignada.

No entanto, ao olhar novamente para sua criação remendada, algo inesperado surgiu: uma fachada vibrante, diferente, feita de janelas assimétricas e recortes irregulares. Uma casa que não seguia padrões, mas que possuía uma beleza própria, cheia de histórias impressas nas suas colagens.

Quando a professora chegou, analisou a obra com interesse. Ao invés de repreender os erros, sorriu. "Que bela representação da vida! Nem sempre temos os materiais perfeitos, mas podemos construir algo belo com o que temos."

Clarice e seu irmão se entreolharam, surpresos. Pela primeira vez, ela sorriu de verdade. Naquele instante, perceberam que, mesmo com imperfeições, o mais importante era o que conseguiram construir juntos: um momento de amor e cumplicidade.


Maurício Menossi Flores

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