"O Médium Passista", Conto de Nina Ferraz, Psicografado Por Maurício Menossi Flores. Em Processo.

 

EM PROCESSO, SEM REVISÃO. 

O MÉDIUM PASSISTA.

I

Richard, rapaz sincero e sorridente, de estatura mediana, pele acobreada, cabelos negros e curtos, tendo como única vaidade, vez ou outra (não era obsessivo), tingir os delicados cachinhos, algo comum aos jovens da época, era capaz de curar qualquer doença, através da imposição das mãos, do passe mediúnico. E dizia, sim, ter auxílio dos espíritos mais sábios, em todas as etapas do tratamento.

Descobriu o talento da cura, quando ainda criança. Aos sete anos de idade, feriu, acidentalmente, pintinho comprado em ponta de feira livre. Quase em pânico, orou, pairando a mão sobre a ferida provocada por flecha de bambu, a qual atravessara caixa de papelão, onde estava a pobre ave. 

Aprendeu a ler e a escrever e, aos cinco anos de idade, produzia verdadeiros textos. Gostava deles longos e dizia fazê-los “render” detalhando bastante personagens, paisagens e ações. Falava em publicar livros. Seus pais lidavam com a situação nos limites da simplicidade deles. Quase analfabetos, faziam de tudo para se ligarem no mundo ao redor e compreendê-lo, a fim de acompanharem as conversas do filho prodígio e darem o apoio necessário para o desenvolvimento pleno de suas capacidades.

Trabalhando por conta, prestando assistência a terceiros produzindo textos acadêmicos, ministrando aulas particulares, comprando e vendendo livros usados, conseguia bastante tempo para escrever os seus próprios. Leitor voraz, o "Princípios Matemáticos da Filosofia Natural", de Isaac Newton, era seu livro de cabeceira.

A relação entre a inteligência de Richard e a sua capacidade de curar com passes espíritas nunca foi bem estabelecida. O espaço-tempo pode ser deformado, vivia dizendo. “Alterar o espaço-tempo ao redor do doente até leva-lo a estado de cura".  

Certa vez, Richard foi chamado para uma emergência. Criança com doença rara agonizava miseravelmente. Os pais estavam absurdamente desesperados, preocupando mais que a própria criaturinha em pungente sofrimento sobre a cama.

O desencarne era evidente, só um milagre salvaria Margareth. Mesmo lutando contra o destino facilmente deduzível, resolveu tentar. Durante três semanas aplicou passes espíritas e fez orações. A melhora da petiz foi contínua até ter a boa saúde que nunca teve, sofrendo desde de ser dada à luz.

Se até Einstein teve que provar a sua teoria, através de eclipses, ele considerou aquela a maior prova de seus poderes e dos métodos empregados.

 II

Passados vários anos, Richard ficou deveras famoso dentro de círculo muito especial, sendo estrela máxima entre médicos e pesquisadores. Suas palestras eram agendadas com até um ano de antecedência e seus livros esgotavam-se rapidamente. Contudo, conseguia andar nas ruas sem ser reconhecido e molestado.

Cansado de tanto trabalho, resolveu, pela primeira vez na vida, tirar férias com a  esposa e a filha única. Amigo agradecido, emprestou-lhe uma boa casa em Nova Peruíbe, na cidade de Peruíbe, São Paulo, Brasil. Lugar conhecido por ele, de outras passagens rápidas, folgas de dois ou três dias. Dessa vez, ficaria um mês inteirinho, dedicando-se ao repouso e a distrações amenas.

Chegando na casa, depois de desfazerem as malas, saíram ele, a  esposa e a filha para comerem uma pizza. Após a refeição, esticaram mais um pouquinho a noitada tomando cerveja, hábito de uma vez ou outra.

No dia seguinte, percebeu que o fio da antena da TV estava sem o conector. Não era hábito do dono da casa utilizar o aparelho. Mas ele, Richard, gostava bastante de, quando tinha tempo, informar-se através do noticiário. Saiu para comprar a peça.

Algo muito importante em Richard, além do poder de cura e da grande inteligência, era a plena certeza de vida após a morte do corpo físico, a sobrevivência do espírito.  Em decorrência, tinha muita tranquilidade, “paz de espírito e hábitos frugais”, segundo suas próprias palavras.

Essa paz de espírito não foi suficiente para evitar a tragédia advinda...

Quando chegou à loja de componentes eletrônicos, notou familiaridade na expressão da moça que lhe atendia. Vira-a em algum lugar...

Quem puxou conversa foi ela.

- O senhor não é o Richard Hórus?

- Sim, sou eu mesmo. E você não me é estranha...

- Sou Margareth, salva pelos seus poderes, quando eu era criança.

- Quem diria!

A moça tornara-se linda e radiante.   Os longos cabelos loiros emolduravam rosto rosado e delicado. O corpo era de escultura divinal. Mostrava-se simpática com naturalidade.

 Prolongaram a conversa, com almoço no restaurante, ao lado da loja de eletrônicos.

Ao chegar em casa, depois de muitas horas fora, a esposa não demorou perceber, naquele mesmo dia, o que havia acontecido. Richard era outra pessoa. Mostrava-se irritadiço e ansioso. A mulher, perspicaz, arrancou-lhe a verdade, o marido apaixonara-se por Margareth.

III

 O divórcio foi rápido. A partilha dos bens deu-se sem disputas desgastantes e a guarda e visitação da filha foi combinada a contendo dos dois ex-companheiros.

 Richard e Margareth passaram a viver juntos. A lua de mel durou não mais de três meses. Margareth muito bonita, começou a despertar o ciúme de Richard, diante dos rapazes que se aproximavam da jovem demonstrando interesses. Ela continuava sendo quem era, sorridente e solícita, sem por isso demonstrar qualquer tipo de atração sexual; queria, apenas, atender bem os seus clientes.

O médium curador propôs-lhe encerrar o negócio próprio e ir trabalhar com ele, organizando a sua agenda. A jovem mulher não aceitou, desejava manter a sua independência financeira. Também não aceitava a postura do marido, sendo que ela nunca dera motivos para ele desconfiar de sua firmeza em manter a fidelidade conjugal.

A separação não tardou. Margareth amargou a tristeza por algum tempo e tocou a sua vida. Richard, não. Bebendo álcool etílico em demasia, em qualquer horário, e fumando tabaco (parecendo chaminé de fábrica), as palestras rarearam até extinguirem-se os convites. Os livros foram pelo mesmo caminho. Parou de escrever e novas edições dos livros já publicados foram canceladas. As mãos trêmulas não concentravam o poder necessário para qualquer alívio das dores. 

A capacidade de exercer a Liberdade ao máximo, sem invadir o território alheio, sem ferir sentimentos e sem lesar financeiramente ao próximo, conceitos antes tidos como leis pétreas, fora por água abaixo definitivamente. Não conseguia sair do buraco cavado por si. Amigos tentaram ajudar em vão. Aquele médium passista do passado, capaz de operar milagres nos corpos físicos, não era capaz de curar a doença da própria alma.   

(Nina Ferraz, psicografia de Maurício Menossi Flores)

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