Maurício Menossi Flores, Artista Amador Paulistano, Inicia Produção de Peças Teatrais e Zines Inspirados Em Grandes Mestres Brasileiros.
EM PROCESSO, SEM REVISÃO.
Por Um Mundo Novo.
(Monólogo Teatral)
Personagem: Professor Milton Santos, O Geográfo.
(Cena: Um escritório simples, repleto de livros e mapas. Milton Santos, um
homem negro de meia-idade, está sentado diante de um gravador de fita. Ele
coloca os óculos, ajeita os papéis sobre a mesa e aperta o botão de gravação.
Pausa. Olha para o vazio, como se estivesse viajando no tempo, e começa a falar.)
MILTON SANTOS:
(Respira fundo, reflexivo.) Se alguém me dissesse, quando menino, correndo
pelas ruas de Brotas, na Bahia, que um dia eu teria a oportunidade de olhar o
mundo não apenas com os olhos, mas com a razão crítica... eu teria sorrido. O
menino que fui, encantado pelos livros e pelas histórias que meu pai contava,
não poderia prever a jornada que me trouxe até aqui. Mas a geografia... a
geografia sempre esteve lá, mesmo quando eu ainda não sabia nomeá-la.
Meu pai era um professor. Foi ele quem me apresentou às letras, à
importância do saber. A educação, para nós, era uma missão, um compromisso
sagrado. E a escrita veio cedo: fui jornalista ainda jovem, tentando narrar o
mundo com palavras. Mas escrever sobre o espaço, sobre a terra que pisamos, sobre
as desigualdades que moldam os lugares... ah, isso me levou além.
A geografia surgiu como um chamado. Um chamado para compreender não apenas
montanhas e rios, mas o modo como os homens transformam o espaço e são
transformados por ele. Descobri que não basta descrever paisagens; é preciso
entender as contradições que nelas habitam, as marcas da história, as feridas
do poder.
Minha trajetória me levou para longe. Da Bahia para Paris, de Paris para
tantos outros lugares. Testemunhei de perto a perversidade de um mundo que
insiste em excluir, segregar, marginalizar. A geografia tradicional servia aos
interesses dos poderosos, mas eu não podia aceitar isso. Minha contribuição,
creio, foi tentar construir uma outra geografia, uma geografia crítica, humana,
solidária.
Sim, eu falei sobre o meio técnico-científico-informacional, sobre o espaço
banalizado pelo capital, sobre os circuitos da economia urbana. Mas, no fundo,
o que sempre me moveu foi a luta para devolver à geografia sua dimensão ética.
Para fazer dela um instrumento de libertação, não de opressão.
A cultura, por sua vez, é uma geografia viva. Cada comunidade, cada povo,
cada quilombo carrega em si uma forma particular de habitar o mundo. A
globalização, como nos impõem, tenta apagar essas diferenças, mas eu acredito
no contrário: o futuro será melhor se soubermos respeitar e valorizar a
diversidade. Pois a geografia é também a ciência da esperança, e o planeta
Terra não precisa ser o palco das injustiças eternas.
(Um silêncio. Ele retira os óculos, passa a mão no rosto.)
E assim sigo, com a convicção de que um outro mundo é possível. Mas para
isso, é preciso enxergá-lo com olhos atentos e coração inquieto. Pois, como
dizia meu pai, o conhecimento liberta. E a geografia, quando feita com
compromisso, é uma forma de justiça.
(Aperta o botão de pausa. Olha para o gravador, como se meditasse sobre suas
próprias palavras. Fade out.)
Maurício Menossi Flores
A Existência Como Linguagem.
Personagem: Professor José Luiz Fiorin.
(Cena: Uma sala de aula iluminada por uma grande janela. O professor José
Luiz Fiorin, um homem de semblante tranquilo e olhar curioso, caminha entre as
carteiras, segurando um livro aberto. Com um gesto pausado, ele fecha o livro e
começa sua aula, olhando para seus alunos.)
JOSÉ LUIZ FIORIN:
(Com um sorriso leve.) A língua é um labirinto fascinante. Quando eu era menino,
sentado à mesa do café da manhã, minha mãe dizia: “José Luiz, não fale de boca
cheia!”. E vejam bem, essa frase não trata apenas de boas maneiras. Ela tem um
sujeito oculto, uma norma implícita, uma estrutura sintática que revela mais do
que parece. Desde cedo, eu já era cercado por regras e padrões que não via, mas
que regiam a comunicação.
(Pausa. Ele se apoia na mesa da sala de aula.)
A linguagem, meus caros, não é um amontoado de palavras soltas. Ela tem
organização, tem estrutura. Há quem pense que falar é um ato simples, mas eu
lhes digo: cada frase carrega uma história, um sistema, um conjunto de
escolhas. Quando eu brincava com meus amigos na rua e alguém gritava: “Corre,
José!”, eu podia entender muito mais do que o verbo. Havia ali um comando, um
apelo, um contexto que moldava o significado.
(Ligeira pausa, ajeita os óculos.)
Foi essa curiosidade que me levou a estudar linguística. Como podemos
comunicar ideias tão complexas com tão poucas palavras? Por que certas frases
soam estranhas enquanto outras fluem com naturalidade? E, o mais importante,
quem define o que é certo e errado na língua?
(Aproxima-se da lousa e escreve: “Linguagem é poder.”)
Sim, a linguagem é um instrumento de poder. Quando eu entrei na
universidade, percebi que havia uma fronteira invisível entre aqueles que
dominavam a norma culta e aqueles que eram marginalizados por sua forma de
falar. A sociedade impõe hierarquias linguísticas, e o linguista, ao invés de
ser um juiz que condena os ‘erros’, deve ser um observador que compreende as
variações e os contextos.
(Vira-se para os alunos, intensificando o tom.)
Não há língua pura. Não há língua sem história. Quando eu me tornei
professor, aprendi que ensinar linguística não é apenas explicar estruturas
sintáticas ou analisar discursos. É mostrar que cada fala tem um peso cultural,
que cada variação carrega um traço da identidade de um povo.
(Sorri, nostálgico.)
Quando visito minha terra natal e escuto as expressões que aprendi na
infância, percebo que a língua não é apenas um sistema. Ela é memória. Ela é
afeto. E é isso que quero que vocês levem desta aula: entender a linguagem é
entender o humano. E, no fim das contas, que poder maior pode haver do que
esse?
(O professor fecha o livro, respira fundo e sorri, encerrando a aula.)
Maurício Menossi Flores
Os professores Milton Santos e José Luiz Fiorin são os primeiros mestres brasileiros a serem retratados e debatidos. Para Milton Santos a base é o programa Roda Vida, da TV Cultura, de 1997. Já a peça mostrando José Luiz Fiorin é inspirada em curso dado na TV Cultura, no programa Cursos Livres, de 2011.
Por enquanto, a intenção não é montar os espetáculos, mas escrever as peças teatrais e criar os zines...


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