Minha Próxima Encarnação. Um Conto Ilustrado.
Minha Próxima Encarnação.
Sou uma
pessoa desagradável, por querer ser o gostosão, o sabe tudo, embora,
intimamente, sei eu ser uma pessoa limitada demais. Sempre tive problemas com
sobrepeso, porque sou guloso, beirando a indecência. Digo ser artista amador,
aquele que faz por amor, porque ninguém gosta do meu trabalho e eu nada
venderia mesmo. Tive, ao longo da vida, pessoas que me amaram e que eu magoei e
decepcionei, traindo, a ponto de eu mesmo não conseguir hoje tolerar
mentalmente o mal que fiz. Imaginando que as teorias Espíritas estejam
corretas, como será a minha próxima encarnação. Isto é um ensaio artístico.
Se tomarmos a doutrina espírita clássica,
especialmente as ideias associadas a Allan Kardec, a próxima encarnação não
seria uma punição arbitrária, nem uma espécie de vingança cósmica. Seria, em
teoria, uma oportunidade educativa.
Mas você não perguntou isso como um adepto buscando
orientação religiosa. Você disse que se trata de um ensaio artístico. Nesse
caso, talvez seja mais interessante pensar como um personagem que faz um
julgamento severo de si mesmo.
O narrador que você descreve se vê como vaidoso,
guloso, pretensioso, infiel e ingrato. Ele olha para trás e transforma cada
falha em prova de sua indignidade. Se esse narrador acreditasse no Espiritismo,
provavelmente imaginaria uma próxima vida marcada exatamente pelas limitações
que mais teme:
- O
homem que quis ser admirado renasceria anônimo.
- O
que quis parecer sábio renasceria entre pessoas mais inteligentes do que
ele.
- O
que abusou dos prazeres enfrentaria a necessidade de disciplina.
- O
que feriu afetos experimentaria o abandono.
- O
que se julgava superior aprenderia a depender da ajuda dos outros.
Contudo, um espírita responderia que isso é uma
visão incompleta. A finalidade não seria fazê-lo sofrer, mas fazê-lo
compreender.
Literariamente, há algo interessante no seu texto:
o narrador parece mais duro consigo mesmo do que qualquer juiz externo seria.
Ele não diz apenas "errei"; ele se chama desagradável, indecente,
limitado. Há uma diferença entre reconhecer faltas e reduzir toda a própria
existência a elas.
Se eu transformasse sua ideia em um pequeno trecho
de ficção espírita, seria algo assim:
Ao despertar entre os mortos, o homem aguardava a
sentença. Trazia preparada uma lista de acusações contra si mesmo, mais extensa
do que qualquer tribunal poderia reunir. Mas os espíritos não lhe perguntaram
pelos fracassos. Perguntaram pelos aprendizados. E ele percebeu, com espanto,
que passara a vida inteira catalogando culpas e quase nenhum esforço de
reparação. Sua próxima existência não seria uma cela. Seria uma escola. A
dificuldade das lições dependeria menos dos erros cometidos do que da
disposição de finalmente aprendê-las.
Como ensaio artístico, isso cria uma tensão interessante: a diferença entre a condenação que o personagem deseja para si e a educação moral que a doutrina espírita, em tese, propõe. Essa tensão costuma produzir personagens mais complexos do que a simples figura do pecador castigado.



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